2

Será que estamos de fato sozinhos? Parasitos e os efeitos da microbiota intestinal no corpo humano

O termo microbiota descreve um conjunto de microrganismos que habitam um determinado ecossistema, e a microbiota intestinal é composta por todos aqueles microrganismos que ocorrem no sistema gastrointestinal que coevoluíram com a espécie humana, sendo essencial para a sua saúde. A microbiota é adquirida através da mãe, durante o parto, amamentação, e também após este período durante a introdução a alimentos diversos.

A microbiota intestinal possui diversos papéis que determinam a fisiologia do hospedeiro. Por exemplo são responsáveis pela maturação do sistema imunológico, resposta intestinal a lesões no epitélio celular, e também pelo metabolismo energético. Múltiplos fatores afetam a sua diversidade, como o sexo, idade, fatores genéticos, dieta e histórico de infecções (quem diria que esses seres microscópicos teriam um papel tão importante?).

microbiota1

Imagem retirada de CC0 Public Domain

Os mamíferos possuem um genoma extenso relacionado aos microrganismos que se localizam no intestino. O metabolismo da microbiota intestinal já foi diretamente  relacionado a patogêneses como obesidade, doenças circulatórias e          inflamações no sistema gastrointestinal. E quais são os principais microrganismos que habitam nossa flora intestinal? Existem 4 filos principais de bactérias no intestino dos mamíferos: Firmicutes; Bacteroidetes; Actinobacterias; Proteobacterias.

A microbiota extrai a energia necessária através da comida ingerida, acumulação de lipídios, e síntese de vitaminas, assim como outras atividades metabólicas. A desregulação destes processos pode resultar em doenças de nível metabólico, já que estes microrganismos têm a habilidade de quebrar componentes que não capazes de serem digeridos, aumentando a absorção de energia. Estas doenças, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares são um problema de saúde pública, e o entendimento sobre a ligação entre estas doenças e a microbiota é absolutamente necessário. Porém, não são só os componentes de dieta, o sistema imunológico e genético que podem vir a alterar a microbiota intestinal. Diversos estudos têm demonstrado que parasitos podem alterar a microbiota do nicho em que eles habitam, levando a inflamação e alterações metabólicas.

 

Os vermes e a microbiota

microbiota2

Necator americanus. Fonte: David Scharf / Science Source

 

Mais ou menos um quarto da população humana está infectada por helmintos (sabe a lombriga? Pois é, ela mesma e outras espécies também). Os parasitos de humanos mais comuns são os geohelmintos (que passam parte do ciclo de vida no solo), como a lombriga (Ascaris lumbricoides), Necator americanus, verme que causa a ancilostomíase, e Trichuris trichiura  que causa a tricuríase. Estes endoparasitos comumente residem no aparelho intestinal.

É sabido que os helmintos secretam (cruzes!) uma variedade de produtos que podem alterar o nicho ambiental que eles dividem com os outros microrganismos. A microbiota, em contrapartida, providencia uma barreira robusta contra a colonização destes parasitos. Outros estudos também mostram que a imunidade é induzida e regulada através da microbiota intestinal e células do sistema imune do epitélio intestinal (clique aqui e aqui para ver outros textos sobre o assunto no blog!) . Estes estudos mostram experimentalmente a capacidade de um parasito do camundongo, Trichuris muris, de alterar a colonização bacteriana e eventualmente proteger o intestino de camundongos de uma possível patologia causada por estas bactérias no intestino.

A infecção por helmintos pode afetar a microbiota, porém se estas alterações são benéficas ou não, aí depende dos fatores que estão relacionados a infecção: por exemplo a condição do hospedeiro e sua suscetibilidade, além da coinfecção com outros parasitos. Além disso, uma quantidade grande de vermes no intestino pode também alterar a suscetibilidade do hospedeiro a infecções secundárias.

Porém, estudos experimentais demonstraram que helmintos também podem impactar no metabolismo indiretamente, devido a alteração da microbiota por um longo período de tempo de infecção. Por exemplo, estudos epidemiológicos sugeriram que uma baixa diversidade bacteriana está diretamente relacionada à deposição de gordura e a inflamação à obesidade. A infecção por helmintos pode estar associada a diversidade bacteriana e, portanto, ter um efeito positivo e diminuir a obesidade.

Outras pesquisas conseguiram estabelecer um link entre aterosclerose, microbiota e helmintos. As bactérias comumente encontradas na cavidade oral têm sido encontradas nas placas ateroscleróticas e sua presença é relacionada a aumento da infiltração de leucócitos. Por sua vez, a infecção por helmintos tem uma correlação positiva com a proteção de doenças cardiovasculares, já que a ocorrência de helmintos pode diminuir os níveis de colesterol e a possibilidade de aterosclerose e consequentemente, doenças cardiovasculares. Os estudos mostram que a resposta do sistema imunológico também tem um papel importante assim como os antígenos secretados pelos helmintos.

microbiota3

Créditos da imagem: http://saude.culturamix.com

Entretanto, ainda assim são necessários mais estudos já que outras pesquisas relacionadas a microbiota e obesidade em camundongos demonstraram que a dieta também tem um papel importante. Nestes estudos camundongos magros colonizados por uma microbiota de indivíduos obesos começaram a apresentar um aumento no tecido adiposo e na gordura total do corpo.  

As doenças metabólicas têm sido um problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Muitas variáveis afetam as interações e associações entre a microbiota, o hospedeiro e os parasitos. Ainda, nem todos os parasitos atuam da mesma forma, e pouco se sabe sobre as secreções e sua influência na microbiota. Investigações ainda estão em andamento relacionados a doenças metabólicas e suscetibilidade genética, status imunológico e dieta. Porém, não podemos descartar o entendimento sobre mudanças na microbiota causadas por parasitos.                     

lombriga

Créditos: facebook.com/ minhalombriga

 

Será que é tão ruim ter uma lombriguinha na barriga?

 

 

 

 

Referências:

  1. Bhattacharjee, S., Kalbfuss, N., & Prazeres da Costa, C. (2017). Parasites, microbiota and metabolic disease. Parasite immunology, 39(5), e12390.
  2. Kinross, J. M., Darzi, A. W., & Nicholson, J. K. (2011). Gut microbiome-host interactions in health and disease. Genome medicine, 3(3), 14.
Anúncios
0

Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

foto blog

Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).

2

Veículos elétricos: como carregar de forma rápida e eficiente?

Há alguns anos vem crescendo a importância dos carros elétricos nas frotas no mundo todo. As emissões de gases do efeito estufa são em grande parte causadas pelos inúmeros veículos nas grandes cidades, reduzindo a qualidade do ar e prejudicando o meio ambiente. Carros totalmente elétricos (EV = Electric Vehicle) são equipados com motores que funcionam através de baterias recarregáveis com energia elétrica, e não emitem gases poluentes, sendo melhores para o meio ambiente a longo prazo [1]. No entanto, um dos grandes problemas que limitam o uso destes carros atualmente é a escassez de estações para recarga dos veículos, fazendo com que seja muito difícil planejar viagens longas e até mesmo impossibilitando a sua utilização em serviços de táxi ou de entregas, por exemplo, que possuem alta circulação diária.

Normalmente veículos elétricos precisam ser conectados em estações de carregamento e demoram de 4 a 15 horas para carregar totalmente em carregadores de 7 kW (Tabela 1). Os carros com maior capacidade atualmente são capazes de rodar até 540 quilômetros com uma carga completa (Tesla Modelo S de longo alcance [2]), mas o Nissan LEAF, que atualmente possui a maior fração do mercado de veículos elétricos, tem alcance de 270 km com a bateria de 40 kWh (ou 370 com a bateria de 62 kWh, que é bem mais cara) [3]. Imagine planejar uma viagem de 500 quilômetros e ter que parar e esperar 4 horas parado enquanto o carro carrega para poder continuar a viagem.

abela

Tabela 1. Tempo para carga de veículos elétricos com carregadores de diferentes potências. Fonte: Pod Point [4]

Alguns países na Europa estão investindo bastante em veículos elétricos. Graças a subsídios e investimentos do governo, a Noruega é o país com maior número de veículos elétricos per capita no mundo [5]. Em outubro de 2018, os veículos elétricos chegaram a 10% de todos os veículos de passageiro no país [6], e, de todos os veículos elétricos no mundo, 39,2% estão na Noruega [7]. Uma das principais metas do governo atual da cidade é garantir que até o ano de 2023, 100% da frota de táxis seja composta por veículos elétricos [8]. Mas como solucionar o problema da carga?

A carga dos veículos elétricos normalmente é realizada através de carregadores do tipo plug-in, que parecem com tanques de abastecimento em postos de gasolina e precisam ser conectados ao carro, como o da Figura 1. Para uso doméstico, normalmente não é problema carregar o carro em casa, ainda que os carregadores sejam de baixa potência (3 kW normalmente) e levem até 11 horas para uma carga completa, como é o caso do Nissan Leaf [9]. Mas em um país com objetivos a tão curto prazo para substituição da frota de táxis, uma solução melhor deve ser proporcionada para evitar que os taxistas tenham que parar seus veículos durante o dia de trabalho para carregar.

leaf_charging

Figura 1. Veículo elétrico modelo Nissan LEAF durante carga. Fonte: EV Info [10]

Do mesmo jeito que pode ser mais conveniente carregar seu celular sem fios (como em determinados modelos do Samsung Galaxy e dos iPhones) [11,12], também pode ser bem mais conveniente carregar carros elétricos sem a necessidade de cabos. A empresa Plugless, dos Estados Unidos, vem desenvolvendo adaptadores para determinados modelos de veículos elétricos que possibilitam a carga sem a necessidade de cabos conectados ao carro, como mostrado na Figura 2 [13].

plugless_wirelesschargin

Figura 2. Esquema de carga sem fio da empresa Plugless [13]

A carga sem fio de veículos elétricos é feita por um processo de indução através de molas magnéticas alinhadas entre o adaptador no veículo (Vehicle Adapter) e a base (Parking Pad).  O carregador sem fio da Plugless carrega os carros com uma potência contínua de 7,2kW, e o site da empresa diz que para cada hora de carga, o carro pode andar de 20 a 25 milhas, ou seja, leva entre 13 horas e meia e 16 horas e 45 minutos para uma carga completa de um Modelo S da Tesla (que possui alcance de 540 km). Essa é uma ótima solução para evitar os cabos e a infra estrutura e manutenção relacionada com o desgaste destes cabos. Mas ainda não é a solução ideal para a Noruega.

wireless_fast_charging_oslo

Figura 3. Ponto de táxi na estação central em Oslo (Noruega), onde serão instaladas estações de carga rápida sem fio que carregarão os táxis automaticamente. Fonte: Fortum [8]

Nesta semana foi divulgado que a cidade de Oslo (capital da Noruega), em parceria com a empresa de energia limpa Fortum e com a empresa americana Momentum Dynamics, está investindo em um projeto de carga rápida para táxis elétricos [8]. Este projeto pretende instalar estações de carga rápida sem fio (com potência de 75 kW) no chão em pontos de táxi onde eles normalmente ficariam parados esperando por passageiros. Com isso, além dos taxistas não perderem tempo dos seus dias de trabalho para carregar os veículos, a carga é automática, então eles não correm o risco de esquecer de carregar o veículo e ficar sem bateria mais tarde. Esta solução pode ser boa não só para a Noruega, mas também para frotas de táxi em todo o mundo, que contribuem muito para o efeito estufa.

Realizar a substituição de táxis de todas as frotas do mundo por veículos elétricos obviamente não é viável. Porém, é interessante que exista um incentivo para que novos veículos utilizados no setor de transporte sejam elétricos (ou pelo menos híbridos [14]), contribuindo a longo prazo  para a diminuição da emissão de gases do efeito estufa.

Referências:

[1] Office of Energy Efficiency & Renewable Energy (acessado em 29/03/2019) https://www.energy.gov/eere/electricvehicles/reducing-pollution-electric-vehicles

[2] Tesla Motors (acessado em 29/03/2019) https://www.tesla.com/models

[3] Nissan (acessado em 29/03/2019) https://www.nissanusa.com/vehicles/electric-cars/leaf.html

[4] Pod Point (acessado em 28/03/2019) https://pod-point.com/guides/driver/how-long-to-charge-an-electric-car

[5] European Association for Battery, Hybrid and Fuel Cell Electric Vehicles (AVERE) (2012-09-03). “Norwegian Parliament extends electric car iniatives [sic] until 2018″. AVERE. Archived from the original on 2013-10-24. Retrieved 2013-04-10

[6] Kane, Mark (2018-10-07). “10% Of Norway’s Passenger Vehicles Are Plug Ins”. InsideEVs.com. Retrieved 2018-11-07.

[7] Norwegian Road Federation (OFV) (2019-01-02). “Bilsalget i 2018” [Car sales in 2018] (in Norwegian). OFV. Retrieved 2019-01-03.

[8] Fortum (acessado em 25/03/2019) https://www.fortum.com/media/2019/03/fortum-and-city-oslo-are-working-worlds-first-wireless-fast-charging-infrastructure-taxis

[9] https://www.drivingelectric.com/your-questions-answered/98/how-long-does-it-take-charge-electric-car

[10] EV Info (acessado em 03/04/2019) https://evinfo.info/economist-article-on-ev-usage/

[11] Samsung (acessado em 29/03/2019) https://www.samsung.com/global/galaxy/what-is/wireless-charging/

[12] Apple (acessado em 29/03/2019) https://www.apple.com/iphone/

[13] Plugless Power (acessado em 28/03/2019) https://www.pluglesspower.com/learn/mainstream-electric-cars-are-headed-towards-wireless-charging/

[14] Autopapo (acessado em 29/03/2019) https://autopapo.com.br/noticia/entenda-os-tres-tipos-de-carros-hibridos/

0

“Eu estava aqui o tempo todo e só você não viu”: Quando velhos remédios tratam novas doenças

Existem vários mitos envolvendo a indústria farmacêutica: que já existe cura para a doença X, mas a indústria não fala só para continuar vendendo o remédio Y; que o remédio Z causa autismo, mas ninguém fala para não perder vendas, entre outras que você pode ver aqui se são verdade ou não.

Você tem ideia que um medicamento pode levar de 10 a 20 anos para ter sua eficácia e segurança comprovada? São anos de pesquisa no laboratório depois mais outros vários anos testando em humanos, fora o tempo de papelada burocrática, de análises de dossiês e relatórios. Esse aí embaixo é um esquema “muito simplificado” das etapas necessárias para se descobrir um novo medicamento para uma doença. (Nós já falamos sobre isso aqui antes! venha conferir!)

nrd.2017.217-f1

Legenda: Esquema sugerido pelo Fórum de Descoberta e Desenvolvimento de novos Medicamentos da Academia de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos para representar um resumo das etapas existentes entre a identificação de uma molécula com potencial terapêutico até sua transformação em medicamento. O início está representado na parte superior do esquema na área laranja e o fim na parte amarela (veja o texto completo aqui).

 

Diante desse cenário, uma pergunta sempre vem à tona: quando passamos por endemias como é o caso da Zika e Chikungunya não podemos esperar tanto tempo: como são descobertos medicamentos para esse tipo de doença? Uma alternativa para otimizar o tempo de descoberta é usar medicamentos que já estão no mercado e verificar se ele funciona para o tratamento de outra doença. Essa abordagem é conhecida como Reposicionamento de Fármacos. Para se ter uma ideia, no esquema mostrado acima, isso significa que o processo se restringiria à metade inferior do esquema.

Pensando nessa estratégia, pesquisadores da Fiocruz – RJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, se reuniram e testaram a seguinte hipótese: se o medicamento sofosbuvir é usado para o tratamento da hepatite C, que é causada por um vírus da família dos flavivírus, esse mesmo medicamento seria eficaz contra outras doenças causadas por outros vírus da mesma família como a chikungunya e febre amarela? Os autores mostraram que animais infectados com chikungunya e tratados com sofosbuvir apresentavam menos sintomas relacionados à infecção como perda de peso e inchaço nas articulações das patas. Esse efeito foi atribuído a redução da quantidade de vírus circulante, ou seja, o medicamento foi capaz de inibir a replicação do vírus. Ora, o sofosbuvir mata o vírus da hepatite C, em 2017 foi mostrado que também tem esse efeito sobre o vírus zika e agora os pesquisadores mostraram o efeito sobre o chikungunya, por que não tentar para febre amarela? De fato, os autores comprovaram que esse medicamento também foi capaz de reduzir a replicação do vírus da febre amarela e, com isso, reduzir os sintomas como perda de peso e melhora da função e na inflamação hepática observadas durante a infecção.

Slide1

Legenda: Figura mostrando como o tratamento com sofosbuvir melhora a aparência e edema das patas que que receberam o vírus chikungunya

A semelhança entre a estrutura física, bioquímica e metabólica dos vírus de uma mesma família faz com que o medicamento tenha o mesmo efeito nos diferentes subtipos de vírus. O sofosbuvir atua numa enzima essencial à replicação de todos os vírus dessa família, a RNA polimerase. Mas cada membro da família tem suas próprias características e tendem a se alojar numa parte diferente do corpo: o zika fica no cérebro, o chikungunya nas articulações e o da febre amarela no fígado. O que não se sabia, até agora, era se ao administrar o medicamento seria possível alcançar o vírus em seu local de ação.

E quando poderemos usar o sofosbuvir para tratar chikungunya, zika ou febre amarela?! Calma, o reposicionamento de fármacos adianta o processo mas não podemos abrir mão de garantir a eficácia e segurança de seu uso para essas doenças. Como próximos passos, os pesquisadores devem avaliar se o sofosbuvir é realmente eficaz em tratar humanos doentes. Além disso, é preciso garantir que o tratamento seja seguro, ou seja, não cause efeitos colaterais nos doentes. Não é porque ele não causa reações no paciente com hepatite que podemos extrapolar para o paciente com febre amarela. Mas sigamos esperançosos, o caminho é longo, mas menor do que o antigo!   

Referências

de Freitas CS, Higa LM, Sacramento CQ, Ferreira AC, Reis PA, Delvecchio R, Monteiro FL, Barbosa-Lima G, James Westgarth H, Vieira YR, Mattos M, Rocha N, Hoelz LVB, Leme RPP, Bastos MM, Rodrigues GOL, Lopes CEM, Queiroz-Junior CM, Lima CX, Costa VV, Teixeira MM, Bozza FA, Bozza PT, Boechat N, Tanuri A, Souza TML. Yellow fever virus is susceptible to sofosbuvir both in vitro and in vivo. PLoS Negl Trop Dis. 2019 Jan 30;13(1):e0007072. doi: 10.1371/journal.pntd.0007072.

 

Ferreira AC, Reis PA, de Freitas CS, Sacramento CQ, Villas Bôas Hoelz L, Bastos MM, Mattos M, Rocha N, Gomes de Azevedo Quintanilha I, da Silva Gouveia Pedrosa C, Rocha Quintino Souza L, Correia Loiola E, Trindade P, Rangel Vieira Y, Barbosa-Lima G, de Castro Faria Neto HC, Boechat N, Rehen SK, Brüning K, Bozza FA, Bozza PT, Souza TML. Beyond Members of the Flaviviridae Family, Sofosbuvir Also Inhibits Chikungunya Virus Replication. Antimicrob Agents Chemother. 2019 Jan 29;63(2). pii: e01389-18. doi: 10.1128/AAC.01389-18.

 

Ana C. Vicente, Francisca H. Guedes-da-Silva, Carlos H. Dumard, Vivian N. S. Ferreira, Igor P. S. da Costa, Ruana A. Machado, Fernanda G. Q. Barros-Aragão, Rômulo L. S. Neris, Júlio S. Dos-Santos, Iranaia Assunção-Miranda, Claudia P. Figueiredo, André A.Dias, Andre M. O. Gomes, Herbert L. de Matos Guedes, Andrea C. Oliveira, Jerson L.Silva Yellow Fever Vaccine Protects Resistant and Susceptible Mice Against Zika Virus Infection bioRxiv 587444; doi: https://doi.org/10.1101/587444