Cancro da mama: É urgente criar uma “onda rosa” nas ciências sociais!

Existem inúmeras mulheres diagnosticadas com cancro de mama que se submeteram a uma mastectomia bilateral e que se recusaram a qualquer reconstrução cirúrgica ou a utilizar próteses mamárias. Isto deve, forçosamente, conduzir-nos, nas ciências sociais, a uma reflexão sobre esta doença e as suas consequências, que ultrapassam as questões ligadas à saúde física. Ora, vejamos, apesar da narrativa dominante ser a da normalidade da reconstrução cirúrgica após uma mastectomia, levando-nos a crer que a reconstrução é a norma – seguindo um padrão de beleza normativo de género estereotipado -, um estudo de 2014, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova Iorque, revelou que 58% das mulheres submetidas a uma mastectomia optam por não fazerem reconstrução cirúrgica, apresentando como principais razões: o desejo de evitar uma cirurgia adicional, o medo de implantes mamários e a sensação de que a reconstrução não era importante. Tendo em conta o facto de que a sociedade actual vive obcecada com a juventude e a beleza, qualquer sinal de doença é para esconder, principalmente quando a doença implica a eliminação de indicadores externos de género.

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Pormenor de “Woman Arranging Her Hair”, de Auguste Renoir (1841-1919), foto de Helena Ferreira, no Hermitage de São Petersburgo

O cancro de mama é o tipo de cancro mais comum nas mulheres, em todo o mundo (Cordero et al, 2014). Para além de agredir o corpo físico, ele tem um elevado impacto na imagem corporal, o que gera amplas consequências nas questões de identidade (Carpenter et al, 1999, Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005) e na auto-estima (Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005). Sobreviventes de cancro podem querer restaurar identidades anteriormente mantidas, desenvolver novas identidades, ou aprender a misturar tudo de forma satisfatória. As mulheres expressam ansiedade acerca da potencial perda de atractividade sexual e da perda de seus companheiros (Santos et al, 2014). Como bem se sabe, a identidade das mulheres tem como base a sua “beleza” física estereotipada, por isso, elas costumam ser vulneráveis à aprovação externa, fazendo com que o seu amor próprio fique exposto a todos e a todas. Ressalve-se que o mito da beleza feminina não tem absolutamente nada a ver com uma suposta essencialidade natural das mulheres, mas sim com construções sociais ligadas às instituições masculinas e ao poder institucional dos homens (Wolf, 1992).

Em nossa sociedade, “o peito, a casa do coração, é um centro importante da pessoa, como ser” (Young , 2005, p.75). Quando falamos de nós mesmos, apontamos para o peito, não para o nosso rosto. No caso das mulheres, quando colocamos as mãos sobre o coração, colocamo-las entre as mamas: elas estão entrelaçadas com o senso que temos de nós mesmas. Para a grande maioria das mulheres, as mamas são um importante componente da imagem que temos de nós próprias e do nosso corpo. Para nós (e para os outros), as mamas são o maior significante visível da nossa feminilidade (Fang et al, 2010; Sischo et al, 2015; Young, 2005), que é maior ou menor conforme o tamanho e a forma dos nossos seios (Young, 2005).

Para Young (2005), as mamas são um objecto fetichizado comparáveis a um falo, porque este é a medida e único símbolo do desejo e da sexualidade. A cultura machista constrói as mamas como objectos, pelo que estas, como símbolo da sexualidade feminina, devem ser como o ideal de falo: grandes, duros e erectos. A mulher experiencia esta objectificação em função do olhar do macho, ou seja, o corpo feminino é para ser visto, julgado e avaliado pelos homens. Mais do que isso, as mamas de uma mulher não lhe pertencem, são pertença do marido, do amante ou do bebé. Segundo Young (2005), as mamas, sem o olhar masculino, são como qualquer outra parte do corpo. As mamas também estão associadas à maternidade – que como é evidente nas mentes do patriarcado – se opõe à sexualidade. Essa dicotomia maternidade/sexualidade conduz a outras dicotomias que jogam com a repressão do próprio corpo: bom/mau, puro/impuro, amor espiritual/amor carnal. Aliás, é por esse mesmo motivo de se encontrarem na fronteira entre a maternidade e a sexualidade que as mamas são um escândalo quando surgem à vista, tanto no mundo real, quanto virtual. Os mamilos são tabu, porque deixam o patriarcado confuso: os homens não sabem se os devem colocar na “gaveta” da maternidade ou da sexualidade. Se os colocam na primeira, associam-nos à pureza e devem estar tapados. Se os colocam na segunda, a associação é à obscenidade e devem continuar tapados.

Voltando à reconstrução mamária, as mulheres sabem que tanto a prótese como a cirurgia de reconstrução servem para esconder e negar a suposta perda da feminilidade, criando a sensação diária que voltam a estar no mundo com mamas. Tanto a prótese, como a reconstrução dão primazia à aparência e à reconstituição visual de um corpo de mulher, que tem por obrigação proteger os outros da sua deformidade e, acima de tudo, proteger a si mesma dos olhares de repugnância. Ou seja, existe a cultura de escravizar a mulher a esforçar-se para surgir com o corpo que consideram “normal” após a perda de uma ou das duas mamas (Young, 2005). Isto torna impossível que as mulheres que perderam as mamas aceitem o seu novo corpo e torna a experiência das mulheres completamente invisível, não só para as que não querem pensar sobre o cancro e perda das mamas, mas também para as que o viveram. Tendo em conta, a assustadora frequência do cancro de mama, essa primazia da “normalização” do corpo, silencia e isola inúmeras mulheres. Não se oferece às mulheres a oportunidade de transformar a sua identidade corporal numa mulher sem mamas e a amar-se com esse corpo. Inclusive, estudos revelam que mesmo as mulheres que insistem em que as decisões sobre as suas mamas são apenas delas apresentam, regularmente, noções, valores e expectativas da sociedade (Sischo & Martin, 2015). Na interacção social, ao longo da vida, os indivíduos aprendem o que se espera deles e agem segundo essas expectativas, construindo e, ao mesmo tempo, mantendo o status quo da “normalidade”.

A construção de género ocorre através de rotas discursivas: para ser boa mãe, para ser um heterossexual desejável, para ser uma boa trabalhadora, para ter um corpo perfeito, ou seja, dar múltiplas garantias para responder a uma variedade de requisitos ao mesmo tempo (Butler, 1990). Em todas as suas experiências, os seres humanos constroem o seu género comportando-se como aprendem e é apropriado ou resistindo e rebelando-se contra as normas. Os sujeitos não são livres para se distanciar ou elidir as normas, porque elas constituem o sujeito de maneira retroactiva, mediante a sua repetição. Sendo assim, o sujeito é o efeito dessa repetição. “Ao que poderíamos chamar de ‘capacidade de actuação’, ‘liberdade’, ou ‘possibilidade’ é sempre uma prerrogativa política produzida pelas brechas que se abrem nessas normas reguladoras” (Butler, 1990). Ou seja, a capacidade de actuação, a liberdade e a possibilidade estabelecem-se sempre dentro de uma matriz de relações de poder. Os actos performativos reiteram ou repetem as normas anteriores pelas quais nos constituímos, repetindo-as obrigatoriamente sem as poder descartar por vontade própria. Essas normas que confirmam e delimitam os indivíduos são também os meios através dos quais se cria a resistência e a subversão. A norma pode aumentar a sua hegemonia mediante a sua desnaturalização. Mas, em circunstâncias em que nos podiam aniquilar, converte-se num espaço de resistência, na possibilidade de uma importância social e política efectiva.

É esse o papel das Ciências Sociais: demonstrar, através do debate, que a alteração dos corpos, representa a transgressão de uma norma, que gera uma ordem de valores alternativos. Valores esses que são bem mais importantes que os que existiam, porque têm em conta apenas as expectativas de cada um dos novos corpos sem mamas. Desconstruir os padrões de beleza femininos criados pelo patriarcado e destruir os tabus que existem relativamente às mamas e aos mamilos femininos é também uma tarefa da Psicologia, da Sociologia, dos Estudos de Género, dos Estudos sobre as mulheres, dos Estudos Culturais… Em suma, das Ciências Sociais, seja na “onda rosa” dos meses de Outubro, ou em outros momentos, desde que se abra à comunidade e se “parta a pedra toda”.

Butler, J. (1990). Gender trouble and the subversion of identity. New York: Routledge.

Carpenter J.S., Brockopp D.Y. & Andrykowski M.A. (1999). Selftransformation as a factor in the self-esteem and well-being of breast cancer survivors. Journal of Advanced Nursing, 29, 1402– 1411.

Cordero, M.J.A., Sanchéz, M.N., Villar, N.M., Valverde, E.G., e López, A.M.S. (2014). Percepción de la imagen corporal de la mujer intervenida de cáncer de mama y residente en la ciudad de Granada. Revista Española de Nutrición Comunitaria, 20 (1), 2-6.

Fang, S. Y., Chang, H. T. & Shu, B.C. (2014). Objectified Body Consciousness, Body Image Discomfort, and Depressive Symptoms Among Breast Cancer Survivors in Taiwan, Psychology of Women Quarterly, 1-12.

Santos, D.B., Ford, N.J., Santos, M.A. & Vieira, E.M. (2014). Breast cancer and sexuality: the impacts of breast cancer treatment on the sex lives of women in Brazil. Culture, Health & Sexuality: An International Journal for Research, Intervention and Care, Vol. 16 (3), 246-257.

Sischo, L & Martin, P.Y. (2015). The Price of Femininity or Just Pleasing Myself? Justifying Breast Surgery. Gend. Issues, 32, 77–96.

Takahashi, M. & Kai, I. (2005). Sexuality after breast cancer treatment: Changes and coping strategies among Japanese survivors. Social Science & Medicine, Vol. 61 (6), 1278-1290. Culture, Health & Sexuality, Vol. 16 (3), 246-257.

Wolf, N. (1992). 0 Mito da Beleza, Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco

Young, I. M. (2005). On Female Body Experience, Throwing Like a Girl and Other Essays. Oxford: Oxford University Press, Inc.

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