A mulher e o riso: uma entrevista com Késia Gomes da Silva

Késia Gomes da Silva (23 anos) se formou em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 7 de dezembro 2018, data da defesa do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “A chacota dos homens: a mulher e o riso na revista Vida Capichaba”, orientado pelo Professor Paulo Roberto Sodré. O trabalho foi fruto de uma Iniciação Científica (edital 2017-18) que lhe rendeu Menção Honrosa da Universidade, em novembro.

CFs – Késia, o que significou, para você, a menção honrosa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFES?

KÉSIA – Minha pesquisa, sob orientação do professor Paulo Roberto Sodré, discute como o preconceito dos homens contra as mulheres provocava o riso na sociedade capixaba dos anos 1920, na coluna “Pavilhão das Bonecas” da revista Vida Capichaba.

VIDA CAPICHABA - Núm. 81 de 1926

Capa da VIDA CAPICHABA – Núm. 81 (1926)

Essa premiação, ao final da minha graduação, faz pensar que é sempre importante falar sobre mulheres, em especial, na literatura capixaba, que é tão esquecida no Estado. Então, quero levar isso para meus alunos e contribuir de alguma forma, como fiz com a UFES, principalmente hoje, em que a luta das mulheres contra o machismo e o preconceito é tão essencial. No cenário em que o Espírito Santo é o terceiro Estado com maior índice de violência e assassinato de mulheres, é sempre muito importante intervir de alguma forma e, sobretudo, dar voz para que mais mulheres possam contar a sua história a partir de si próprias. Essa Menção Honrosa significa um pouco disso para mim.

 

CFs – E na sua comunidade acadêmica, qual a importância dessa premiação?

KÉSIA – Acredito que seja uma conquista muito grande para nós, alunos da graduação. A Iniciação Científica nos ajuda muito a crescer, a nos desenvolvermos como pesquisadores, acadêmicos e profissionais. Eu fiquei muito surpresa quando meu orientador me comunicou que tinha sido escolhida para ser a representante do curso de Letras nessa premiação. A incredulidade não foi por não acreditar na minha pesquisa: eu sempre soube da potencialidade e relevância dela. Porém, no início, fiquei chocada porque, na verdade, nunca estamos esperando por isso e, dentre 70 trabalhos do edital 2017-2018, o meu foi escolhido como projeto destaque da Letras. Minha pesquisa está muito mais madura, ela cresceu bastante do ano passado para cá, e acredito que influenciará muitos estudantes do meu curso ou de outros a conhecerem mais sobre a nossa literatura.

 

CFs – Qual foi a sua maior motivação para começar essa pesquisa?

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Capa da VIDA CAPICHABA – Núm. 54 (1925)

KÉSIA – Eu quis fazer algo sério, que me tirasse da zona de conforto e que fosse contribuir, de fato, para as discussões travadas tanto no meio social quanto no acadêmico. A Literatura Capixaba é uma paixão que tenho e, quando resolvi me dedicar a ela, muita coisa mudou. Como eu disse, foi uma pesquisa séria, que comprometeu muita coisa, mexeu comigo, principalmente porque pouco se conhece dessa literatura. Mas também descobri um lado mais sensível, humano, forte e ativista em mim. Trabalhar com crônicas tão misóginas, dos anos 1920, foi um esforço grande, mas tive um orientador muito competente que, além de me apoiar e motivar para que me tornasse uma boa pesquisadora, ajudou a que eu desse conta do recado. Isso é muito importante; ter orientadores que sabem onde você quer chegar e auxiliam para que o retorno seja sempre positivo.

 

 

CFs – Na sua pesquisa, as crônicas analisadas são assinadas pelo pseudônimo “Olho de Vidro”. Para você, porque o autor teria adotado esse pseudônimo especificamente?

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Capa da VIDA CAPICHABA – Núm. 206 (1929)

KÉSIA – A revista “Vida Capichaba” tem muitos textos escritos sob pseudônimos. Um deles é o Olho de Vidro. Infelizmente, não consegui descobrir quem era o autor desses textos. Mas, no começo da revista de 1925, há uma nota do Olho de Vidro, em que indaga: “Qual a função do olho de vidro?”. Para ele, seria “ver além do que se pode”. Ele fala que, a partir daquele momento, vai olhar as situações do cotidiano como se antes não pudesse vê-las e, agora sim, vai criticá-las e satiriza-las de forma mais aguçada. Não só nas crônicas que analisei, mas também em outras, ele comenta coisas muito “particulares” sobre a atuação social urbana e, mais especificamente, sobre as mulheres que são o alvo das anotações maliciosas do autor.

 

CFs – E quanto ao nome da coluna? Ele teria algo a ver com o padrão estético de beleza da “boneca”?

KÉSIA – O fato de ter esse nome, “Pavilhão das Bonecas”, é justamente porque, quando alguém pega uma boneca, quer cuidar dela. As crianças, quando pegam em uma, querem ficar penteando o cabelo, quererem cuidar, manipular a boneca. Ele, o autor da coluna, faz justamente esse jogo de colocar a boneca representando a mulher que deve ser controlada e o nome “pavilhão” sugere um espaço destinado especialmente a elas. Ele é extremamente misógino. É muito cruel a analogia da boneca controlada e essa noção de que se pode fazer com a mulher o que se quiser, entender ou achar que tem que ser feito. E, para o autor, as mulheres teriam que aceitar essa condição. Por isso, a revista “Vida Capichaba” e a coluna, especificamente, tentavam construir e reproduzir o padrão dominador versus dominado.

 

CFs – Isso não lembra a posição de Walter Benjamin, sobre a história ter dois lados?

VIDA CAPICHABA - Núm. 56 de 1925

Capa da VIDA CAPICHABA – Núm. 56 (1925)

KÉSIA – De fato, esse trabalho diz bastante sobre essa questão do Walter Benjamin, de dar voz aos vencidos e não aos vencedores. Para dar voz às mulheres, tentei analisar o que elas faziam para tentar sair, fugir, desse padrão paternalista. Pude perceber que elas eram ridicularizadas por isso, como, por exemplo, serem consideradas “feias”. Na “Vida Capichaba”, inclusive, há um concurso de beleza, entre as moças de Vitória. A revista reproduziu, nesse momento, um ideal de beleza: rosto fino, cabelo curto, um determinado tipo de sobrancelha, entre outros traços, claramente ilustrados nas suas capas. Havia uma questão de estética, um padrão. A mulher era considerada feia ao sair desse padrão. Inclusive, Olho de Vidro fez uma crônica exclusiva sobre a mulher feia.

 

CFs – E como foi, para você, ter de ler e analisar tudo isso?

KÉSIA – Até cogitei desistir da pesquisa, porque parece que Olho de Vidro estava falando comigo. Ele estava falando de mulheres e eu sou uma mulher. Então, aquilo me doía muito. Até porque vemos muitas coisas similares acontecendo hoje. Atualmente, o ideal de beleza começa a ser desconstruído, mas ainda há opressão contra as mulheres, há tentativas de definição de nossos corpos, cabelos… Enfim, aquilo me machucava muito. Hoje em dia, eu me sinto melhor, e acho que é super necessário estudarmos isso para compreendermos o que está acontecendo atualmente.

 

CFs – Para finalizar, o que você pretende pesquisar a partir desse trabalho?

KÉSIA – No meu próximo projeto, para o mestrado, vou pesquisar sobre essa questão da “beleza versus feiura”, utilizando a crônica “A mulher feia” de Olho de Vidro, o concurso de beleza da revista “Qual a mais bela? Nosso concurso de beleza de Vitória” e uma coluna feminina da época, intitulada “Feminea”, na qual as mulheres reivindicavam esse padrão de beleza. Meu interesse por essa problemática despertou a partir da leitura de Olho de Vidro, pois em sua crônica notamos que os homens conservadores da época eram extremamente incomodados com a “feiura” feminina. Acredito que essa análise será muito importante para refletirmos sobre os ideais de beleza pregados na sociedade contemporânea.


NOTA: Até o fechamento da edição, a autora não havia publicado seu trabalho final. O relatório de pesquisa está no site dos Anais das Jornadas de Iniciação Científica, disponível em: <http://portais4.ufes.br/posgrad/anais_jornada_ic/desc.php?&id=12657> [último acesso: 09/03/2019]

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