Poder no feminino não é igual a feminismo ou Por que é que não festejamos quando algumas mulheres chegam ao poder?

Nos últimos tempos temo-nos deparado, nas redes sociais, com imensas acusações, diria mesmo “queixinhas” do tipo: “Uma mulher no comando de…(um cargo político, um serviço público, uma empresa privada, seja o que for…) e as feministas não comemoram!”

E, é verdade. Muitas vezes não comemoramos, porque não há nada para comemorar. Assim mesmo. Sem culpas! E isto é fácil de entender: se perdermos algum tempo para analisar os motivos que nos podem levar a celebrar quando uma mulher consegue um cargo de poder, chegamos à conclusão que são os que a seguir se enumeram, sem seguir uma ordem de importância:

  1. – progressos nas questões da igualdade de género, o que conduz a resultados mais justos para as mulheres e para a sociedade em geral;
  2. – uma questão de representatividade: ver muitas mulheres no poder faz-nos acreditar a todas que é possível chegar ao poder e as meninas passam a ter cada vez mais exemplos/modelos a seguir;
  3. – contribuição para a mudança de mentalidades do patriarcado: quantas mais mulheres ocuparem cargos de poder, mais influenciam a forma como a população observa e analisa o papel das mulheres na sociedade, aumentando desta forma o seu respeito e reconhecimento em cargos importantes no espaço público;
  4. – por sororidade: aquela união que deveria existir entre as mulheres, baseada no companheirismo que luta por alcançar objectivos em comum;
  5. – por confiança: reconhecimento que é mais fácil que mulheres produzam e influenciem medidas que beneficiam todas as mulheres e que defendam a igualdade de direitos;
  6. – Acreditar plenamente que a vitória de uma única mulher é importante para a vitória de todas as mulheres e que somos porque ela é, tal como ela é porque nós somos…;

 

MargaretTatcherFOTOGettyIMAGES

Margaret Thatcher Foto: GettyImages

E poderia talvez enumerar mais alguns motivos, mas todos levariam a um único ponto: celebramos a vitória de uma mulher, os seus avanços, as suas conquistas, porque ela é feminista e nem todas as mulheres que chegam ao poder o são. Tão simples assim!

No artigo “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” (Ferreira & Ferreira, 2018) [1], que se baseia numa leitura do romance histórico “A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa abordo e esclareço este assunto. A certa altura questiona-se: é a rainha Ginga feminista? Esta questão fazia todo o sentido, porque esta personagem era considerada um exemplo por muitos movimentos feministas. Quando esta questão foi colocada ao próprio Agualusa, ele respondeu algo extremamente interessante: “Não sei. Ela governava como um homem entre homens, como, por exemplo, a Margaret Thatcher. A Margaret Thatcher era feminista? Não me parece. Eu estou mais interessado num poder no feminino” (Agualusa 2015) [2]. E, com isto, o autor estabelece, de imediato, uma diferença entre feminismo e poder no feminino. Mas, para que se possa fazer esta distinção ou para se poder afirmar que alguém é ou não feminista, é importante definir o conceito, mesmo sabendo que “feminismo” é uma palavra que não tem sinónimo, nem um substituto adequado (Offen 2008) [3] e que é uma expressão que “esconde um mosaico de situações diferentes, muito afastadas de um conjunto homogéneo, sendo que a aparente comunhão de ideologias sob a bandeira do feminismo esconde a variedade de feminismos” (Tavares 2011:33) [4].

HilaryfotobyFLICKR

Hillary Clinton Foto: FLICKR

Para Karen Offen, o feminismo é “um projecto político que desafia a dominação masculina e a subordinação feminina e que insiste em restabelecer um equilíbrio de poder entre os sexos” (Offen, 2008: 36) [3]. Sendo assim, existem mulheres que desafiam sempre a dominação masculina a título individual, mas nunca mostram preocupação com as mulheres como colectivo e com o “equilíbrio de poder entre os sexos”. Não lutam contra as opressões sofridas pelas outras mulheres e, por vezes, até pelo contrário: no seu lugar de privilegiadas oprimem-nas e humilham-nas. Isso faz delas mulheres poderosas, que no seu momento produzem transformações para si próprias enquanto mulheres que têm acesso ao espaço reservado aos homens, e que talvez só por isso possam efectuar mudanças na vida de outras mulheres. Silvermint (2018) [5], no seu artigo Resisting for other reasons explica tudo isto muito bem, dando como exemplo duas mulheres: a Champion e a Trailblazer. Às duas mulheres é negada uma promoção no trabalho, devido a padrões despudoradamente sexistas. Enquanto Champion chama de imediato a atenção para as práticas discriminatórias, com a finalidade de promover a igualdade para todas as mulheres, isto é, resiste à opressão sexista com a única intenção de acabar com o sexismo, Trailblazer aponta o dedo às práticas discriminatórias para prosseguir no seu local de trabalho sexista, mas por outro lado gratificante. Ela pretende viver uma vida boa, construir uma grande carreira e por isso é necessário ultrapassar as barreiras opressivas que encontra no caminho. A Trailblazer não pretende resistir à opressão, ela resiste apenas com o objectivo de subir na vida. Ora, segundo o autor, isto não significa que ela não obtenha exactamente os mesmos resultados que a Champion neste caso específico, acabar com o sexismo e conseguir a igualdade para todas as mulheres no local de trabalho e também não indica que, lá porque não tinha intenções de resistir, não corra os mesmos riscos que a outra mulher, por ser uma resistente consciente à opressão e com intenções de lhe colocar um termo definitivo.

Há muitas mulheres que se encontram na mesma situação que Trailblazer, as suas intenções são única e simplesmente ultrapassar os obstáculos que se colocam no seu caminho, para atingir as metas a que se propuseram. Podem até, por arrastamento, conseguir melhorar a situação de outras mulheres, nas situações específicas em que elas beneficiariam das suas lutas de resistência que tinham como único objectivo satisfazer os seus interesses pessoais. Mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. Além do mais, os maiores problemas surgem quando este tipo de pessoas que apenas resiste por motivações pessoais, não se levanta pelas bandeiras das lutas colectivas, como é o caso do feminismo interseccional, porque não lhes trazem dividendos. Voltando ao exemplo de Trailblazer, que tem como única motivação subir na carreira, nunca lutará contra o machismo que as mulheres sofrem na vida pessoal, como por exemplo, nos casos de violência doméstica, porque esse tipo de opressão não interfere com as suas ambições (Silvermint 2018) [5]. Assim são muitas mulheres que ocupam a cadeira do poder. Por isso, não se pode afirmar que são feministas. Tendo ainda em conta que, segundo Karen Offen:

“As feministas podem ser identificadas como quaisquer pessoas, mulher ou homem, cujas ideias e acções (…) respondam a três critérios: 1) que reconheçam a validade das interpretações das próprias mulheres sobre a sua experiência vivida e necessidades, e que reconheçam os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus (…) na apreciação do seu estatuto na sociedade face aos homens; 2) que exibam a sua consciência, desconforto ou até revolta face à injustiça institucionalizada (ou desigualdade) em relação às mulheres, enquanto grupo, pelos homens, enquanto grupo, em determinada sociedade; 3) que advoguem a eliminação dessa injustiça desafiando, mediante esforços para alterar as ideias prevalecentes, e/ou as instituições e práticas sociais, o poder coercivo, a força, ou autoridade que defenda as prerrogativas masculinas nessa cultura particular. Assim ser feminista é necessariamente ser contrário à dominação masculina na cultura e na sociedade, qualquer que seja o local geográfico ou situação histórica” (Offen 2008: 36) [3].

Segundo estes parâmetros, é fácil identificar mulheres que não são feministas porque estas não reconhecem “os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus”, não mostram desconforto nem revolta com a injustiça institucionalizada em relação às mulheres como grupo e não advogam a eliminação dessa injustiça.

Depois disto, é fácil perceber que as feministas não têm que apoiar, defender e muito menos celebrar todas as mulheres que conseguem um cargo no poder. Vamos lá a retirar dessas cabecinhas a ideia peregrina de que as feministas dão pulinhos de alegria, quando mulheres atingem o poder, só porque são mulheres. Isso não basta! Primordial é colocar em lugares de poder mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres, de forma a acabar com todas as opressões. Ou seja, feministas!

[1] Ferreira, Helena & Ferreira, Aline (2018). “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” in Moderna språk 2018:1, pp. 153-164

[2] Agualusa, José Eduardo (2015), “Obras” in José Eduardo Agualusa http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=28&idbook=107&interviews

[3 Offen, Karen (2008), “Erupções e fluxos: reflexões sobre a escrita de uma história comparada dos feminismos europeus, 1700-1950”, in Cova, Anne (Dir.), História Comparada das Mulheres, Lisboa: Livros Horizonte, 29-45.

[4] Tavares, Manuela (2011), Feminismos, Percursos e Desafios (1947-2007). Alfragide: Texto Editores, Lda.

[5] Silvermint, Daniel (2018), “Resisting for other reasons”, Canadian Journal of Philosophy, 48 (1): 18-42.

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