Imunoterapia contra o câncer: O tratamento que vem de dentro

Todos acompanham ou já acompanharam o caso de alguém que foi diagnosticado com câncer. Infelizmente, muitos ainda acompanharão, mas, para os casos futuros, novas abordagens terapêuticas surgem como esperança.

A exemplo dos cientistas que ganharam o Prêmio Nobel de Medicina em 2018, pesquisadores têm procurado a cura que vem de dentro. Não, não é nada místico, é ciência mesmo!

Alguma vez você já se perguntou por que o corpo não consegue combater as células cancerosa? Comecemos do início. O sistema responsável pela defesa do nosso organismo, seja contra câncer, infecções ou até mesmo traumas físicos, é o sistema imune. Vários tipos de células compõem esse sistema e a maior parte delas pode ser visualizada no sangue. Quando fazemos hemogramas completos elas aparecem como série branca, ou leucograma. O mais interessante do sistema imune é o autocontrole, ou check point, que regula o quanto este sistema vai se ativar diante de uma ameaça ao organismo. Imagine que as células do sistema imune são armadas com bombinhas e granadas. Dependendo da ameaça ao organismo, a célula lança a bombinha ou a granada. O check point serve para as células não lançarem só granadas quando poderiam resolver o problema com as bombinhas.

O autocontrole são moléculas que estão na superfície dos linfócitos T (células que “lançam as bombas”) e recebem o sinal de moléculas presentes na superfície de outras células, que avisam ao linfócito que está acontecendo um (células apresentadoras de antígeno, ou APC*). Na figura abaixo, dois tipos de check points são mostrados em amarelo: o CTLA-4 e o PD-1. As moléculas em azul representam as que estimulam a ativação do linfócito, mas tem seu efeito inibido, pois as moléculas de autocontrole também estão ligadas. Assim, a ativação do linfócito não é suficiente para matar as célula cancerosa.

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Os quadros acima mostram as moléculas CTLA-4 e PD-1 em amarelo se ligando a outras moléculas e, assim, controlando a ativação do sistema imune e impedindo a morte das células cancerosas. APC do inglês – antigen presenting cells. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018)

Baseados nesse sistema, os pesquisadores James Allison da Universidade do Texas, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kioto, tiveram uma ideia: e se fosse possível desligar o autocontrole durante o câncer e permitir que o sistema imune ativasse a “granada”? Baseados nessa premissa, eles começaram os estudos do que chamaram de imunoterapia e verificaram que pessoas com câncer tratadas com anticorpos que bloqueiam o autocontrole conseguiam controlar a doença e, em muitos casos, alcançavam a cura. A imunoterapia já foi eficaz em tratar câncer de pulmão, renal, linfoma e melanoma. Apesar de bastante promissor, como todo tratamento, os autores também observaram efeitos adversos relacionados a super ativação do sistema imune, como reações autoimunes, por exemplo.

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A figura mostra que o tratamento com anticorpos (representado pelos Y verde) inibem a ligação das moléculas de autocontrole, e, assim, as moléculas representadas em azul podem atuar livremente fazendo com que as células do sistema imune possam atacar as células cancerígenas. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018.

Hoje em dia esses estudos ganharam desdobramentos que estão ajudando a aperfeiçoar o tratamento. Uma abordagem é juntar a inibição de mais de um tipo de autocontrole no mesmo tratamento (por exemplo, inibir o CTLA-4 e o PD-1 ao mesmo tempo). Outra abordagem é induzir a atividade anti-inflamatória das células do sistema imune. Parece contraditório, mas é um sistema finamente regulado. Os autores notaram que se eles pudessem “desligar” algumas vias de ativação e só deixassem ligadas as vias responsáveis pela morte das células ccancerosas, os danos ao organismo seriam menor. É algo como direcionar para onde a granada vai explodir.

Apesar da imunoterapia já ser uma realidade em muitos países, ela ainda não está amplamente disponível no mercado. Até 2016 só havia um medicamento imunoterápico registrado no Brasil, mesmo assim não estava disponível no SUS. Aguardemos, com esperança, a disponibilização destas terapias e, quem sabe, já com essas melhorias que vêm sendo estudadas.

Referências

Um comentário sobre “Imunoterapia contra o câncer: O tratamento que vem de dentro

  1. Pingback: O papel da evolução no surgimento e no tratamento do câncer | cientistasfeministas

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