Segurança alimentar e nutricional: precisamos falar sobre isso

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16 de outubro: Dia Mundial da Alimentação, uma celebração da criação da FAO-ONU

 

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) comemora o Dia Mundial da Alimentação no dia 16 de outubro de cada ano para celebrar a fundação da Organização, ocorrida em 1945. Os eventos são organizados em mais de 150 países, tornando-se um dos dias mais celebrados no calendário da ONU. Esses eventos visam promover a conscientização e a ação global para aqueles que sofrem com a fome e a necessidade de garantir a segurança alimentar e dietas nutritivas para todos(1).

Atualmente o conceito de segurança alimentar vai além do acesso ao alimento. Ele perpassa pela qualidade do alimento e seu modo de produção e é melhor definido pelo termo “segurança alimentar e nutricional (SAN)”.  Segurança alimentar e nutricional pode ser conceituada como a garantia do direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidades suficientes e de modo permanente, com base em práticas alimentares saudáveis e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais nem o sistema alimentar futuro, devendo se realizar em bases sustentáveis. Além disso, a alimentação adequada é um requisito básico para a promoção e a proteção da saúde, sendo reconhecida como um fator determinante e condicionante da situação de saúde de indivíduos e coletividades(1,2). Desta forma, a SAN implica não somente em reduzir a fome, mas combater todos os agravos à saúde decorrentes da má alimentação, incluindo a obesidade e as doenças crônicas. Atualmente, o Brasil vive a situação chamada transição nutricional, em que há aumento da obesidade em detrimento da desnutrição – sendo assim alcançar a SAN é um grande desafio.

E a nossa alimentação vai mal: nos últimos dez anos houve redução do consumo de alimentos in natura, como frutas e verduras, e aumento do consumo de ultra-processados. O prato típico do brasileiro, o famoso arroz com feijão, também está sendo deixado de lado. Paralelamente, dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade da população está obesa e diabética em todas as camadas da população, com crescimento mais acentuado nos últimos dez anos(4).

O estilo de vida atual favorece também o maior número de refeições realizadas fora de casa e o maior consumo de calorias, composta, na maioria dos casos, por alimentos industrializados e ultra-processados como refrigerantes, cerveja, sanduíches, salgados e salgadinhos industrializados. Entretanto, comer mais calorias, não significou melhorar a ingestão de vitaminas e minerais, pois não se observa redução nos casos de anemias e deficiência de vitamina A, considerados problemas de saúde pública. E ainda persistem altas prevalências de desnutrição crônica em grupos vulneráveis, como as crianças indígenas, quilombolas, residentes na região norte do país e aquelas pertencentes às famílias beneficiárias dos programas de transferência de renda, afetando principalmente crianças e mulheres que vivem em bolsões de pobreza (4,5).

Este cenário epidemiológico reflete os avanços do Brasil na luta contra a fome e a desnutrição, porém o acelerado crescimento do excesso de peso em todas as faixas etárias e de renda deixa clara a necessidade de medidas de controle e prevenção do ganho de peso. Nesse sentido, criou-se a agenda de Alimentação e Nutrição, com destaque para a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), implantada em 1999 e atualizada em 2011, com o objetivo de reorganizar, qualificar e aperfeiçoar as ações para o enfrentamento da complexidade da situação alimentar e nutricional da população brasileira. As ações incluem reorganizar a atenção nutricional dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), proporcionar melhor qualificação de todas as pessoas envolvidas no processo alimentar (do campo à mesa), maior incentivo à pesquisa sobre alimentação e nutrição, promoção da participação da população e articulação de diferentes setores da alimentação (5).

E qual o nosso papel nesse cenário? Primeiramente, comer é um ato político. A escolha alimentar de um indivíduo ou de um grupo com base na sua procedência é agir politicamente(6). Minimizar o desperdício de alimentos e priorizar o consumo de produtos originados de sistemas sustentáveis são bons exemplos de ações a serem tomadas no dia a dia. Segundo dados do IBGE, 30% dos alimentos adquiridos são desperdiçados. A legislação brasileira sobre desperdício de alimentos é limitada e dificulta a doação de alimentos, cabendo à sociedade brasileira encontrar sua própria maneira de lidar com o problema. Algumas políticas como a PNAN tem impacto positivo na redução de perdas por meio da criação de bancos de alimentos e restaurantes populares, bem como ações educativas em diferentes espaços sociais. Atualmente, alguns movimentos internacionais também começam a ganhar força no Brasil, como a aquisição de produtos hortícolas fora de padrões estéticos, “SaveFood Brasil”, “Slow Food”, entre outras(7). É essencial que a população conheça a trajetória dos alimentos, da produção até o consumo, ou seja: saber comprar, conservar e aproveitar cada alimento de forma consciente. Medidas simples, como comprar de produtores locais, evitar comprar em quantidades excessivas e planejar as compras diminuem o descarte de alimentos. Um dos principais mitos existentes é que comer adequadamente custa caro – se desperdiçamos menos, usamos nosso dinheiro com consciência. Evitar o desperdício favorece a alimentação saudável – para o corpo e para o planeta.

 

 

Referências

1) http://www.fao.org/brasil/pt/

2) Jaime Patricia Constante, Delmuè Denise Costa Coitinho, Campello Tereza, Silva Denise Oliveira e, Santos Leonor Maria Pacheco. Um olhar sobre a agenda de alimentação e nutrição nos trinta anos do Sistema Único de Saúde. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2018  June [cited  2018  Oct  10] ;  23( 6 ): 1829-1836. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232018000601829&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018236.05392018.

3) Vasconcellos Ana Beatriz Pinto de Almeida, Moura Leides Barroso Azevedo de. Segurança alimentar e nutricional: uma análise da situação da descentralização de sua política pública nacional. Cad. Saúde Pública  [Internet]. 2018  [cited  2018  Oct  10] ;  34( 2 ): e00206816. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2018000205016&lng=en.  Epub Mar 01, 2018.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00206816.

4) http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/abril/17/Vigitel.pdf

5) http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_alimentacao_nutricao.pdf

6) http://www.cfn.org.br/index.php/o-vilao-do-prato-saudavel/

7) Henz, Gilmar Paulo, & Porpino, Gustavo. (2017). Food losses and waste: how Brazil is facing this global challenge?. Horticultura Brasileira, 35(4), 472-482. https://dx.doi.org/10.1590/s0102-053620170402

Imagem: http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/noticias/2017/outubro/dia-mundial-da-alimentacao-seguranca-alimentar-para-migrantes

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2 comentários sobre “Segurança alimentar e nutricional: precisamos falar sobre isso

  1. Excelente texto.
    Apesar de ser rotulada como modinha, a Saúde Única também é parte de um movimento de segurança e de qualidade na produção de alimentos. Apesar de *única, os veterinários tem capitaneado os trabalhos de prevenção a resistência microbiana com banimento de promotores de crescimento em criações animais. Infelizmente não vejo um movimento concatenado de médicos, ecologos, agrônomos e nutricionistas para esse intento. Por isso, e mais ainda, vc foi feliz em divulgar essa publicação.

    Curtido por 1 pessoa

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