A quantas anda a transição energética?

tran·si·ção |z|  (latim transitio, -oniss. f.

  1. Ato ou efeito de transitar.
  2. Passagem de um lugar, assunto, tom ou estado para outro.
  3. Trajeto.

Também chamada de transição ecológica e transição para economia de baixo carbono, a transição energética trata de uma mudança profunda na estrutura econômica, social e política no sentido de sair da dependência de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, enquanto se diversifica a matriz energética e se aumenta o uso de modos de produção de energia renováveis e limpos. A ideia geral é diminuir a emissão de gases de efeito estufa e diminuir a poluição atmosférica, ambos muito perigosos à vida no planeta.

E o que é energia limpa?

Toda geração de energia tem custos, que podem ser expressos em valores monetários, ou de uso de recursos naturais ou de emissão de gases de efeito estufa, entre outros. Alguns desses recursos naturais são renováveis, como o sol, o vento, as marés, a água dos rios, o calor da terra, a biomassa… outros são finitos, como é o caso dos combustíveis fósseis. O conceito de energia limpa só diz respeito a formas de produção que não lancem poluentes na atmosfera, não se trata de ausência de impacto ambiental.

Vale lembrar que, nessa área, essa noção de energia limpa é muito contestável. Esse estudo, publicado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), põe em dúvida a consideração de que a energia hidrelétrica seria limpa, mostrando que, além dos danos ambientais e humanos causados pelas construções das usinas, existe liberação de metano (CH4) quando a água represada nas barragens passa pelas turbinas e vertedouros. Já no caso da produção de energia fotovoltaica, que requer painéis que utilizam silício e outros materiais, esse estudo de 2016, publicado na Nature Communications, mostra que a dívida de carbono gerada na produção das placas desde 1975 até 2015 terminou de ser paga, no pior dos cenários, em 2018 – isso significa que a partir de agora a produção de energia solar fotovoltaica pelos painéis já instalados e pelos novos está no 0 a 0 em termos de produção de carbono.

Mesmo com muitas dúvidas, alguns estudos como esse aqui, publicado na Nature Energy em 2017, mostram que, apesar dos custos superiores, o uso de energia solar fotovoltaica e eólica ainda é mais benéfico do ponto de vista humano, principalmente pela economia de gastos de saúde pública ligados em geral a doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica.

Mas e a transição no mundo na prática?

Vamos por partes. Primeiro, onde se gasta energia: indústria, agricultura, transporte, edifícios e residências. Os gases de efeito estufa são gerados pela queima de combustível para, entre outros, gerar energia elétrica, mas também pela pecuária (a criação de animais gera sozinha 15% dos gases de efeito estufa liberados no planeta!), pelo uso de motores à combustão de derivados de petróleo tanto para transporte quanto para processos industriais e agrícolas, e pelo desmatamento das florestas, que naturalmente sequestram o carbono. No Brasil, a agropecuária e o desmatamento geram 55% dos gases de efeito estufa. Esse relatório de 2018 da Renewable Energy Policy Network aponta que a maior parte dos esforços até hoje tem se concentrado na emissão de gases do setor elétrico, mas outras áreas também são igualmente importantes, como a conservação das florestas, a isolação dos edifícios e o setor de transporte, por exemplo.

Segundo, quem são os principais atores da emissão dos gases de efeito estufa: o campeão do mundo é a China, seguida de perto pelos Estados Unidos. Depois da COP21, que aconteceu em Paris no fim de 2015, 175 países assinaram um acordo se comprometendo a realizar medidas com objetivo principal de limitar o aumento da temperatura global em até +2º C acima dos níveis pré-industriais, vários países começaram a agir. A própria China tem mostrado a ambição de se tornar um país “verde” nas próximas décadas, e junto com Europa e Estados Unidos, investiram quase 75% de todo o investimento global em energias renováveis, de acordo com o relatório citado no parágrafo anterior. No entanto, em termos de investimento por unidade do PIB, países como Ruanda ou Guiné-Bissau estão investindo tanto quanto ou mais que países considerados desenvolvidos. Infelizmente, a mudança não tem sido suficiente e, em 2018, constatou-se que houve um aumento global de 2,1% da demanda de energia e as emissões de CO2 relacionadas à geração de energia subiram 1,4% no ano anterior – o que significa que a velocidade da mudança ainda é muito lenta. E a emissão de gases de efeito estufa na China ainda aumentou 4% só no primeiro trimestre de 2018…

Na França, uma lei de “transição energética pelo crescimento verde” foi passada em 2015 e o equivalente do nosso Ministério do Meio Ambiente se chama Ministério da Transição ecológica e solidária. Apesar do nome bonito, o ministro Nicolas Hulot, importante figura da luta ecológica francesa e ministro mais conhecido do governo Macron, pediu demissão recentemente ao vivo num programa de rádio, principalmente por causa da rejeição da emenda que proibia o glifosato* e da redução pela metade do preço da licença de caça, além de dizer que a França não está fazendo o suficiente na luta contra as alterações climáticas. Um ponto positivo importante é a organização não lucrativa négaWatt, que vem publicando relatórios de cenários energéticos totalmente dependentes de fontes renováveis, excluindo, inclusive, o uso da energia nuclear, principal fonte atual de energia no território francês. O último relatório trata do horizonte temporal de 2017 a 2050, sugerindo o uso massivo de produção eólica em terra e mar, uso de biomassa e de redes de calor, junto com uma redução de 50% da demanda, dividida em redução real e aumento de eficiência. Entretanto, esses relatórios não têm sido adotados pelo governo.

Na Alemanha, após o desastre de Fukushima em 2011 foi lançado o plano Energiewende, um dos mais ambiciosos do mundo. Atualmente, no entanto, o entusiasmo é muito menor: apesar de um terço da energia do país ser efetivamente gerada por fontes renováveis, o preço da energia elétrica para pequenos consumidores mais que dobrou entre 2000 e 2013,  e o carvão natural continua sendo fonte importante de produção de eletricidade. E essa semana ativistas contrários à expansão de uma mina de carvão na floresta de Hambach, no estado na Renânia do Norte-Vestfália, foram retirados à força por mais de 3,5 mil policiais. Apesar de não parecer, para a União Europeia em geral, o segundo relatório sobre o estado da transição energética, de 2017, diz que as metas de emissão de gases estão sendo cumpridas… o que levanta a questão se essas metas são mais políticas de aparência do que de fato um compromisso em reverter as mudanças climáticas.

Na África, na maior parte dos países, os desafios passam por modernização, expansão e acesso à energia, uma vez que toda a produção de energia do continente africano, excluindo a África do Sul, equivale à da Argentina sozinha. Mesmo com as dificuldades, a boa notícia é que alguns países por lá estão desenvolvendo seus sistemas de energia e evitando aumentar a emissão de gases de efeito estufa no mundo ao mesmo tempo.

No Brasil, a página do Ministério do Meio Ambiente não explica muito sobre as iniciativas da nossa transição. Enquanto isso, as petroleiras e outras grandes corporações tomam a dianteira nos investimentos em energias renováveis. Mesmo em época de eleição, é raro ouvir outra coisa que não seja relativa à exploração de petróleo ou à própria Petrobras, apesar de alguns programas de governo proporem explicitamente planos de transição energética ou ecológica.

No geral as notícias não são boas: as nações que fazem parte do G20 ainda investem 4 vezes mais dinheiro público em combustíveis fósseis do que em energias renováveis, os EUA se retiraram do acordo de Paris… ainda há muito trabalho a fazer. Soluções existem e a transição efetiva passa, sobretudo, pela descentralização da produção de energia e a conscientização de pessoas e corporações sobre a importância do uso eficiente de recursos energéticos e, claro, sobre novos modelos de consumo. O motor da transição é a inovação e o investimento em novos usos de tecnologia existente, assim como uma mudança real não é possível sem compreender que consumir menos e melhor é mais interessante do que buscar novas maneiras de produzir mais energia. Afinal, energia mais limpa também é aquela que nem precisou ser gerada.

 

*Glifosato é um herbicida largamente utilizado no mundo, principalmente em grandes plantações, mas também em uso doméstico. Potencialmente cancerígena, foi essa substância que levou a Monsanto a ser condenada a pagar indenização milionária a um homem nos EUA, e ainda existem pelo menos mais 8 mil processos judiciais contra a empresa pela mesma razão.

Referências

“transição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/transi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 12-09-2018].

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