SAÚDE MENTAL E PREVENÇÃO AO SUICÍDIO

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“A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: ‘onde dói? e ‘como posso ajudá-lo?’”

Dr. Edwin Schneidman

O QUE É O SUICÍDIO?

     O suicídio é um grave problema de saúde pública. Sua complexidade exige atuação de diversas áreas de conhecimento, pois é determinado quase sempre por um conjunto de fatores, biológicos, psicológicos e sociais. O que sabemos é que o adoecimento mental existe, e ainda existem muitos tabus sobre essa temática que precisam ser superados, pois para a saúde mental a melhor opção é sempre falar.

O suicídio é um fenómeno complexo e multifacetado, fruto da interação de fatores de ordem filosófica, antropológica, psicológica, biológica e social. As estratégias de prevenção da ideação suicida, comportamentos autolesivos e atos suicidas (tentativas de suicídio e suicídio consumado) implicam interações e sinergias multissetoriais, multiculturais e multiprofissionais, onde a vertente da saúde deverá funcionar como o núcleo central no planejamento, organização, operacionalização e avaliação, mas nunca de forma isolada (PORTUGAL, 2013)

     Émile Durkheim, há mais de um século já analisava o suicídio como uma questão social, com razões muito mais complexa do que apenas questões psicológicas. Ele analisou que um ser humano está propenso a cometer atos suicidas dependendo dos vínculos sociais que ele estabelece. Ter poucos vínculos sociais, perder vínculos sociais, ou sofrer pressões excessivas desses vínculos são também compreendidos enquanto fatores que podem colaborar para a ocorrência de um suicídio. O grau em que as pessoas se sentem integradas na sociedade e em seu meio social são fatores sociais que podem ser terreno fértil ao suicídio . Ou seja, os diferentes contextos sociais afetam as taxas de suicídio. Logo a sociedade produz o comportamento suicida.

     A sociedade produz as condições para que o suicídio ocorra. Se o fortalecimento de vínculos sociais seria uma possibilidade de atuação para prevenção do suicídio, como fazê-lo sendo que vivemos em uma sociedade que quebra e rompe esses vínculos, que dissemina valores de concorrência, competitividade e individualismo?

DADOS SOBRE SUICÍDIO

     A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, ou seja, mais de 900 mil pessoas morrem por suicídio anualmente, com uma taxa de 10,7 mortes a cada 100 mil pessoas. O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos (OMS, 2017).

     No Brasil a média é de 11 mil óbitos por suicídio anualmente, sendo o suicídio a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Nesta mesma faixa etária, o suicídio entre os homens é a terceira maior causa de mortes entre os homens, e a oitava maior causa entre as mulheres é a oitava maior causa. A taxa é de 6,5 mortes por suicídio a cada 100 mil pessoas. E embora abaixo da média mundial, há uma significativa subnotificação dos casos, fazendo com que os dados atuais não correspondam totalmente a realidade, apesar de dar uma dimensão do problema (BRASIL, 2017) E isso ocorre por dois motivos. Primeiro, pela insuficiente capacidade dos sistemas de registro dos países de baixa e média renda. E, segundo, pelo estigma e criminalização, que levam as pessoas a manterem em segredo seus pensamentos suicidas e as famílias a esconderem quando ele de fato ocorre (PAHO, 2018).  

     Entre 2011 e 2016 foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas, das quais 27,4% (48.204) foram tentativas de suicídio. Destas tentativas 69% foram realizadas por mulheres, sendo que 58% foi por envenenamento e/ou intoxicação. Ou seja, no Brasil o envenenamento ou intoxicação são os principais meios utilizados na tentativa de suicídio, seguidos de tentativa por objeto perfuro-cortante (6,5%) e enforcamento (5,8%) (SINAN, 2016).

COMO PREVENIR?

     Os fatores de proteção são compreendidos enquanto fatores que reduzem o risco de suicídio e são considerados isoladores contra o suicídio. Os fatores de proteção incluem: Apoio da família, de amigos e de outros relacionamentos significativos; Crenças religiosas, culturais, e étnicas; Envolvimento na comunidade; Uma vida social satisfatória;  Integração social como, por exemplo, através do trabalho e do uso construtivo do tempo de lazer; Acesso a serviços e cuidados de saúde mental.

  Embora tais fatores de proteção não eliminem o risco de suicídio, podem contrabalançar o peso imposto por circunstâncias difíceis da vida. Os comportamentos suicidas são mais comuns em certas circunstâncias devido a fatores culturais, genéticos, psicossociais e ambientais.

      Os fatores de risco gerais incluem: Nível socioeconômico e nível de educação baixos; Perda de emprego;  Estresse social; Problemas com o funcionamento da família, relações sociais, e sistemas de apoio;  Trauma, tal como abuso físico e sexual; Perdas pessoais; Perturbações mentais tais como depressão, perturbações da personalidade, esquizofrenia, e abuso de álcool e de substâncias;  Sentimentos de baixa auto-estima ou de desesperança; Questões de orientação sexual (tais como homossexualidade); Comportamentos idiossincráticos (tais como estilo cognitivo e estrutura de personalidade); Pouco discernimento, falta de controle da impulsividade, e comportamentos auto-destrutivos; Poucas competências para enfrentar problemas; Doença física e dor crônica; Exposição ao suicídio de outras pessoas; Acesso a meios para conseguir fazer-se mal; Acontecimentos destrutivos e violentos (tais como guerra ou desastres catastróficos) (PORTUGAL, 2013).

     Portanto para pensar ações ou políticas públicas, programas e projetos, a questão do suicídio não pode ser compreendida apenas por uma área do conhecimento. O suicídio, tal como o adoecimento mental de forma geral, precisa ser compreendido enquanto uma questão biopsicossocial e, estruturado nacionalmente enquanto um plano nacional de prevenção ao suicídio, mas que exige atuação de todo SUS, das organizações da sociedade civil (ONGs, entidades filantrópicas) e setor privado enquanto complementar.

     O SETEMBRO AMARELO foi pensado enquanto ação específica para a prevenção do suicídio. Esse mês de alerta para os problemas de saúde mental é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e sobre suas formas de prevenção. A ação surgiu através do Centro de Valorização da Vida – CVV, do Conselho Federal de Medicina – CFM e da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, sendo realizadas as primeiras ações em 2015 concentradas em Brasília.

     A saúde mental assim como a saúde em geral é um reflexo do contexto social em que vivemos e das relações sociais (vínculos afetivos) que construímos. Não é algo simples, demanda políticas públicas e intervenção multiprofissional de especialistas da saúde. Um ambiente saudável é uma sociedade sem desigualdade social, sem fome, sem violência, sem abusos (sexuais, físicos, psicológicos, financeiros), sem discriminação, sem autoritarismos, com educação e saúde de qualidade, emprego digno e moradia. Ou seja, o ambiente social possui uma importância nesse contexto, e para além disso, quem é acometido por algum transtorno psiquiátrico tem o direito de receber tratamento adequado. Nada vale a sua saúde mental, se for um trauma, um emprego ou um relacionamento que colabora para o seu adoecimento, PROCURE AJUDA.

ONDE PROCURAR AJUDA?

     A Política Nacional de Saúde Mental dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Com a reforma psiquiátrica na perspectiva da luta antimanicomial, os direitos dos usuários dos serviços precisam ser respeitados. Cuidar e tratar deve estar ligado à inclusão, pois a repressão não é a solução e privar uma pessoa do convívio social é puni-la e de certa forma dizer que ela não pertence à sociedade.

A Rede de Atenção Psicossocial – RAPS foi instituída para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS (BRASIL, 2011). Essa rede é atualmente constituída pelas seguintes componentes, conforme o art. 5º da portaria:

I – atenção básica em saúde, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Unidade Básica de Saúde;
  2. b) equipe de atenção básica para populações específicas:
  3. Equipe de Consultório na Rua;
  4. Equipe de apoio aos serviços do componente Atenção Residencial de Caráter Transitório;
  5. c) Centros de Convivência;

II – atenção psicossocial especializada, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Centros de Atenção Psicossocial, nas suas diferentes modalidades;

III – atenção de urgência e emergência, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) SAMU 192;
  2. b) Sala de Estabilização;
  3. c) UPA 24 horas;
  4. d) portas hospitalares de atenção à urgência/pronto socorro;
  5. e) Unidades Básicas de Saúde, entre outros;

IV – atenção residencial de caráter transitório, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Unidade de Recolhimento;
  2. b) Serviços de Atenção em Regime Residencial;

V – atenção hospitalar, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) enfermaria especializada em Hospital Geral;
  2. b) serviço Hospitalar de Referência para Atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas;

VI – estratégias de desinstitucionalização, formada pelo seguinte ponto de atenção:

  1. a) Serviços Residenciais Terapêuticos; e

VII – reabilitação psicossocial.

     É possível procurar ainda o CVV – Centro de Valorização da Vida que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Acesse o site www.cvv.org.br ou ligue 188. Portanto é possível procurar ajuda através do CVV, Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades de Pronto Atendimentos (UPA).

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. : il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). CAB 34 Saúde Mental, 2013.

______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção  do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil : 2017 a 2020 [recurso eletrônico] / Ministério da Sáude, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2017. 34 p. : il. Disponível em <https://www.neca.org.br/wp-content/uploads/cartilha_agenda-estrategica-publicada.pdf&gt;. Acesso em 22/08/2018.

______. Ministério da Saúde lança Agenda Estratégica de Prevenção do Suicídio. Disponível em:  <https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Boletim _suicidio_MS_set17.pdf> . Acesso em 22/08/2018.

______. Ministério da Saúde Suicídio. Saber, agir e prevenir. Disponível em:  

<https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/09/folheto-jornalistas.pdf >. Acesso em 20/08/2018.

______. Ministério da Saúde. Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. Prevenção do Suicídio Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Disponível em:  <https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/05/manual_prevencao_suicidio_ profissionais_saude.pdf>. Acesso em 20/08/2018.

______. Portaria GM/MS nº204 de 2016.

______. Portaria nº2.466, de 11 de novembro de 2014.

______. Sistema de Informação sobre Mortalidade, 2017.

CVV. Falar é a melhor opção. Disponível em: <http://www.setembroamarelo.org.br&gt;. Acesso em 22/08/2018.

WHO (2014). Preventing suicide: a global imperative. World Health Organization, Geneva. http://www.who. int/mental_health/suicide-prevention/world_report_2014/en/.

WHO (2018). Suicide mortality rate. World Health Statistics data visualizations dashboard. http://apps.who.int/gho/data/node.sdg.3-4-viz-2?lang=en

PAHO. “Suicídio é grave problema de saúde pública e sua prevenção deve ser prioridade”, afirma OPAS/OMS. https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view= article&id=5674:suicidio-e-grave-problema-de-saude-publica-e-sua-prevencao-deve-ser-prioridade-afirma-opas-oms&Itemid=839

PORTUGAL. Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013/2017. Disponível em: < https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-nacional-de-prevencao-do-suicido-20132017-pdf.aspx >. Acesso em 20/08/2018.

 

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