Se é proibido, é porque faz mal. Ou não?

Substâncias ilícitas são aquelas que tem uso e/ou comercialização proibida por lei, como é o caso da Cannabis sativa (maconha). Segundo historiadores, a proibição do uso da maconha no Brasil está baseada em fatores políticos e econômicos próprios da época em que a lei foi sancionada e não tem relação com a possibilidade de fazer mal ao ser humano (para saber mais sobre a história da proibição, vide referências abaixo). Independente das questões éticas, jurídicas e morais, o fato é que substâncias psicoativas ou não presentes na Cannabis sativa alteram o funcionamento do corpo e isso não é necessariamente ruim.

Toda substância consumida por nós (remédios, álcool, suplementos, etc) modifica o funcionamento do nosso organismo, até mesmo a alimentação, como já foi falado aqui antes. Isso acontece porque elas atuam em vias metabólicas que já existem no corpo. Com as substâncias presentes na Cannabis não é diferente, e foi a partir deste pressuposto que cientistas do mundo todo vêm caracterizando o Sistema Endocanabinóide (ou ECS do inglês “endocannabinoid system”), e desvendando como e porque a Cannabis sativa altera o nosso metabolismo. Recentemente o pesquisador Vicenzo Di Marzo que atua tanto na Universidade Laval do Canadá quanto no Instituto de Bioquímica Molecular na Itália, debateu como usar as vias metabólicas que envolvem o ECS, para a promoção da saúde.

O ECS é composto de pelo menos duas substâncias produzidas dentro do corpo, a aracdoniletanolamida (AEA) e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG), que exercem suas atividades ao se ligar a, pelo menos, dois tipos de receptores: CB1 ou CB2. Outros receptores já foram descritos como participantes do ECS, como o GPR18, GPR119, GPR55, GPR110 e TRPV1, mas estes ainda não têm o mecanismo de ação e localização bem estabelecidos. Esse sistema em equilíbrio com os outros sistemas do corpo atuam controlando respostas inflamatórias, equilíbrio emocional, a microbiota do intestino e até ajuda no combate a infecções. Essa variedade de efeitos acontece devido a presença desse sistema em praticamente todos os tecidos no corpo.

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Diante de toda variedade de efeitos, Dr Marzo aborda estudos que exploram todo o potencial de ação do Sistema. Para isso, o autor divide o tema em duas partes: medicamentos derivados de plantas que têm substâncias que se ligam aos receptores CB1 e/ou CB2 – os fitocanabinóides, e os canabinóides sintéticos – fabricados em laboratório para se ligar aos receptores apropriados ou modular a produção dos endocanabinóides.

Os fitocanabinóides, os primeiros da classe a serem descritos, são os mais profundamente estudados. Apesar de a maior parte dos estudos ser voltada para o canabidiol e o THC, ambos derivados da Cannabis sativa, outros fitocanabinóides como o beta-cariofileno também são encontrados em plantas como as pitangueiras, cravo-da-índia, alecrim e outras plantas aromáticas. Aqui no blog já falamos sobre o efeito benéfico do canabidiol para o tratamento da Doença de Parkinson antes, mas Dr Marzo chama a atenção para outros efeitos como o uso de desta classe de substâncias para o tratamento da náusea em pacientes de câncer, para dores consequentes da esclerose múltipla ou artrite, e para a melhora da síndrome metabólica. Apesar de amplamente estudadas, existem algumas limitações para uso deste tipo de substância. Como elas devem ser extraídas das plantas, sua obtenção pode ser cara, trabalhosa e não garante a pureza do produto final. No caso de o medicamento ser em forma de extrato, têm-se observado que as várias substâncias presentes no fitomedicamento podem interferir uma no efeito da outra e, dessa forma, reduzir o resultado esperado.

Uma das formas de resolver os problemas dos fitocanabinóides foi a síntese de canabinóides em laboratório. No que tange os sintéticos, estes foram especialmente desenhados por cientistas para encaixar perfeitamente nos receptores CB1 ou CB2 e, assim, desencadear os efeitos benéficos do ECS. Neste sentido alguns sintéticos já têm sido testados para uso em neuroinflamações, esclerose múltipla, náusea em pacientes de câncer, lúpus eritematosos, esteatose hepática e dermatites. Dr Marzo destaca que até medicamentos que não foram desenhados para atuar no ECS, também atuam nele, como por exemplo a dipirona e o paracetamol que tem seu efeito analgésico associado a ativação dos receptores CB1.  Mesmo com tantos efeitos benéficos para o tratamento de várias doenças, algumas limitações também rondam a liberação segura destes medicamentos para o mercado. Grande parte destas substâncias atuam nos receptores CB1 que estão presentes em grandes quantidades no cérebro e regulam muito fortemente fatores relacionados ao comportamento e podem causar quadros de depressão ou ansiedade.

Se tudo que está descrito aí em cima é prova de eficácia dos canabinóides, isso significa que o consumo pode ser benéfico para a saúde? Sim, mas, como tudo que consumimos, temos que estar atentos a alguns detalhes: controle de qualidade da matéria prima utilizada e do sistema de extração dos fitocanabinóides, padronização dos extratos indicando quais os componentes e em que concentração eles se encontram nos extratos, testes de segurança para saber os efeitos adversos, controle qualitativo e quantitativo de impurezas presente nos extratos, autorização de produção e comercialização pelas agências reguladoras. Depois de aprofundados nossos conhecimentos, estaremos empoderados como sociedade para discutir a descriminalização e a legalização dos canabinóides.

Referências

https://www.nature.com/articles/nrd.2018.115.pdf

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/viewFile/3953/2742

http://lehda.fflch.usp.br/sites/lehda.fflch.usp.br/files/upload/paginas/2014.%20TORCATO.%20uma%20historia%20da%20proibicao%20das%20drogas.pdf

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