A domesticação da Amazônia por povos pré-colombianos e a lógica atual do agronegócio: controvérsias.

Um artigo recente publicado pela Revista Science em novembro de 2017, denominado “Persistent effects of the pre-columbian plant domestication on Amazonian forest composition” trata das influências dos povos pré-colombianos na estrutura atual da floresta amazônica.

Os pesquisadores cruzaram dados de localização de sítios arqueológicos com o mapeamento e distribuição de 85 espécies arbóreas domesticadas por povos indígenas na região. Notou-se que a riqueza, abundância e diversidade de espécies, de modo geral, diminuía de acordo com o distanciamento dos locais onde se estabeleciam essas comunidades. A realização de análises genéticas e morfológicas das plantas confirmou essas hipóteses (LEVIS, et al., 2017).

figura 1

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/03/1863192-civilizacoes-pre-colombianas-moldaram-vegetacao-da-amazonia.shtml

Para saber mais detalhes sobre essa pesquisa, dê uma olhadinha nesse link, com um artigo aqui do blog!

A domesticação de plantas e animais é algo que acompanha a história da humanidade há 10 mil anos, na Amazônia, mais especificamente, há 8 mil anos segundo os pesquisadores. Ou seja, a manipulação de espécies para benefício próprio inicia no momento em que o ser humano “descobre-se” enquanto ser ativo no ecossistema, passando de populações caçadoras-coletoras para agricultoras e criadoras.

Ainda existem inúmeras lacunas para a compreensão desses processos, dada a complexidade na evolução da história da humanidade e nas transformações do ambiente. Agora, adiantando uns bons anos nessa discussão, nos transportemos para o século XX, a partir de 1950. Quando iniciou-se a chamada Revolução Verde.

A Revolução Verde representa o desenvolvimento de um pacote tecnológico para a agricultura, incluindo o uso de fertilizantes químicos, pesticidas, herbicidas, sementes modificadas e mecanização dos cultivos para o aumento da produtividade. Vendendo a ideia de acabar com a fome no mundo, porém com a intenção real e clara de transformar a agricultura em um setor rentável do ponto de vista econômico.

Os impactos positivos da Revolução verde, em termos de aumento de produtividade de alimentos e commodities agrícolas são inegáveis e podem ter sido necessários para sustentar a evolução demográfica da humanidade, que passa agora dos 7 bilhões de indivíduos.

Entretanto, atualmente, o cenário de abundância proposto pela Revolução verde a partir da utilização de fertilizantes químicos (NPK), pesticidas, herbicidas, fungicidas (e outros idas) passa a ser questionado. É cada vez mais necessário o input de quantidades maiores desses insumos para manter a alta produtividade. Fato que pode provocar efeitos negativos, como o desequilíbrio ecossistêmico na extração e utilização dos insumos, acidificação e/ou salinização de solos agricultáveis, liberação de gases que agravam o efeito estufa e a contaminação humana e ambiental por metais pesados, presentes nas formulações desses produtos, alerta a pesquisadora indiana Vandana Shiva (2016).

Segundo Foley et al. (2011), a utilização inadequada de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas), aliada ao sistema agrícola de monoculturas, desencadeia um desequilíbrio que causa a dependência desses produtos, fragilizando o solo e podendo torná-lo improdutivo, em um curto período de tempo. Eles consideram que o sistema de monocultivo seja de alta vulnerabilidade, principalmente em ambientes tropicais, em decorrência da baixa biodiversidade.

Isso sem mencionar os danos ambientais e à saúde humana na utilização de fertilizantes químicos e agrotóxicos. No início desta semana, a notícia de que uma importante empresa do ramo, a Monsanto, foi obrigada a pagar uma indenização de mais de 1 bilhão de dólares a um funcionário dos EUA, que trabalhava aplicando um herbicida muito utilizado no Brasil, que contém em sua composição, um produto comprovadamente cancerígeno, o glifosato.

O trabalho de uma pesquisadora brasileira, Prof. Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH/USP traduz em dados e mapas didáticos os prejuízos provocados pelo uso abusivo de agrotóxicos em um atlas denominado “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”. A figura abaixo ilustra no cenário brasileiro o grau de intoxicação por agrotóxicos entre os anos de 2010 e 2011.

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Fonte: Bombardi, 2012.

A visão da agricultura como negócio (o agronegócio), e não mais como modo de subsistência e mecanismo de nutrição, modifica o papel do humano como ser ativo do ecossistema para um indivíduo alheio à essa rede, que pensa não mais fazer parte dela. Esse comportamento, entretanto, não procede, dentro de um contexto de interdependência entre seres e recursos naturais para o equilíbrio entre uso e renovação dos mesmos.

Isso prova a não viabilidade a longo prazo da lógica do agronegócio enquanto sistema predominante vigente. E que os caminhos anteriormente traçados, da domesticação natural e evolutiva das espécies pode ser revisto e retomado, aliado a formas mais inteligentes de otimização da produção e beneficiamento dos alimentos e demais produtos de origem agropecuária.

Esse pode e deve ser um importante ponto de virada no desenvolvimento de novos modos de produção, menos prejudiciais aos seres humanos e ao meio ambiente. Já que no formato controverso previsto pelo agronegócio, os recursos naturais, como solo e água, principalmente, são exauridos podendo tornar-se improdutivos.

Referências Bibliográficas

  • FOLEY, J., et al. Solutions for a cultivated planet. Nature Analysis, v. 478, n. 7369, p. 337–42, 2011.
  • LEVIS, C. et al. Persistent effects of pre-Colombian plant domestication on Amazonian forest composition. Science, v.355, n.6328, p.925-931, 2017.

 

  • SHIVA, V. The violence of the Green Revolution: third world agriculture, ecology and politics. University Press of Kentucky. EUA, 1ª ed, 257 p, 2016.

 

 

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