Reflexões de uma vida sem gasolina: locavorismo

Nesses últimos dias, o Brasil viveu uma situação crítica, que expôs fragilidades importantes e intensas (diria). Pessoas aflitas pela falta de combustível, estocando alimentos, desesperadas pela possibilidade da falta de itens que julgamos necessários.

A situação trouxe à tona diversas questões, como a importância da retomada na construção de ferrovias, mudanças na política de preços do combustível, a imensa carga tributária sobre os produtos, livre mercado, enfim, longos e extensos debates.

Entretanto, para além da reflexão sobre os combustíveis, uma questão sintomática dessa situação foi a evidente falta de autonomia e a dependência exagerada de transportes movidos a combustíveis fósseis para o acesso a produtos básicos, principalmente, ALIMENTOS.

Já parou para pensar de onde vem o alimento que você consome?

Infelizmente, talvez não venha do mesmo estado em que residimos. A maior parte das terras agricultáveis do Estado de São Paulo estão sob cultivo de cana de açúcar, como é possível observar na figura abaixo.

 

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Figura 1: Evolução da área de cultivo de cana-de-açúcar em São Paulo. Hectares/município. Fonte: Camara e Caldarelli (2016).

Curioso perceber que uma das razões pelas quais a produção de alimentos seja distante dos consumidores paulistas é exatamente a produção de biocombustível que, de forma direta ou indireta, contribui para o transporte dos alimentos até aqui. Pesquisadores como Mital (2008) em seu estudo “Crise no preço dos alimentos: Repensando políticas de Segurança Alimentar” mostram que o aumento no uso de combustíveis no sistema agroalimentar dominante contribui para o aumento no custo da produção de alimentos.

Ou seja, quanto mais longe produzimos o alimento, mais caro ele será, dados os custos de transporte e distribuição.

 Sabe-se pela FAO (2015), que pelo menos 70% da alimentação mundial provém da agricultura familiar. Para estabelecer uma comparação, o mapa abaixo (retirado de Silva et al., 2007) ilustra o número de Assentamentos Rurais ligados ao Movimento Sem Terra (MST) até o ano de 2005.

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Figura 2: Distribuição de assentamentos rurais por município no Estado de São Paulo. Fonte: Silva et al. (2007).

Na figura 1, podemos observar que mais da metade dos municípios paulistas tem grande quantidade de hectares destinados ao plantio de cana-de-acúcar. Na figura 2, por sua vez, nota-se que poucos municípios do estado tem assentamentos rurais que promovam o desenvolvimento de agricultura familiar nas regiões.É possível, portanto, perceber a grande diferença no uso e ocupação da terra, no que diz respeito à produção de alimentos para consumo interno versus monoculturas para produção de biocombustível.

Se pretendemos reavaliar a mentalidade do consumidor nos termos da origem dos produtos, é preciso estimular a reflexão por mais autonomia e conhecimento.

A busca por um sistema alimentar saudável, com preço justo, produzido em locais mais próximos ao consumidor, utilizando de forma racional os recursos naturais pode configurar-se em uma ótima alternativa na contramão dos sistemas de longa distância.

UFA! Mas essa é uma ideia utópica, será que é possível o desenvolvimento de um novo sistema, que possibilite o resgate dessas possibilidades nos dias de hoje?

Foi na busca por pessoas que falavam sobre novos movimentos que encontramos o locavorismo. De acordo com Azevedo (2015), locavorismo seria a ideia de alimentar-se o máximo possível de alimentos produzidos localmente, respeitando a sazonalidade natural, dignificando agricultores familiares, estimulando o desenvolvimento de sistemas agrícolas sustentáveis e da economia local, por meio da venda direta dos produtos ao consumidor.

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 Figura 3: Da onde vem sua comida? Fonte: Árvore, ser tecnológico.

Azevedo (2015) levanta ideias de diversos pesquisadores que estudam o tema, acrescentando que o conceito de comida local deve se estender a quem produziu o alimento. Gera reflexões a respeito da ética do agricultor e seu modo de vida, as conexões sociais e a confiança entre as pessoas. Esses fatores compõe a “história por trás da comida” (Thompson, Harper e Kraus, 2008).

O movimento do CSA (comunidades que sustentam a agricultura) vem ganhando destaque no cenário do locavorismo. Essa proposta teve início na década de 1960 na Suíça e no Japão (AZEVEDO, 2015). O CSA representa a construção de uma relação próxima entre agricultor e consumidor, na forma de um acordo associativo, no qual o consumidor atua no financiamento da produção dos alimentos, bem como na garantia de escoamento da produção. É uma relação ganha-ganha, em que os agricultores têm a garantia de compra de seus produtos, e o consumidor conhece a fundo a procedência do alimento. Essa relação alimenta o que os pesquisadores Portilho e Castañeda (2011) chamam de “confiança face a face”, em seu estudo realizado numa feira orgânica no Rio de Janeiro/RJ.

As comunidades que sustentam a agricultura estabelecem, portanto, um ciclo positivo de cooperação e autogestão para criar viabilidade econômica e segurança ao agricultor, que passa a ter mais suporte, fortalecimento e motivação para realizar suas atividades.

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Figura 4: CSA. Fonte: Google images.

Também é fundamental trazer a importância de movimentos sociais que organizam e articulam ações para a população rural. O MST, por exemplo, possui em todo o território brasileiro em torno de 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 1,9 mil associações de agricultores (Dados do MST). Sem falar das ações em agroecologia e educação no campo, que além de produzir alimentos e mentes saudáveis, geram benefícios ecossistêmicos em ações de recuperação e uso consciente dos recursos naturais.

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Figura 5: Venda de produtos de assentamentos rurais numa das feiras promovidas
pelo MST. Fonte: http://www.vozdomovimento.org/

Esse pode representar o embrião da transformação de perspectiva, buscando o incentivo à produção local de alimentos. A linha de frente de resistência ao sistema agroalimentar (Agro é pop, agro é tech, agro é tudo!) que nos é imposto como verdade única.

Além disso, existem agora associações e empresas que realizam a ponte entre consumidores e produtores e levam, semanalmente, cestas de alimentos orgânicos em pontos de encontro. A escolha dos produtos da cesta pode ser realizada via internet, de acordo com a disponibilidade dos produtores, com pagamentos semanais ou mensais.

Esses sistemas ainda não possuem forma definida e representam outra lógica de consumo, por isso, ainda podem parecer mais caros que os alimentos do supermercado. Porém no preço dos alimentos produzidos em massa, muitas vezes, não estão contabilizadas todas as externalidades negativas associadas a ele, nem tampouco é clara sua procedência, até a chegada na bancada do supermercado.

É preciso ainda transpor uma série de barreiras econômicas, burocráticas e sociais que inviabilizam a relação mais próxima entre consumidores e produtores locais, no entanto, é possível iniciar transformações locais, a partir da criação dessa nova perspectiva.

A criação de políticas públicas federais, estaduais e municipais têm papel importante no fortalecimento de cadeias locais de produção e consumo de alimentos, seja criando instrumentos legais, Planos, linhas de crédito aos agricultores ou até no estabelecimento de canais alternativos de comercialização dos produtos.

No Brasil, temos o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), programas federais que visam o fortalecimento das agricultoras e agricultores no escoamento da produção dos alimentos, por meio da sua compra pelos municípios.

No estado de São Paulo foi promulgada a Lei nº 16.684, de março de 2018, que institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica. Ela traz diretrizes e instrumentos legais que buscam beneficiar agricultores com financiamento, acesso a crédito, subsídios e apoio técnico na produção, beneficiamento e escoamento de produtos orgânicos e agroecológicos. Visando a garantia de segurança e soberania alimentar, a recuperação dos ecossistemas naturais, o protagonismo dos agricultores nos processos de construção e socialização do conhecimento e a democratização do acesso à terra (BRASIL, 2018).

Bom, fica claro, portanto, que a utopia não está distante da realidade (ou será que deixa de ser uma utopia?) e que existem sim caminhos possíveis para o resgate da soberania alimentar e de relações menos dependentes de um sistema oneroso para todos!

Uma coisa que todos os caminhos aqui ilustrados têm em comum é a organização coletiva, civil e política. Observando nossos hábitos de consumo e promovendo articulação entre grupos é possível criar novas alternativas muito mais economicamente viáveis, socialmente justas e ambientalmente corretas, de fato.

Rumo à independência do combustível, minha gente!

 

Referências

  • AZEVEDO, E. de. Ativismo alimentar na perspectiva do Locavorismo. Revista Ambiente & Sociedade São Paulo v. XVIII, n. 3 p. 81-98 jul.-set. 2015.
  • BRASIL, Assembleia Legislativa do Estado e São Paulo. Lei nº 16.684, de 19 de março de 2018. Institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PEAPO, e dá outras providências. São Paulo. 2018. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2018/lei-16684-19.03.2018.html Acesso: 29 de maio de 2018.
  • CAMARA, M. R. G. da; CALDARELLI, C. E. Expansão canavieira e o uso da terra no estado de São Paulo. Estudos avançados, São Paulo, v. 30, n. 88, p. 93-116, 2016 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000300093&lng=en&nrm=iso . Acesso em 06 de junho de 2018.
  • Food and Agriculture Organization. The state of food insecurity in the world. Meeting the 2015 international hunger targets: Taking stock of uneven progress. Rome: FAO; 2015. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i4646e.pdf
  • MITTAL, A. Foodprice Crisis: Rethinking food security Policies. G24 Technical Group Meeting, 2008. Disponível em: http://www.g24.org/TGM/mitta0908.pdf. Acesso em: Jun 2018.
  • PORTILLO, F.; CASTANEDA, M. Certificação e Confiança Face a Face em Feiras de Produtos Orgânicos. de Economia Agrícola, v. 58, n. 1, p. 11-21, 2011.
  • SILVA, R. A. da, et al. Infestação por triatomíneos em assentamentos e reassentamentos rurais na Região do Pontal do Paranapanema, Estado de São Paulo. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical v.40 n.5. Uberaba. 2007.
  • THOMPSON, E., HARPER, A. M. J.; KRAUS, S. Think Globally – Eat Locally: San Fran­cisco Foodshed Assessment, 2008. Disponível em: http://www.farmland.org/programs/ states/ca/Feature%20Stories/documents/ThinkGloballyEatLocally-FinalReport8-23-08. pdf http://www.farmland.org/programs/states/ca/Feature Stories/San-Francisco-Foodshed­-Report.asp. Acesso em: jun 2018.
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