As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: Viajando por Ganimedes, Calisto e Io

Parte III

No começo da nossa série sobre as “luas geladas”, conhecemos um pouco mais sobre o que essas luas precisam ter para receber essa definição (aqui) e conversamos um pouco mais sobre Europa, lua de Júpiter e uma das “luas geladas” mais famosas nos últimos anos, tanto em discussões acadêmicas como na mídia (e aqui). A parte III da nossa saga de 6 textos, ainda fala sobre as luas de Júpiter, e traz pra vocês mais informações sobre Ganimedes, Calisto e Io. Então, mãos à obra.

Pré-requistos para a existência e a manutenção da vida

Para começar, vou resgatar um trechinho do nosso primeiro texto para lembrarmos o que são as “luas geladas”. Elas são satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, sendo eles Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Para que recebam esta nomenclatura é necessário que as “luas geladas” apresentem três pré-requisitos, sendo eles: a presença de um meio líquido, de uma fonte de energia e de condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Viajando por Ganimedes

Ótimo! Agora que já lembramos o que esses satélites têm em comum, vamos então para os escolhidos de hoje. Ganimedes, a maior lua de Júpiter e do nosso Sistema Solar, é a segunda lua jupteriana de maior interesse para a astrobiologia no que se refere à busca de vida fora da Terra. Maior do que o planeta Mercúrio, Ganimedes é formada por partes iguais de material rochoso e água. Acredita-se que ela possua um oceano líquido sob a sua superfície, porém, muito tem se debatido se esse oceano estaria ou não em contato com o manto rochoso da lua ou se estaria isolado por uma camada rígida de gelo. Como a ciência não é algo que traz verdades absolutas e sim hipóteses e teorias que melhores descrevem os fenômenos que observamos, muita coisa interessante ainda pode surgir sobre essa lua.

Ainda assim, mesmo considerando essas discussões sobre a exata localização do oceano de Ganimedes, essa lua já se encontrava próxima à Europa no que se diz respeito a sua possibilidade de abrigar de vida. Um dos argumentos mais fortes que suportam essa ideia, é de que Ganimedes seja um satélite com fontes de energia e indícios de química complexa. Dessa forma, se o contato entre o oceano líquido e o manto (que possibilita trocas e fornece as condições necessárias para a formação de moléculas complexas) for confirmado, Ganimedes será consolidada como um dos ambientes mais propícios para o surgimento da vida em nosso Sistema Solar, equiparada com Europa.

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Figura 1. Visão global de Ganimedes. Créditos: Nasa/JPL.

Nessa lua então, acreditamos que os três pré-requisitos de ouro sejam: (1) água existente na forma líquida, encontrada em seu oceano interno; (2) força de maré originada no oceano interno da lua, decaimento radioativo de seu núcleo, e possivelmente também proveniente da radiação ionizante dos anéis radioativos de Júpiter, assim como ocorre em Europa; (3) provável interação água líquida-manto rochoso e a interessante reciclagem de sua superfície através do seu ativo ciclo geoquímico.

Um rápido pulo em Calisto e Io

E os interesses pelas luas de Júpiter não param por aí. Calisto e Io, ainda que em proporções menores quando comparadas às demais “luas geladas” que conversamos, são satélites interessantes para a ciência no que se trata da procura de vida fora da Terra. Calisto, a lua mais distante de Júpiter pode possuir um oceano líquido em seu interior, porém, devido a sua superfície ser bastante antiga e pouco diferenciada, acredita-se que pouca atividade geológica ocorra por lá, o que acarretaria em uma menor disponibilidade de energia (Figura 2).

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Figura 2. Visão global de Calisto. Créditos: Nasa/JPL.

Io, a quarta maior lua do Sistema Solar e a “lua gelada” mais próxima de Júpiter, ao contrário de Calisto, possui energia abundante (Figura 3). Contando com mais de 400 vulcões ativos, Io é considerado o objeto com maior atividade geológica do Sistema Solar. Porém, a lua possui pouca água e pouco carbono disponíveis, o que torna a existência de vida como a que conhecemos na Terra, pouco provável. Ainda sim, essas luas são consideradas bem mais prováveis para a existência de vida quando comparadas ao Sol, a lua da Terra e os planetas gigantes gasosos, por exemplo, ainda permanecendo interessantes para os astrobiólogos.

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Figura 3. Visão global de Io. Créditos: Nasa/JPL.

Como conversamos no primeiro texto, o interesse por essas luas é tão grande que grandes empresas de exploração espacial já estão preparando missões para entendê-las melhor. A missão programada pela ESA, a JUICE, (acrônimo em inglês para “The JUpiter ICy moons Explorer”, em português “Explorador das Luas Geladas de Júpiter”), tem lançamento previsto para 2022 e chegada em Júpiter em 2030. Um de seus principais objetivos será responder questões sobre o funcionamento do Sistema Solar e as condições para a formação de planetas e para a emergência da vida. Embora esta missão tenha a lua Ganimedes como foco de trabalho, Calisto e Europa também serão estudados a fim de facilitar o entendimento sobre a emergência de mundos habitáveis formados ao redor de gigantes gasosos.

Por hoje é isso! Nos próximos textos, vou contar um pouco mais pra você sobre as luas dos outros gigantes que ainda não abordamos para que juntas, possamos compreender um pouco mais sobre a nossa vizinhança cósmica.

Referências

CANUP, R. M.; WARD, W. R. Formation of the gallilean satellites: conditions of accretions. The Astronomical Journal, v. 124, n. 6, p. 3404-3423, 2002.

ESA. JUICE.

GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.

IRWIN, L. N.; SCHULZE-MAKUCH, D. Assessing the plausibility of life on other worlds. Astrobiology, v. 1, n. 2, p.143-160, 2001.

PASACHOFF, Jay M.; FILIPPENKO, Alex. The Cosmos: Astronomy in the new millennium. Cambridge University Press, 2013.

SCHUBERT, G. et al. Interior composition, structure and dynamics of the Galilean satellites. Jupiter: The planet, satellites and magnetosphere, v. 1, 2004.

SHOWMAN, A. P.; MALHOTRA, R. The Galilean satellites. Science, v. 286, p. 77-84, 1999.

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2 comentários sobre “As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: Viajando por Ganimedes, Calisto e Io

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