Cérebro e intestino: parceria inseparável

A relação entre nosso cérebro e nosso intestino tem sido estudada já faz algum tempo. Diversas publicações ao longo dos anos 2000 sobre “o segundo cérebro” popularizaram a informação de que nosso intestino tem funções muito mais abrangentes do que apenas absorver nutrientes. A neurociência, mais recentemente, reconheceu o papel da microbiota intestinal  com o sistema nervoso central e doenças como Alzheimer, bem como já documentou que o estresse muda a composição dessa microbiota e essa mudança pode afetar nosso comportamento frente às diferentes situações(1).

Primariamente, as bactérias da microbiota intestinal se beneficiam do ambiente muito nutritivo do intestino humano e em troca, beneficiam o indivíduo tornando alguns nutrientes que não seriam digeridos, disponíveis para o organismo humano. Também combatem o acesso a bactérias patogênicas e modulam nossa função neuronal de forma direta e indireta. A ciência descreve que o intestino e o cérebro se comunicam por rede de neurotransmissores, e mais recentemente mostrou que as vitaminas e alguns compostos chamados metabólitos microbiais neuroativos são capazes de afetar a função neuronal direta e indiretamente. A microbiota pode ainda afetar a resposta inflamatória e mandar sinais para o cérebro, ativando neurônios sensoriais e vias relacionadas ao sistema imune e endócrino. Estudos em animais já mostraram inclusive que camundongos com diferentes graus de ansiedade podem ter seu comportamento alterado pela microbiota por alterar a química cerebral, com resultados semelhantes em estudo de quadros de depressão(2).

 

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Esquema mostrando a relação entre cérebro e intestino: a parte superior do trato gastrointestinal (TGI), mostrada em amarelo, inclui o esôfago e o estômago. O intestino delgado (duodeno, jejuno, íleo) é mostrado em azul claro; o intestino grosso (ceco e cólon ascendente, transverso e descendente) é mostrado em verde. As interações entre o TGI e o sistema nervoso autônomo e central são indicadas por linhas vermelhas. As setas azuis bidirecionais curtas indicam aferências e eferências. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) é mostrado em amarelo escuro. A legenda mostra os tipos de células nervosas (glias entéricas e neurônios entéricos em vermelho), sistema endócrino em verde, músculo liso em marrom e as bactérias que colonizam o intestino em branco (2).

Uma das formas de modular a composição da microbiota é por meio do uso de probióticos. Esses probióticos são microorganismos vivos selecionados e administrados em quantidade adequada que exercem efeito benéfico sobre a saúde humana. Os famosos leites fermentados são a maneira mais popular de consumir esses probióticos, entretanto, a quantidade de microorganismos presentes nesses produtos são questionáveis. A forma mais segura para o consumo desses microorganismos é a forma manipulada ou adquirida pronta em farmácias. O interessante do uso potencial desses microorganismos é a possibilidade de  tratar desordens como doença de Parkinson, Alzheimer, autismo e transtornos de hiperatividade e déficit de atenção, foco dos estudos mais atuais(2). A maior parte dos estudos realizados empregaram modelos animais e apontam que os efeitos variam de acordo com o tipo de probiótico e com qual parte do cérebro esse microorganismo interage. Em humanos, o número de estudos ainda é muito reduzido, entretanto descrevem que houve redução de sintomas de ansiedade e humor nos indivíduos que consumiram os probióticos(2).

Neste contexto, surge uma questão: e o que comemos, é capaz de influenciar nossa microbiota? A resposta é SIM. O tipo de alimentação é um importante fator de influência sobre a microbiota intestinal. Por exemplo, o consumo de alimentos predominantemente de origem animal ou de origem vegetal por curtos períodos é capaz de alterar rapidamente a estrutura das bactérias(1). Um exemplo bem expressivo é a diferença entre bebês alimentados com fórmula e alimentados no peito, já discutido aqui no blog . Além dos nutrientes, nossa alimentação é capaz de fornecer combustível específico para as bactérias boas, conhecido como prebióticos. Além das vitaminas, minerais e fibras dos alimentos vegetais que devem compor o padrão alimentar saudável já bem conhecido, alimentos como sementes e raízes de alguns vegetais como o Yacon, chicória, cebola, alho, alcachofra, aspargo, cevada, centeio, grãos de soja e grão-de-bico fornecem esse combustível valioso para a saúde do primeiro e do segundo cérebro. Vamos começar? Assim garantimos a boa saúde “mental”.
Referências:

  1. Mayer EA, Knight R, Mazmanian SK, et al. Gut microbes and the brain: paradigm shift in neuroscience. J Neurosci. 2014;34:15490–15496.
  2. Mohajeri MH, La Fata G, Steinert RE, Weber P. Relationship between the gut microbiome and brain function. Nutr Rev. 2018 Apr 26. doi: 10.1093/nutrit/nuy009
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