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Robôs nas eleições: como ser mais humano?

Prazer, conheça a @fatimabot, um bot com boas intenções que irá ajudar a combater as fakenews no cenário de eleições brasileiras. A iniciativa foi a grande vencedora de um concurso lançado pelo Catraca Livre em parceria com o Instituto SEB e Educação com o apoio da Microsoft. Fátima é um chatbot com a intenção de ajudar os usuários do Facebook a identificar notícias falsas, encontrar dados reais e confiáveis e saber se a fonte é confiável ou não. Os bots estão se tornando uma importante ferramenta da tecnologia, tanto para informar democraticamente todos, como um aliado no relacionamento com o cliente.


Ao se tratar de atendimento ao público, a estratégia é usada desde o Banco do Brasil, que através do Messenger resolve questões simples de atendimento e dúvidas de cliente, até a marca Prudence, com a Conselheira Prudence, incentivando o uso de preservativos e dando dicas sobre sexo. (Você pode ler sobre outros exemplos aqui). E o investimento tem aumentado. Em 2016, as empresas investiram 229% a mais em chatbots em relação a 2015. Alguns chatbots são famosos mundialmente, como Eliza (Weinzebaum,1966) e ALICE (Abu Shawar and Atwell, 2003), a sigla de “Artificial Linguistic Internet Computer Entity”.


Porém, os chatbots tradicionais possuem uma capacidade limitada de interatividade, sendo fiéis as situações e palavras que foram programados para interagir. Com a evolução da inteligência artificial, foram desenvolvidos vários métodos de aprendizado, podendo os mesmos serem dinâmicos ou estáticos. No caso dos estáticos, o conhecimento é extraído de fóruns na internet ou de diálogos e aplicados na interação com os usuários. Nos dinâmicos, o conhecimento é extraído da própria conversa com os usuários, o que pode facilitar a resposta usando palavras chave. Neste sentido, cada palavra possível tem uma probabilidade de respostas.


A inteligência artificial e o aprendizado de máquina (machine learning) surgem neste contexto a partir da necessidade dos robôs se aprimorarem e serem capazes de aprenderem sozinhos.

A criação e o desenvolvimento de novas tecnologias são incentivadas através de competições e premiações.  O prêmio Loebner, por exemplo, é uma competição anual de inteligência artificial que premia os chatbots  que mais se assemelham ao comportamento humano, com padrão no Teste de Turing.  É possível, aprendendo uma linguagem de programação como JAVA, programar um chatbot em um que seja código livre. (Você pode encontrar exemplos aqui).

A tecnologia está disponível e nos permitindo criar interações cada vez mais sofisticadas.

É bom estarmos atentos porque essa mesma tecnologia que nos permite criar um mundo mais acessível e democrático, se utilizada de maneira indevida, pode limitar nosso exercício de cidadania,por exemplo. Em ano eleitoral, os robôs virtuais que emitem comentários e tendenciam fóruns na internet tornam-se uma ameaça a um processo eleitoral honesto. A resposta contra iniciativas que tentam inviabilizar o cenário democrático é o desenvolvimento tecnológico a serviço da sociedade, como a Fátima, para que prevaleça características humanas nas notícias e nas redes sociais, como a ética e o senso crítico.


Referências
DAL PICCOL SOTTO, Léo e DE CIA COSTA, Victor. Chatbot com Aprendizado a Partir de Diálogos. Instituto de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de São Paulo, São José dos Campos, São Paulo, Brasil. Link.


ALICE: https://home.pandorabots.com/en/

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“Sims era um salvador ou um sádico? Depende da cor das mulheres que você pergunta”

Quem faz a pergunta e resposta que dão título a este texto é a pesquisadora Harriet Washington no seu estudo sobre racismo na saúde nos Estados Unidos da América que gerou como resultado o livro Medical Apartheid (2007).

Mulheres de Anarcha

Yeboah-Kodie and others were sprayed with red to signify women’s pain after surgeries. (Creditos da imagem: Howard Simmons/New York Daily News)

No último mês de abril ativistas e militantes do movimento de mulheres negras dos EUA tiveram uma vitória simbólica, que da estátua de Dr. Sims foi removida do Central Park, Nova Iorque, chamado de “pai da ginecologia moderna” o cirurgião que utilizava as mulheres negras escravizadas como cobaias nos seus experimentos. No entanto, infelizmente, não foi somente Sims que, na história da medicina e da saúde, utilizou os corpos negros para realização de experimentos, fazendo-os cobaias da humanidade.

Estudo da Sífilis Não-Tratada de Tuskegee (Alabama/EUA) foi também um dos casos de uso da população negra como cobaias. Durante o período de 1932 a 1972, foi realizado um ensaio clínico no qual 399 homens negros com sífilis foram usados como cobaias na observação da progressão natural da sífilis sem medicamentos. Os doentes envolvidos não eram informados sobre seu diagnóstico e jamais deram seu consentimento para participar da experiência. Eles recebiam apenas informação que eram portadores de “sangue ruim”, e que se participassem do programa receberiam tratamento médico gratuito, transporte para a clínica, refeições gratuitas e a cobertura das despesas de funeral.

No Brasil um dos casos mais emblemáticos tem relação com o controle de natalidade da população negra, em Salvador (Bahia). O Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH), criado em 1986, e dirigido pelo médico Elsimar Coutinho na Bahia, fazia campanhas sobre controle de natalidade a partir de uma perspectiva eugênica. Entre os seus materiais de divulgação, tinham outdoors com fotos de crianças e mulheres negras com os seguintes dizeres: “Defeito de Fabricação”, para convencer a população baiana da necessidade do controle da natalidade (A questão da saúde reprodutiva e o feminismo negro no Brasil). Além disso, no Centro realizava experimentos com métodos contraceptivos hormonais, principalmente os injetáveis, em mulheres negras e pobres sob acusações da falta de informação dos efeitos no corpo e dos riscos no uso do método.

Mas quem era Dr. Sims?

James Marion Sims (1813–1883) foi um médico estadunidense e um pioneiro no campo da cirurgia, conhecido como o “pai da moderna ginecologia“. O seu trabalho mais importante foi desenvolver uma técnica cirúrgica para reparação da fístula vesicovaginal, uma grave complicação do trabalho de parto prolongado em demasia.

Sims usou mulheres negras escravizadas como cobaias no desenvolvimento dos seus estudos. Em seus experimentos realizava cirurgias nestas mulheres, sem o uso de anestesia, pois segundo ele “os africanos tinham uma tolerância fisiológica incomum para a dor”.

Em sua autobiografia, Sims disse que: estava em dívida para com as mulheres escravizadas. Depois que várias operações falharam ele estava desanimado e as escravizadas encorajaram-no a continuar, porque elas estavam determinadas a ter os seus problemas médicos curados. Logo depois de Sims ter feito uma cirurgia bem sucedida de fístula vesicovaginal e fístula rectovaginal em 1849, ele teria reparado com êxito as fístulas de outras mulheres escravizadas. Elas voltaram para seus trabalhos escravos.

Reflexos das práticas racistas na saúde das mulheres negras na atualidade

O sucesso dos experimentos de Sims nas mulheres negras, com reconstituição das fistulas vesicovaginal e fistula rectovaginal (fistulas obstétricas), não se reverteu para as mulheres africanas, pois ainda hoje em vários países da África as mulheres são expostas as fístulas, sendo um dos agravos determinantes da morte materna (Fístula Obstétrica e a violação de direitos).

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a fístula obstétrica afeta mais de 2 milhões de mulheres no mundo, principalmente nos países localizados na África e na Ásia. O perfil de mulheres mais afetadas inclui mulheres e meninas em situação de pobreza, com baixa escolaridade e que na maioria das vezes vivenciam o casamento forçado e a gravidez prematura.

“As mulheres negras são resistentes”, é o que diz o senso comum e vai além disso, pois parece que a prática de Sims ganhou adeptos na atenção obstétrica. Estudos científicos confirmam que os profissionais de saúde utilizam desta informação para definir o uso ou não de analgesia para as mulheres negras, é o que revela a pesquisadora Maria do Carmo Leal e colaboradoras em seus dois artigos “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil” (2017). Neste artigo é evidenciado que as mulheres pretas recebem menos anestesia local (pretas 10,7% e brancas 8,0%) para a episiotomia e o artigo mais antigo “Desigualdades raciais, sociodemográficas e na assistência ao pré-natal e ao parto, 1999-2001” (2005) revela que as mulheres negras estão mais expostas à não utilização de anestésico no parto vaginal, chegando a quase um terço.

Diante disso, o que temos como responsabilidade hoje é recontar a história da medicina/saúde e a história natural da doença, desconstruir epistemologias racistas, sexistas e colonizadas nas práticas de saúde e construir outras bases epistemológicas que reconheçam os direitos humanos, a diversidade e as diferenças, na esperança que futuramente os atendimentos e os cuidados nos serviços de saúde não sejam estruturados pelo racismo e outras formas de opressões correlatas, que ainda tem sido determinante na forma de adoecer e morrer para mulheres negras e homens negros.

Referências

WASHINGTON, Harriet A. Medical apartheid: The dark history of medical experimentation on black americans from colonial times to the present. 2007.

ESTUDO DA SÍFILIS NÃO TRATADA DE TUSKEGEE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Estudo_da_S%C3%ADfilis_n%C3%A3o_Tratada_de_Tuskegee&oldid=48573236>. Acesso em: 17 abr. 2017.

MARION SIMS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=J._Marion_Sims&oldid=51851068>. Acesso em: 19 abr. 2018.

DAMASCENO, Mariana. A questão da saúde reprodutiva e o feminismo negro no Brasil. 2017. https://www.cafehistoria.com.br/a-questao-da-saude-reprodutiva-e-o-feminismo-negro-no-brasil/

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1, e00078816.  Epub July 24, 2017.

LEAL, Maria do Carmo; GAMA, Silvana Granado Nogueira da; CUNHA, Cynthia Braga da. Desigualdades raciais, sociodemográficas e na assistência ao pré-natal e ao parto, 1999-2001. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 39, n. 1, p. 100-107,  Jan.  2005.

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Medo de dirigir? A psicologia aliada a tecnologia pode ajudar

Uso de realidade virtual e terapia de exposição tem sido eficaz na diminuição do medo de dirigirdriving-2732934_640Fonte: CC0 Creative Commons

Muitas pessoas têm medo de dirigir, e isso ocorre por diversos motivos, mesmo quando um indivíduo não esteve presente ou causou um acidente prévio. Entender os motivos pelos quais um indivíduo tem esse medo é o primeiro passo na construção de um programa que tenha como objetivo reduzir o medo ou fobia de dirigir. Para a análise do comportamento, a análise funcional é uma forma de descobrir relações entre nossos comportamentos e o ambiente a nossa volta, evidenciando, por exemplo, diante de quais situações um indivíduo evita ou se recusa a dirigir e o que acontece quando ele se comporta desse jeito.

Estudos têm mostrado, por exemplo, que a avaliação negativa de terceiros (pais, parceiros e, inclusive, estranhos) é um dos motivos pelos quais muitas pessoas evitam dirigir. Outros motivos incluem regras como “se eu dirigir, vou perder o controle do carro”, “não consigo me concentrar”, etc. que, mesmo sem serem acuradas, diminuem a probabilidade de que um indivíduo se engaje no comportamento de dirigir. Para a análise do comportamento, a fobia de dirigir é caracterizada pela esquiva, ou seja, evitação de situações onde seja necessário dirigir, uma vez que elas produzem grande ansiedade. Assim, a emissão dessas regras e de outros comportamentos são eficazes porque reduzem ou eliminam a ansiedade. Nesse sentido, a terapia deve ser focada em expor o indivíduo a situações relativamente estressantes, ensinando estratégias para lidar com a ansiedade e comportamentos técnicos adequados, como a colocação correta das mãos no volante, o uso correto da embreagem, etc., de modo que o indivíduo se sinta cada vez menos ansioso nessas situações, mostrando que ele é capaz de dirigir sem necessariamente causar acidentes.

Pensando nos prejuízos associados a esse medo, pesquisadores têm buscado formas de auxiliar na redução da fobia de dirigir, sem, no entanto, expor esses indivíduos na situação in vivo. Nesse sentido, as terapias de exposição por realidade virtual têm sido utilizadas como uma ferramenta importante em que, apesar de não haver perigo real de acidente, os indivíduos com fobia de dirigir se sentem como se estivessem dirigindo na rua, ou seja, mesmo estando em um ambiente fechado e sem estar em movimento, as características de hardware e software do carro e dos cenários visualizados pelo indivíduo são eficientes em gerar emoções parecidas com a situação real.

O estudo de Elizeu Borloti e colaboradores (2018), publicado na revista Avances en Psicología Latinoamericana é um exemplo disso. Os experimentadores recrutaram seis adultos, quatro mulheres e dois homens que, apesar de possuírem a carteira de habilitação, relataram ter medo ou fobia de dirigir, e uma intervenção com o objetivo de reduzir esse medo foi feita com o uso da terapia por exposição por realidade virtual. Para tal, um simulador de veículo automotivo foi utilizado. Esse simulador continha a estrutura de um carro, com volante, cinto de segurança, freio, embreagem, acelerador, etc., e apresentava diversos cenários (e.g., cenário urbano sem trânsito e com poucos transeuntes; cenário de subida; cenários com múltiplas paradas requeridas; cenário de rampas, curvas e subidas; estacionamento). Durante todo o procedimento, os participantes avaliavam a sensação de desconforto/ansiedade sentida, o senso de presença, ou seja, o quão similar a situações in vivo o simulador era, entre outras medidas.

Na linha de base, foi verificada a habilidade dos participantes no carro, como a identificação dos componentes do carro, a posição do pé na embreagem, a posição das mãos no volante, etc. Nessa fase, nenhum erro de condução foi apontado. As dificuldades foram anotadas para serem abordadas na fase de intervenção. Três cenários foram escolhidos para a fase de intervenção, sendo eles os que o participante demonstrou maior dificuldade. Nessa fase, a experimentadora realizou também uma avaliação funcional do comportamento de dirigir dos participantes, ou seja, verificou em quais contextos e situações os participantes desistiam ou se recusavam a dirigir, e o que acontecia após (e.g., se alguém punia seu comportamento, com comentários do tipo “você nunca vai dirigir assim” e “dirigir é fácil”; se ela recebia apoio e comentários empáticos do tipo “é normal ficar nervosa”, “respira fundo e tenta de novo”).

Sempre que o participante tivesse um nível alto de ansiedade, ele era encorajado a respirar com o diafragma. O cenário inicial sempre era o que eliciava menor ansiedade, aumentando gradativamente, conforme o desempenho do participante fosse melhorando. As dificuldades técnicas no dirigir foram abordadas e ensinadas maneiras adequadas de manipular os elementos do carro. Sempre que um participante realizasse manobras ou outras atividades de modo adequado, ele recebia feedback positivo, assim como pelo enfrentamento da situação que era altamente estressante. Os participantes só avançavam para o próximo cenário se demonstrassem um menor nível de ansiedade e uma boa condução no nível anterior. Foram realizadas seis a oito sessões de intervenção, a depender da necessidade de cada participante, e um e três meses depois do fim da intervenção, foram feitas sessões para avaliar se o comportamento de dirigir tinha sido mantido (follow-up).

Os resultados mostraram que, no geral, todos os participantes relataram sentir menos medo de dirigir. Isso foi evidenciado pelo fato de que todos os participantes tiveram oportunidades de executar o que foi aprendido, dirigindo no dia a dia, e quatro dos cinco dirigiram em mais de 50% das oportunidades durante a fase de intervenção (P1 e P6 dirigiram em todas as oportunidades; P4 dirigiu em torno de 38% das oportunidades). Durante o follow-up, todos os participantes dirigiram em, pelo menos, 50% das oportunidades, e a maioria relatou sentir menos medo de dirigir em comparação com a fase de intervenção. Os participantes relataram que os cenários eram bastante reais, e isso os auxiliou enfrentar o medo e dirigir, de fato, nas ruas. A análise funcional também foi útil, pois ajudou os participantes a discriminarem as situações as quais evitam ou se recusam a dirigir, buscando estratégias próprias para superar o medo e se exporem às situações que temiam.

Esse estudo é um exemplo de como a união de estratégias da psicologia com os avanços tecnológicos, pelo uso dos simuladores pode melhorar a vida e diminuir o sofrimento de diversas pessoas que sofrem de fobia ou medo de dirigir.

Quer saber mais?

O estudo: Borloti, E., Santos, A., Haydu, V. B. (2018). Terapia com exposição à realidade virtual e avaliação funcional para fobia de dirigir: Um programa de intervenção. Avances en Psicología Latinoamericana, 36(2), 235-251. doi: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.5329

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O homem grávido

Nesse último domingo, dia das mães, diversas imagens e vídeos foram compartilhados entre as diversas formas de mídias. Até aí nada de para surpreender, certo? O que me chamou a atenção foi como muitas dessas supostas homenagens eram na realidade propagação de uma normalização (e com quê de heroísmo) da extrema dedicação da mãe ao filho. Ficou bastante claro, que nós como sociedade esperamos que as mães tenham uma dedicação ao trabalho de cuidar sem limites. Que seja normal que ela se coloque em segundo plano, que se desumanize, que tenha condições de vida/trabalho que não seriam aceitas em relação a nenhum outro trabalho. Contudo, deveríamos estar nos perguntando: “estamos sendo justos com as mães?”.

 

ALERTA o cuidado, da maneira que está sendo propagado, injustamente como um fardo único da mulher é na realidade fruto do machismo.

 

Parte deste discurso baseia-se no senso comum de que a mulher irá desenvolver rapidamente uma conexão com a/o filha/o devido ao fato de levar o bebê dentro de si, pois a gestação permite que a mulher vivencie transformações no próprio corpo e que sinta o bebê se mexendo. Dessa forma, acreditamos que a capacidade de gerar, que nos humanos é uma característica exclusiva das fêmeas, as torne as únicas passíveis de mudanças hormonais durante a gravidez.

Isso apenas alimenta o mito de que o cuidar é algo “natural” à mulher e não para o homem.

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Contudo, pesquisas vêm demonstrando que a história não é bem assim. Dois estudos mostraram que homens que se encontram engajados na gravidez, ou seja, que participam e se envolvem, também apresentam mudanças hormonais, como a queda dos níveis de testosterona e estradiol. Os homens que tiveram os maiores declínios em testosterona durante a gestação da companheira se tornaram pais mais dedicados aos cuidados do infante após este nascer, sendo inclusive mais afetuosos.

Já os níveis de progesterona e cortisol são equiparados com os da mãe: se os níveis hormonais da mãe sobem, os do pai sobem também, se os níveis hormonais da mãe diminuem os do pai também diminuem. Apesar dos níveis desses hormônios não serem em números absolutos iguais entre o pai e a mãe, essa flutuação em harmonia indica que as experiências, tanto excitante quanto assustadora da gravidez, são vivenciadas igualmente pelo casal.

Essas mudanças hormonais nos futuros papais não se dão devido a uma gestação interna, obviamente. Elas são, na realidade, uma resposta à relação do casal. Isso mostra que a biologia do homem também responde aos estímulos da gravidez se este encontrar-se em uma relação íntima, de cumplicidade e em que é um suporte social da mulher.

Nossos comportamentos são flexíveis, ou seja, respondem ao nosso ambiente de forma muito eficiente; seja este ambiente físico ou social. Assim, podemos dizer que o ser humano é um animal biologicamente cultural. Se a sociedade em que você se encontra inserido suporta a ideia de um pai presente, espera-se que os homens desta sociedade respondam adequadamente aos estímulos do ambiente-social, podendo ocorrer mudanças fisiológicas que os levem a se comportar da melhor maneira para a vida nesta sociedade, neste caso: mudanças hormonais durante a gravidez da parceira. Agora, se na sociedade em que o homem encontra-se inserido, a estratégia de reprodução mais vantajosa não é o investimento paternal, então não se espera que se crie o laço afetivo com a mãe e consequentemente não haveria as mudanças hormonais acima citadas.

Veja, a melhor estratégia reprodutiva não é, como também difundido erroneamente pelo senso comum, deixar a maior quantidade de filhos, mas a maior quantidade de filhos que consigam sobreviver e se reproduzir. Assim, se em determinada condição, por exemplo, a nossa atual onde o investimento emocional e financeiro para que seu filho seja bem sucedido nessa sociedade é alto, espera se que a estratégia evolutiva mais eficiente para esta sociedade seja a de criar laços e permanecer.

É importante pararmos de perpetuar más interpretações sobre o comportamento humano, principalmente aquelas que possam ser usadas como pseudo-justificativas para comportamentos que não são (ou não deveriam) ser bem vistos na nossa sociedade. Somos flexíveis. Respondemos ao nosso ambiente. Inclusive ao ambiente social.

Se tanto, homens quanto mulheres podem sofrer variações fisiológicas que os preparam para o cuidado parental, continuaremos a dizer que esse é um cargo da mulher? Continuaremos a elogiar o pai que “ajuda” a mãe e esperar que as mães se sacrifiquem pela criação dos filhos? Talvez o que nos reste seja nos pergunta; e agora (que não temos a desculpa do “natural”):

o que vamos ensinar aos nossas filhas e filhos?

 

Para saber mais:
Edelstein, R.S. et al. (2017). Prospective and dyadic association between expectant parents’ prenatal hormone changes and postpartum parenting outcomes. Dev. Psychobiol.

 

Edelstein, RS. Et al. (2014). Prenatal hormones in first-time expectant parents: Longitudinal changes and within-couple correlation. American Journal of Human Biology

 

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Canabinóides na Doença de Parkinson

No ano de 2017 se falou muito, aqui no Brasil, da legalização da Maconha medicinal (Cannabis sativa). A reportagem publicada no site do UOL, entitulada Maconha medicinal no Brasil? traz um panorama geral dos avanços nessa área, e é bem legal para você se contextualizar no assunto.

Pacientes com epilepsia grave receberam autorização, no Brasil, por meio judicial, para o consumo em 2014, como divulgado em nota oficial da Academia Brasileira de Neurologia.

Porém os seus benefícios também são estudados para a Doença de Parkinson e outras disfunções motoras.  Foi liberada, no Brasil, em 2017, a venda do Mevatyl, fármaco a base de canabidiol  e THC , com efeitos sobre os sintomas motores, testado na esclerose múltipla. No entanto, mesmo com a dispensação da receita pelo médico, o fármaco não é comercializado na maioria das farmácias. Não houve grande interesse das farmácias, ainda, em comercializar o fármaco devido ao pequeno número de clientes e ao alto custo do fármaco, que segundo pesquisa realizada pela Folha custa cerca de R$3000,00.

A Doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo, que destrói terminações dopaminérgicas da substância nigra do cérebro, e leva a perda progressiva do controle dos movimentos. O tratamento do Parkinson, apesar de bem estabelecido, não impede o avanço dos sintomas, mas sim desacelera os mesmos. A perda de qualidade de vida no Parkinson é progressiva. Em outros textos aqui do blog, você pode ler mais sobre a Doença de Parkinson, como formas de tratamento no texto “A terapia de estimulação cerebral profunda e a Doença de Parkinson”  e formas de estimular o paciente, como em “Os benefícios do Pilates: reabilitação e pacientes com Parkinson”. Os pacientes com Parkinson avançado sofrem muitas debilitações, além de insônia e depressão, e podem se beneficiar também do uso da Cannabis.

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Quando os cientistas descobriram que haviam receptores canabinóides no nosso cérebro, isso levantou uma pergunta, no mínimo curiosa: por que temos receptores para maconha no nosso cérebro? Bom, surgiu daí a teoria de que existiriam canabinóides endógenos, que ainda são pouco conhecidos. Os principais endocanabinóides identificados são aracdoniletanolamida (AEA), também conhecida como anandamida; e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG).
Os gânglios basais no cérebro são uma região de alta concentração de receptores canabinóides, receptores CB1, e em menor quantidade CB2, concentrados principalmente no globo pálido e na substância nigra. A ligação dos canabinóides à esses receptores tem efeito sobre o controle dos movimentos. Estudos experimentais sugerem que os efeitos adversos do uso da Levodopa, fármaco de escolha no tratamento do Parkinson, surgem por deficiência de canabinóides endógenos, sendo que o fornecimento de canabinóides exógenos pode melhorar os sintomas de discinesia. A discinesia é um distúrbio da atividade motora que leva a um constante balancear do corpo.

Ensaios clínicos com agonistas dos receptores CB1 demonstram a capacidade de proteção das células dopaminérgicas, diminuição do tremor e melhora dos movimentos voluntários, além da redução da discinesia e da rigidez muscular, em humanos e primatas (Mursaleen e Stamford, 2015). Um estudo conduzido em Israel, publicado em dezembro de 2017 por Yacov Balash e colaboradores, relatou que 40 pacientes foram tratados com maconha medicinal (fumada) e demonstraram: diminuição das quedas dos pacientes, diminuição da dor, melhora dos movimentos e melhora do sono. No entanto, quase 60% desses pacientes tiveram efeitos adversos. Os efeitos adversos foram relacionados, principalmente, aos efeitos alucinógenos da erva, sugerindo ser necessária uma melhor adequação do composto derivado da maconha a ser utilizado.

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Imagem disponível em: http://especiais.correio24horas.com.br/filadacannabis/portfolio-item/nacabecaativa/

O estado de São Paulo tomou a frente nas pesquisas no Brasil e tem publicado resultados importantes que tem colaborado para que os pacientes ganhem acesso aos medicamentos derivados da maconha. O departamento de toxicologia da Universidade Federal de Ribeirão Preto – São Paulo, estudou o canabidiol, constituinte não psico-ativo (não dá barato) da maconha, e evidenciou efeitos neuroprotetores da substância, devido à sua capacidade de cruzar a barreira hemato-encefálica e suas propriedades anti-inflamatórias e oxidantes. Células tratadas com os canabinóides apresentaram menor taxa de morte celular, e no modelo de Parkinson, menor perda, específica de células dopaminérgicas (Santos e cols., 2015). Outro estudo desenvolvido pela USP, um ensaio clínico duplo cego randomizado com grupo controle placebo, testou extratos de canabidiol com 75mg e 300mg, cada grupo com 7 pacientes, e encontrou associação do uso dos canabinóides com a melhora da qualidade de vida dos pacientes (Chagas e cols.,2014).
Em 2014, a Academia Americana de Neurologia (AAN) publicou uma meta-análise (grande conjunto de estudos científicos) de estudos com canabinóides em pacientes com Parkinson, e apesar de considerar controversos os dados sobre aspectos motores, a Academia reconhece os benefícios sobre o sono, dor e qualidade de vida dos pacientes. Mais recentemente, diversos trabalhos foram publicados com o uso específico do canabidiol na melhora dos movimentos e da discinesia no Parkinson (Bruck e cols., 2014).

A prescrição de derivados da Cannabis foi permitida em 2014 para médicos de São Paulo, após estudos efetivos de universidades da região, permitindo a sua importação, e em 2017, a planta foi incluída como medicinal na farmacopeia reconhecida pela ANVISA. No entanto, esse uso tem sido restrito a pacientes com epilepsia grave e esclerose múltipla. Apesar dos avanços, os dados sobre o uso de canabinóides no Parkinson são inconclusivos e insuficientes. Diante do potencial do uso da maconha medicinal no Parkinson, é muito importante o investimento em ensaios clínicos de alto nível de evidência científica para que se possa comprovar os benefícios da maconha medicinal.

Referências:

Mursaleen LR, Stamford JA. Drugs of abuse and Parkison’s disease. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, 2015.

Santos NAG, Martins NM, Sisti FM, Fernandes LS, Ferreira RS, Queiroz RHC, e cols. The neuroprotection of cannabidiol against MPP+-induced toxicity in PC12 cells involves trkA receptors, upregulation of axonal and synaptic proteins, neuritogeneses, and might be relevant to Parkinson’s disease. Toxicology in Vitro, v.30, p.231-40, 2015.

Chagas MH, Zuardi AW, Tumas V, Pena-Pereira MA, Sobreira ET, Bergamaschi MM, e cols. Effects osf cannabidiol in the treatment patients with Parkinson’s disease: An exploratory double-blind trial. Journal of Psychopharmacology, 2014.

Bruck S, Frota NA, Schestatsky P, Souza AH, Carvalho VN, Manreza MLG, e cols. Cannabinoids in neurology – Brazilian Academy of Neurology. Arq. Neuropsiquiatria, v.73, n.4, p:371-4, 2015.

Balash Y. e cols. Medical Cannabis in Parkinson Disease: Real-Life Patients’ Experience. Clinical Neuropharmacology • Volume 40, Number 6, November/December 2017

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Quanto tempo sua saúde e segurança trabalham?

No dia 1º de maio é comemorado o Dia do Trabalhador. A data foi marcada por protestos e enfrentamentos em Chicago, em 1886, por melhores condições de trabalho, entre elas a redução da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. No Brasil, com a instalação das primeiras indústrias no século XIX houve forte aumento da jornada de trabalho seguidas de duas quedas. A primeira, em 1932, por meio de decretos, mais tarde incorporados a Consolidação das Leis Trabalhistas, regularizando para 48 horas semanais. A segunda, em 1985, com a greve do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, a jornada foi alterada para 44 horas semanais e regulamentada na Constituição Federal, em 1988.

Alguns estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos relacionam o aumento de acidentes de trabalho com o maior número de horas na jornada de trabalho, sendo o maior risco por volta das 11 horas com queda ao meio dia, tendo distribuição igual ao período da manhã. Nos casos onde a jornada de trabalho em indústrias foi reduzida de doze para dez horas, houve diminuição de 60% dos acidentes de trabalho, deixando implícita a necessidade das pausas durante a jornada.

Na legislação brasileira, alguns casos de pausas estão regulamentados. Na Norma Regulamentadora 36, “SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO EM EMPRESAS DE ABATE E PROCESSAMENTO DE CARNES E DERIVADOS”, prevê os seguintes tempos:

 

Jornada de Trabalho Tempo de tolerância para aplicação da pausa Tempo de Pausa
até 6h Até 6h20 20 Minutos
até 7h20 Até 7h40 45 Minutos
até 8h48 Até 9h10 60 Minutos

A NR-17, “ERGONOMIA”, cita pausas para quem trabalha com esforço de sobrecarga estática ou para trabalhos realizados em pé. Ainda no Anexo II da Norma, especificamente para trabalhadores de telemarketing, cita as seguintes condições de pausa:

“5.4.1. As pausas deverão ser concedidas:

  1. a) fora do posto de trabalho;
  2. b) em 02 (dois) períodos de 10 (dez) minutos contínuos;
  3. c) após os primeiros e antes dos últimos 60 (sessenta) minutos de trabalho em atividade de teleatendimento/telemarketing.

5.4.1.1. A instituição de pausas não prejudica o direito ao intervalo obrigatório para repouso e alimentação previsto no §1° do Artigo 71 da CLT.

5.4.2. O intervalo para repouso e alimentação para a atividade de teleatendimento/telemarketing deve ser de 20 (vinte) minutos.”

Além das pausas, adotadas como estratégia para minimização de riscos, pode ser aplicado variação e rodízio dos postos de trabalho. O rodízio é importante para ativação de outros grupos musculares e descanso daqueles trabalhados.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 41% do países possuem jornada de 40 horas semanais e 44%, acima de 40 horas (atual recomendação da Organização). Na América Latina, Ásia e Oriente Médio prevalece as jornadas acima de 42 horas semanais. A Argentina supera o limite brasileiro com 48 horas semanais, porém a França adota 35 horas como jornada ideal de trabalho. A posição controversa assumida pelo economista brasileiro Pedro Fernando Nery alega que a redução da carga horária de trabalho atingiu positivamente a economia europeia.

Ao se tratar apenas da saúde e segurança do trabalhador, a jornada de trabalho menor traz menos riscos e mais qualidade de vida. Porém, enquanto ainda não se discute no Brasil seguir a recomendação da OIT sobre a quantidade de horas da jornada de trabalho, é necessário que haja consciência e cumprimento das Normas Regulamentadoras com as pausas recomendadas.

 

Referências

FILUS, Rodrigo. Tese de doutorado: o efeito do tempo de rodízio entre postos de   trabalhos nos indicadores de fadiga muscular – o ácido lático. Universidade Federal do Paraná. Curitiba. 2006. Link.

MASCARENHAS BRANDÃO, Cláudio. Jornada excessiva de trabalho provoca acidentes. Em Consultor Jurídico (website). 2009.