O vácuo: a falta de representatividade étnica nos resultados de estudos científicos em saúde.

Slide1

Calma, hoje é dia da coluna de saúde mesmo! Pedimos licença às colegas das exatas para usar “vácuo” como analogia à falta de resultados científicos que mostrem a importância de se estudar as respostas biológicas das diferentes etnias. Nós já falamos sobre isso por aqui antes especialmente quando tratamos junto a questão do gênero. Um estudo recente realizado por uma rede de instituições de saúde de países como Estados Unidos, Porto Rico, México e Espanha mostrou como a etnia influencia no desenvolvimento e tratamento da asma.

A asma é uma doença crônica comum em crianças, que tem como característica básica a contração dos músculos das vias aéreas, diminuindo drasticamente a passagem do ar para os pulmões (Figura 1). O tratamento é relativamente simples uma vez que substâncias que dilatam as vias, ou seja, broncodilatadores como o salbutamol, são utilizados no momento da crise.

Slide2

Estudos anteriores já tinham identificado que, considerando as diferentes etnias presentes nos Estados Unidos, a maior parte das crianças que desenvolvem asma são de origem porto-riquenha (quase 40%). Crianças de origem africana e europeia tem incidência semelhante (12%) e, em menor proporção, estão as crianças mexicanas (7%). No entanto, o estudo mais recente liderado por Esteban Burchard, da Universidade da Califórnia, e realizado por outros 50 autores de 40 instituições de pesquisa, mostrou que não só a forma que a asma se apresenta, mas a resposta ao medicamento salbutamol também é diferente entre as etnias. A figura abaixo mostra como cada etnia estudada – porto-riquenhos*, mexicanos e afrodescendentes – responde ao medicamento. O gráfico mostra os resultados dos exames de função pulmonar (medição do volume de ar exalado no primeiro segundo de teste) após a administração do salbutamol. Os resultados considerados normais são mostrados em cinza, os resultados que representam a alta resposta ao medicamento é mostrada em vermelho, e a baixa resposta ao medicamento é mostrada em azul. Como pode ser claramente visto, as curvas de avaliação da função pulmonar mostram que cada população reage de uma forma diferente após a administração da mesma dose do medicamento. Isso sugere que a quantidade de medicamento que leva a melhora da população porto-riquenha pode ser muito alta para os afrodescendentes. Note que enquanto as populações porto-riquenhas estão respondendo ao medicamento de forma intermediária, as populações mexicanas e afrodescendentes estão respondendo fortemente, o que pode aumentar a possibilidade de efeitos colaterais.

Slide3

Que cada pessoa pode responder de formas diferentes a um mesmo medicamento não é novidade. Mas quando a diferença envolve populações inteiras e de características genéticas definidas, isso ajuda a entender as bases genômicas que justifiquem a diferença de resposta ao medicamento. Já existe um ramo da área de farmácia que estuda esse assunto chamado farmacogenômica. Esta cadeira estuda o efeito de um medicamento administrado em determinada pessoa com características genéticas próprias. Por exemplo, pessoas que tem variação genética, a ponto de produzirem enzimas do fígado que não funcionam bem, podem responder de forma diferente a medicamentos como anticoagulantes ou antidepressivos, quando comparado a pessoas que não tem essa variação. O que esse recente estudo mostra é que ao se estudar características genéticas de grupos étnicos pode-se melhorar o atendimento médico a essas pessoas e prover a elas o tratamento mais adequado e com menos efeitos colaterais.

 

No entanto, outros parâmetros devem ser levados em consideração. Não é à toa que existam poucos trabalhos que estudem as implicações terapêuticas das diferenças genéticas de populações. Isso é um reflexo de como a sociedade se comporta diante de diferentes raças, como já falamos por aqui antes. Nos atenhamos aos grupos avaliados no estudo. A marginalização da comunidade de mexicanos e afrodescendentes nos Estados Unidos os submete a condições de saúde mais precárias: alimentação pouco saudável, alto consumo de substância ilícitas, ambientes mais poluídos, acesso restrito a centros de saúde. Essa combinação de fatores pode dificultar o estudo da influência da genética das populações no efeito de medicamentos. Esse estudo mostra mais do que a falta de representatividade nos dados científicos, mostra como a desigualdade social dificulta o fazer ciência.

*Os porto-riquenhos não foram classificados como latinos devido a sua cultura e por seu meio ambiente insulano separado.  

  

Referências:

http://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/402/403

http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/01/29/farmacogenetica-torna-possivel-aplicar-terapias-individualizadas/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23750510

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29509491

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26734713

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s