Trabalho reprodutivo na agenda. Obrigada, Irene Martín!

No 1.º de Maio, em Lisboa, Irene Martín, uma jovem espanhola que se encontra a fazer um mestrado em Portugal, foi para a rua com um cartaz que dizia o seguinte: “Farta até à cona de gerar a mais-valia dos homens. Trabalho reprodutivo sustenta o capital” [1]. Umas horas depois, a sua foto (em baixo) com o cartaz bem levantado incendiava as redes sociais. Falava-se da sua barriga, dos seus pelos no sovaco, enfim… os despropósitos habituais aplicados a todas as mulheres que assumem uma posição em público e não seguem a ética e a estética do patriarcado, que ainda acha (de achismo, que é diferente de “pensar” porque, na verdade, pensam muito pouco) que a sua opinião tem alguma validade.

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Irene Martín, Foto de Nuno Marques

No entanto, aquilo que deu, realmente, que falar foi o que se encontrava a vermelho, no cartaz: a palavra “cona” e a frase “Trabalho reprodutivo sustenta o capital”. Relativamente à palavra “cona” não pretendo perder muito tempo com ela, mas considero necessário tecer algumas considerações. “Cona”, até agora, tem sido um termo pejorativo utilizado pelos homens para assediarem sexualmente as mulheres ou para as insultarem através da sua genitália e sexualidade e é, por isso, uma palavra condenada ao segredo e à vergonha. Essa condenação ao segredo e à vergonha é para todas as mulheres, claro, e para os homens quando estão armados em bons chefes de família ou em respeitáveis intelectuais, ou homens de negócios, ou políticos, ou seja lá o que for que mereça um ar polidinho e sério. No dia a dia, é uma palavra que já todas nós, mulheres, ouvimos em forma de insulto e de assédio. Sem querer entrar num esquema de “me too” tenho a certeza absoluta que a grande maioria das mulheres portuguesas já ouviu esta palavra dirigida a si e/ou a outras mulheres.. É talvez, por isso, que os comentários ofensivos dirigidos à Irene por homens nas redes sociais devido ao uso desta palavra, não merecem qualquer comentário, é mais do mesmo, se ela usasse “estou farta até aos cabelos” provavelmente seria insultada na mesma, só pelo simples facto de estar naquela pose de desafio.

Quanto aos comentários feitos pelas mulheres, isso já é outra história e merece ser um pouco dissecada. Na verdade, parece-me que todas as que consideraram que a Irene era “mal-educada”, “sem classe”, “vulgar”, “arruaceira” e tantos outros adjectivos patriarcais e machistas, já se fartaram de ouvir na rua “rebentava-te com essa cona toda” e outros impropérios usando a dita palavra, e resolveram ficar em silêncio, cheiinhas de vergonha, porque não podiam repetir tal palavrão, que não é digno de uma “senhora”. Este conceito “senhora”, e tudo o que ele representa é tão conservador e ridículo que pensamos que já foi ultrapassado, mas, infelizmente, não é assim e surge sempre que é necessário lembrar que o mundo precisa das ditas “senhoras” para defenderem o seu status quo heteronormativo, machista e patriarcal de um dos seus maiores inimigos: as mulheres livres que teimam em transgredir e mandam esta gente e as suas regras de educação e classe para… onde quiserem (e puderem) ir, desde que não perturbem a ordem natural das coisas, que é o desmoronamento do heteropatriarcado. Enquanto por cá andam, poderiam ter aproveitado a dica da Irene, apropriar-se do termo “cona” que tem sido usado como um instrumento de opressão e convertê-lo num índice revolucionário, num lugar de resistência e acção política.

No que diz respeito ao trabalho reprodutivo, há que dizer que este cartaz foi de extrema importância para colocar este tema na agenda em Portugal, até porque foi notório o desconhecimento em relação a este assunto, nos posts e comentários que se viam nas redes sociais, uma vez que a maioria considerava que tinha a ver com reprodução (gravidez) ou trabalho sexual. Na verdade, este trabalho reprodutivo que uma jovem do país vizinho colocou na ordem do dia em Portugal, debate-se desde os anos setenta por feministas e marxistas que começaram a olhar para o trabalho doméstico como uma forma de trabalho de grande importância económica, que deveria ser contabilizado de alguma forma. O Instituto Europeu para a Igualdade de Género [2] define-o como: “Todas as tarefas associadas ao apoio e manutenção da actual e futura força do trabalho – daqueles que realizam ou realizarão trabalho produtivo. Inclui a criação e a manutenção, mas não se limita a essas tarefas” [2].

Aliás, as tarefas são tantas que é difícil enumerá-las todas, mas incluem-se: limpeza, preparação de alimentos, compras, prestação de cuidados, organização do funcionamento de toda a casa, planeamento de todas as actividades relacionadas com a família, gestão da casa, etc… Chama-se trabalho reprodutivo para o diferenciar do trabalho de produção (de bens e serviços), muito embora, este último seja o único reconhecido economicamente e socialmente como trabalho, nas sociedades industrializadas. Trabalho reprodutivo substitui o termo “trabalho doméstico”, para que possa ter um alcance muito maior do que o que é, normalmente, atribuído ao trabalho doméstico. Não é remunerado e é feito principalmente por mulheres nas suas casas, com as suas famílias. Quando se diz que é um trabalho realizado principalmente por mulheres, quer dizer-se que a grande maioria das mulheres, durante o seu ciclo de vida, se dedica a este trabalho de forma parcial ou total.

Existem mulheres que não o executam, trata-se de uma pequena minoria e está claramente associada à classe social – as classes mais elevadas pagam a outras mulheres para realizarem este trabalho ou, pelo menos, uma boa parte dele. É um trabalho completamente invisível, mesmo para a grande maioria das mulheres que o executam, particularmente para aquelas que realizam somente estas actividades, porque não têm noção da importância que este trabalho tem para que a sociedade possa funcionar [3,4,5].

Silvia Federici, uma das autoras que mais se tem dedicado a este tema chama a atenção para a desvalorização deste tipo de trabalho, que é considerado muito pouco criativo e propõe que lhe seja atribuído um novo significado e valor: “Como se pode dizer que produzir a vida das novas gerações, educar, conversar, é menos criativo do que construir uma casa, um carro, uma cadeira, um brinquedo? Por isso é importante para mim dar um novo significado a este trabalho. Creio que deve ser parte da luta.” Esta autora defende ainda que a última fronteira de conquista do capital é o corpo das mulheres e afirma: “Com o desenvolvimento do capitalismo, abre-se uma divisão, que é uma divisão do trabalho, uma divisão sexual do trabalho, entre a produção e a reprodução. Uma divisão entre a produção para o mercado, que se converte em trabalho assalariado, isso sobretudo para os homens, e a reprodução da vida e da força do trabalho, que é um trabalho não assalariado muito desvalorizado, muito naturalizado e são cada vez mais as mulheres que ficam concentradas nesse trabalho” [6].

Como se pode verificar, a luta pela visibilidade e valorização do “trabalho reprodutivo” está na ordem do dia na Europa e só apanhou de surpresa as portuguesas e os portugueses que se encontravam em Lisboa a assinalar o Dia do Trabalhador, que fotografaram a Irene, exibiram a sua foto e a insultaram com os mais variados impropérios. Não deixa de ser curioso que tudo isto tenha acontecido no 1.º de Maio. No dia em que se luta pelos direitos no trabalho verifica-se que ainda há muita gente que não reconhece o trabalho das mulheres – um trabalho invisível, não remunerado e sem direitos absolutamente nenhuns.

Pelo menos, agora este tema encontra-se na agenda e poderá ser debatido abertamente por quem de direito. Está aberta a sessão. Que comecem os trabalhos!

Obrigada, Irene!

 

 

[1] http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/26017/irene-miuda-do-cartaz-feminista-que-abanou-redes-sociais

[2] http://eige.europa.eu/rdc/thesaurus/terms/1352

[3] https://www.ecologistasenaccion.org/?p=13104

[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0213-91112004000400007

[5] https://www.raco.cat/index.php/Papers/article/view/25507/25340

[6] https://www.youtube.com/watch?v=XyG8wGXXTeE

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