À beira d’água

Um longo focinho de jacaré e uma bizarra vela nas costas – assim podemos definir os espinossaurídeos, um dos grupos de dinossauros carnívoros mais conhecidos na cultura popular. Estrelas de filmes como “Jurassic Park III” e “A Era do Gelo III”, o Spinosaurus aegyptiacus – a espécie típica de seu grupo – ganhou destaque desde sua descoberta pelo seu tamanho grande e pela morfologia que o diferenciava facilmente de outros tipos de dinossauros predadores (Figura 1). Descoberto em 1912 pelo paleontólogo alemão Ernest Stromer durante uma expedição no Egito, o Spinosaurus causou sensação por possivelmente rivalizar em tamanho com o Tyrannosaurus rex. Outros espinossaurídeos começaram a ser descobertos pelo mundo, inclusive aqui no Brasil (onde temos três espécies válidas). Infelizmente, o registro fóssil de espinossaurídeos ainda é bastante incompleto se comparado com outros terópodes, havendo muitas dúvidas quanto a sua morfologia peculiar e o quanto esta refletia seus hábitos de vida. Essa situação piorou depois que o holótipo do Spinosaurus, que estava depositado no museu de Munique, foi destruído durante os bombardeios na Segunda Guerra Mundial.

 

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Spinosaurus (maior) e seus “primos” espinossaurídeos. Dinossauros que possuem uma morfologia geral bem típica e de fácil reconhecimento – mas o quanto isso seria reflexo de seus hábitos de vida? Imagem: Vitor Silva.

 

Porém, num artigo publicado recentemente, uma equipe formada de paleontólogos brasileiros e europeus, ao avaliarem uma tíbia incompleta, trouxeram algumas informações interessantes sobre essa misteriosa família de dinossauros. O fóssil, proveniente da Bacia do Araripe (nordeste do Brasil), apesar de incompleto nos ajuda a entender uma história evolutiva interessante sobre os espinossaurídeos sul-americanos. Utilizando-se de técnicas como a tomografia computadorizada e de cortes paleohistológicos, foi possível observar que a parede óssea era mais espessa do que em outros dinossauros carnívoros, sendo uma região óssea chamada cavidade medular se encontrava preenchida parcialmente por osso (Figura 2). Isso significa que o osso engrossou, deixando pouquíssimo espaço em seu interior – uma característica que é encontrada em animais que voltaram a viver em águas rasas, como os peixes-boi e ornitorrincos. Ou seja, essa maior densidade óssea ajudava esse espinossaurídeo a submergir e impedia o animal de ficar flutuando na superfície quando não estivesse tentando mergulhar. Esse aumento da densidade óssea ecoa a suspeita de um estilo de vida semi-aquático ou mesmo totalmente aquático.

 

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Vistas e análise transversal do fóssil da tíbia incompleta de espinossaurídeo brasileiro. Imagem retirada do artigo de Aureliano et al. (2018).

 

Paralelamente à essa pesquisa, uma outra equipe de paleontólogos encontrou evidências que podem corroborar com essa hipótese. Quando esses pesquisadores compararam a composição isotópica do cálcio presente no esmalte dos dentes de espinossaurídeos africanos, eles conseguiram rastrear que esse grupo particular de dinossauros se alimentava quase que exclusivamente de peixes. Digo quase exclusivamente, pois em 2004, um dente de um espinossaurídeo desconhecido foi encontrado preso numa vértebra de pterossauro, o que sugere uma relação predador-presa, ainda que o réptil voador possa ter sido uma presa incomum de seu predador. De toda forma, os demais registros indicam que os espinossaurídeos deviam se alimentar de peixes, o que implica que provavelmente estes animais deviam ficar boa parte do tempo submersos na água – ou ao menos, saibam pescar muito bem!

O mais interessante, porém, é que o fóssil brasileiro é pelo menos dez milhões de anos mais antigo que o Spinosaurus e seus conterrâneos africanos. Isso significa que a afinidade com a natação pode ter corrido muito mais previamente na evolução da família do que o observado anteriormente… (Figura 3). Uma outra novidade sobre esse fóssil é seu tamanho. A equipe responsável pela pesquisa estimou prováveis 10m, através da comparação com outros indivíduos mais completos. Isso torna esse elemento ósseo como um representante de um dos maiores espinossauros encontrados na América do Sul – e curiosamente, a paleohistologia também indicou que este indivíduo era um subadulto, ou seja, o animal não estava totalmente maduro no momento da sua morte, por isso poderia ter crescido ainda mais se tivesse vivido mais tempo.

 

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Um espinossaurídeo busca por comida, enquanto nada em seu ambiente, onde prefere atacar um pterossauro. Imagem de Julio Lacerda, retirada do artigo de Aureliano et al. (2018).

 

Infelizmente, por ser um único osso, não é possível atribuir com certeza a uma espécie em particular – porém, a boa notícia é que na Bacia do Araripe existem duas espécies de espinossaurídeos, o Irritator challengeri e o Angaturama limai. Apesar de ambas espécies terem apenas elementos do crânio conhecidos, muito provavelmente essa tíbia pertence a alguma dessas duas espécies. Pelo menos até que seja evidenciada que existe uma terceira espécie de espinossaurídeo para o Araripe… Por fim, esse osso, ainda que incompleto, nos ajudou a entender um pouco melhor a história de vida dos espinossaurídeos. Futuramente, quando novos fósseis mais completos desses dinossauros forem estudados, podemos enfim um dia conhecermos melhor sua família.

Para saber mais:

Aureliano, T., Ghilardi, A.M., Buck, P.V., Fabbri, M., Samathi, A., Delcourt, R., Fernandes, M.A., Sander, M., Semi-aquatic adaptations in a spinosaur from the Lower Cretaceous of Brazil, Cretaceous Research (2018), doi:10.1016/j.cretres.2018.04.024.

Hassler, J. E. Martin, R. Amiot, T. Tacail, F. Arnaud Godet, R. Allain, V. Balter. Calcium isotopes offer clues on resource partitioning among Cretaceous predatory dinosaurs, Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences (2018). DOI: 10.1098/rspb.2018.0197

Buffetaut, E.; Martill, D.; Escuillié, F. Pterosaurs as part of a spinosaur diet. Nature (2004). 430 (6995): 33. Bibcode:2004Natur.429…33B. doi:10.1038/430033a. PMID 15229562.

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