O homem grávido

Nesse último domingo, dia das mães, diversas imagens e vídeos foram compartilhados entre as diversas formas de mídias. Até aí nada de para surpreender, certo? O que me chamou a atenção foi como muitas dessas supostas homenagens eram na realidade propagação de uma normalização (e com quê de heroísmo) da extrema dedicação da mãe ao filho. Ficou bastante claro, que nós como sociedade esperamos que as mães tenham uma dedicação ao trabalho de cuidar sem limites. Que seja normal que ela se coloque em segundo plano, que se desumanize, que tenha condições de vida/trabalho que não seriam aceitas em relação a nenhum outro trabalho. Contudo, deveríamos estar nos perguntando: “estamos sendo justos com as mães?”.

 

ALERTA o cuidado, da maneira que está sendo propagado, injustamente como um fardo único da mulher é na realidade fruto do machismo.

 

Parte deste discurso baseia-se no senso comum de que a mulher irá desenvolver rapidamente uma conexão com a/o filha/o devido ao fato de levar o bebê dentro de si, pois a gestação permite que a mulher vivencie transformações no próprio corpo e que sinta o bebê se mexendo. Dessa forma, acreditamos que a capacidade de gerar, que nos humanos é uma característica exclusiva das fêmeas, as torne as únicas passíveis de mudanças hormonais durante a gravidez.

Isso apenas alimenta o mito de que o cuidar é algo “natural” à mulher e não para o homem.

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Contudo, pesquisas vêm demonstrando que a história não é bem assim. Dois estudos mostraram que homens que se encontram engajados na gravidez, ou seja, que participam e se envolvem, também apresentam mudanças hormonais, como a queda dos níveis de testosterona e estradiol. Os homens que tiveram os maiores declínios em testosterona durante a gestação da companheira se tornaram pais mais dedicados aos cuidados do infante após este nascer, sendo inclusive mais afetuosos.

Já os níveis de progesterona e cortisol são equiparados com os da mãe: se os níveis hormonais da mãe sobem, os do pai sobem também, se os níveis hormonais da mãe diminuem os do pai também diminuem. Apesar dos níveis desses hormônios não serem em números absolutos iguais entre o pai e a mãe, essa flutuação em harmonia indica que as experiências, tanto excitante quanto assustadora da gravidez, são vivenciadas igualmente pelo casal.

Essas mudanças hormonais nos futuros papais não se dão devido a uma gestação interna, obviamente. Elas são, na realidade, uma resposta à relação do casal. Isso mostra que a biologia do homem também responde aos estímulos da gravidez se este encontrar-se em uma relação íntima, de cumplicidade e em que é um suporte social da mulher.

Nossos comportamentos são flexíveis, ou seja, respondem ao nosso ambiente de forma muito eficiente; seja este ambiente físico ou social. Assim, podemos dizer que o ser humano é um animal biologicamente cultural. Se a sociedade em que você se encontra inserido suporta a ideia de um pai presente, espera-se que os homens desta sociedade respondam adequadamente aos estímulos do ambiente-social, podendo ocorrer mudanças fisiológicas que os levem a se comportar da melhor maneira para a vida nesta sociedade, neste caso: mudanças hormonais durante a gravidez da parceira. Agora, se na sociedade em que o homem encontra-se inserido, a estratégia de reprodução mais vantajosa não é o investimento paternal, então não se espera que se crie o laço afetivo com a mãe e consequentemente não haveria as mudanças hormonais acima citadas.

Veja, a melhor estratégia reprodutiva não é, como também difundido erroneamente pelo senso comum, deixar a maior quantidade de filhos, mas a maior quantidade de filhos que consigam sobreviver e se reproduzir. Assim, se em determinada condição, por exemplo, a nossa atual onde o investimento emocional e financeiro para que seu filho seja bem sucedido nessa sociedade é alto, espera se que a estratégia evolutiva mais eficiente para esta sociedade seja a de criar laços e permanecer.

É importante pararmos de perpetuar más interpretações sobre o comportamento humano, principalmente aquelas que possam ser usadas como pseudo-justificativas para comportamentos que não são (ou não deveriam) ser bem vistos na nossa sociedade. Somos flexíveis. Respondemos ao nosso ambiente. Inclusive ao ambiente social.

Se tanto, homens quanto mulheres podem sofrer variações fisiológicas que os preparam para o cuidado parental, continuaremos a dizer que esse é um cargo da mulher? Continuaremos a elogiar o pai que “ajuda” a mãe e esperar que as mães se sacrifiquem pela criação dos filhos? Talvez o que nos reste seja nos pergunta; e agora (que não temos a desculpa do “natural”):

o que vamos ensinar aos nossas filhas e filhos?

 

Para saber mais:
Edelstein, R.S. et al. (2017). Prospective and dyadic association between expectant parents’ prenatal hormone changes and postpartum parenting outcomes. Dev. Psychobiol.

 

Edelstein, RS. Et al. (2014). Prenatal hormones in first-time expectant parents: Longitudinal changes and within-couple correlation. American Journal of Human Biology

 

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