Canabinóides na Doença de Parkinson

No ano de 2017 se falou muito, aqui no Brasil, da legalização da Maconha medicinal (Cannabis sativa). A reportagem publicada no site do UOL, entitulada Maconha medicinal no Brasil? traz um panorama geral dos avanços nessa área, e é bem legal para você se contextualizar no assunto.

Pacientes com epilepsia grave receberam autorização, no Brasil, por meio judicial, para o consumo em 2014, como divulgado em nota oficial da Academia Brasileira de Neurologia.

Porém os seus benefícios também são estudados para a Doença de Parkinson e outras disfunções motoras.  Foi liberada, no Brasil, em 2017, a venda do Mevatyl, fármaco a base de canabidiol  e THC , com efeitos sobre os sintomas motores, testado na esclerose múltipla. No entanto, mesmo com a dispensação da receita pelo médico, o fármaco não é comercializado na maioria das farmácias. Não houve grande interesse das farmácias, ainda, em comercializar o fármaco devido ao pequeno número de clientes e ao alto custo do fármaco, que segundo pesquisa realizada pela Folha  custa cerca de R$3000,00.

A Doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo, que destrói terminações dopaminérgicas da substância nigra do cérebro, e leva a perda progressiva do controle dos movimentos. O tratamento do Parkinson, apesar de bem estabelecido, não impede o avanço dos sintomas, mas sim desacelera os mesmos. A perda de qualidade de vida no Parkinson é progressiva. Em outros textos aqui do blog, você pode ler mais sobre a Doença de Parkinson, como formas de tratamento no texto “A terapia de estimulação cerebral profunda e a Doença de Parkinson”  e formas de estimular o paciente, como em “Os benefícios do Pilates: reabilitação e pacientes com Parkinson”. Os pacientes com Parkinson avançado sofrem muitas debilitações, além de insônia e depressão, e podem se beneficiar também do uso da Cannabis.

sinais-parkinson

Quando os cientistas descobriram que haviam receptores canabinóides no nosso cérebro, isso levantou uma pergunta, no mínimo curiosa: por que temos receptores para maconha no nosso cérebro? Bom, surgiu daí a teoria de que existiriam canabinóides endógenos, que ainda são pouco conhecidos. Os principais endocanabinóides identificados são aracdoniletanolamida (AEA), também conhecida como anandamida; e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG).
Os gânglios basais no cérebro são uma região de alta concentração de receptores canabinóides, receptores CB1, e em menor quantidade CB2, concentrados principalmente no globo pálido e na substância nigra. A ligação dos canabinóides à esses receptores tem efeito sobre o controle dos movimentos. Estudos experimentais sugerem que os efeitos adversos do uso da Levodopa, fármaco de escolha no tratamento do Parkinson, surgem por deficiência de canabinóides endógenos, sendo que o fornecimento de canabinóides exógenos pode melhorar os sintomas de discinesia. A discinesia é um distúrbio da atividade motora que leva a um constante balancear do corpo.

Ensaios clínicos com agonistas dos receptores CB1 demonstram a capacidade de proteção das células dopaminérgicas, diminuição do tremor e melhora dos movimentos voluntários, além da redução da discinesia e da rigidez muscular, em humanos e primatas (Mursaleen e Stamford, 2015). Um estudo conduzido em Israel, publicado em dezembro de 2017 por Yacov Balash e colaboradores, relatou que 40 pacientes foram tratados com maconha medicinal (fumada) e demonstraram: diminuição das quedas dos pacientes, diminuição da dor, melhora dos movimentos e melhora do sono. No entanto, quase 60% desses pacientes tiveram efeitos adversos. Os efeitos adversos foram relacionados, principalmente, aos efeitos alucinógenos da erva, sugerindo ser necessária uma melhor adequação do composto derivado da maconha a ser utilizado.

Maconha_cerebro.jpg

Imagem disponível em: http://especiais.correio24horas.com.br/filadacannabis/portfolio-item/nacabecaativa/

O estado de São Paulo tomou a frente nas pesquisas no Brasil e tem publicado resultados importantes que tem colaborado para que os pacientes ganhem acesso aos medicamentos derivados da maconha. O departamento de toxicologia da Universidade Federal de Ribeirão Preto – São Paulo, estudou o canabidiol, constituinte não psico-ativo (não dá barato) da maconha, e evidenciou efeitos neuroprotetores da substância, devido à sua capacidade de cruzar a barreira hemato-encefálica e suas propriedades anti-inflamatórias e oxidantes. Células tratadas com os canabinóides apresentaram menor taxa de morte celular, e no modelo de Parkinson, menor perda, específica de células dopaminérgicas (Santos e cols., 2015). Outro estudo desenvolvido pela USP, um ensaio clínico duplo cego randomizado com grupo controle placebo, testou extratos de canabidiol com 75mg e 300mg, cada grupo com 7 pacientes, e encontrou associação do uso dos canabinóides com a melhora da qualidade de vida dos pacientes (Chagas e cols.,2014).
Em 2014, a Academia Americana de Neurologia (AAN) publicou uma meta-análise (grande conjunto de estudos científicos) de estudos com canabinóides em pacientes com Parkinson, e apesar de considerar controversos os dados sobre aspectos motores, a Academia reconhece os benefícios sobre o sono, dor e qualidade de vida dos pacientes. Mais recentemente, diversos trabalhos foram publicados com o uso específico do canabidiol na melhora dos movimentos e da discinesia no Parkinson (Bruck e cols., 2014).

A prescrição de derivados da Cannabis foi permitida em 2014 para médicos de São Paulo, após estudos efetivos de universidades da região, permitindo a sua importação, e em 2017, a planta foi incluída como medicinal na farmacopeia reconhecida pela ANVISA. No entanto, esse uso tem sido restrito a pacientes com epilepsia grave e esclerose múltipla. Apesar dos avanços, os dados sobre o uso de canabinóides no Parkinson são inconclusivos e insuficientes. Diante do potencial do uso da maconha medicinal no Parkinson, é muito importante o investimento em ensaios clínicos de alto nível de evidência científica para que se possa comprovar os benefícios da maconha medicinal.

Referências:

Mursaleen LR, Stamford JA. Drugs of abuse and Parkison’s disease. Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry, 2015.

Santos NAG, Martins NM, Sisti FM, Fernandes LS, Ferreira RS, Queiroz RHC, e cols. The neuroprotection of cannabidiol against MPP+-induced toxicity in PC12 cells involves trkA receptors, upregulation of axonal and synaptic proteins, neuritogeneses, and might be relevant to Parkinson’s disease. Toxicology in Vitro, v.30, p.231-40, 2015.

Chagas MH, Zuardi AW, Tumas V, Pena-Pereira MA, Sobreira ET, Bergamaschi MM, e cols. Effects osf cannabidiol in the treatment patients with Parkinson’s disease: An exploratory double-blind trial. Journal of Psychopharmacology, 2014.

Bruck S, Frota NA, Schestatsky P, Souza AH, Carvalho VN, Manreza MLG, e cols. Cannabinoids in neurology – Brazilian Academy of Neurology. Arq. Neuropsiquiatria, v.73, n.4, p:371-4, 2015.

Balash Y. e cols. Medical Cannabis in Parkinson Disease: Real-Life Patients’ Experience. Clinical Neuropharmacology • Volume 40, Number 6, November/December 2017

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