Vamos falar de raça e classe na ciência?

Com mais frequência do que gostaríamos, ser mulher e fazer pesquisa não é tarefa fácil. Ser mulher, fazer pesquisa e chegar a posições de alta patente no meio acadêmico, então, só faz adicionar alguns níveis de desafio ao jogo.

A culpa é do chamado “teto de vidro” – ou uma barreira invisível que atrasa e impossibilita o progresso de mulheres não apenas em carreiras acadêmicas, mas também nos negócios e em outras áreas. A falta de políticas específicas que permitam ter filhos e continuar progredindo na carreira* e o sexismo implícito em se conferir mais competência a homens do que a mulheres para assumir cargos de liderança são algumas das muitas variáveis na manutenção desse teto de vidro. A conversa vai muito além do senso comum de que “existem poucas mulheres” em áreas das ciências, tecnologias, matemática e engenharias (STEM, na sigla em inglês).

Mas quando se é mulher, negra, pobre e cientista, o buraco é bem mais embaixo. E o teto de vidro, muito mais acima.

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Lançado no início dos anos 1980, o livro “Mulheres, Raça e Classe”, obra clássica da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, traz aspectos importantes sobre a construção do movimento de liberação feminina nos Estados Unidos desde a escravatura – sempre aliada a concepções de raça e classe social, já que “ser mulher” nunca é uma categoria isolada. Como Davis mostrou bastante bem através de análises e numerosas histórias fortes e chocantes no livro, as variáveis “raça” e “classe” têm uma enorme influência no resultado de qualquer equação que comece com “gênero”, e não apenas pelo ponto de vista do abismo entre se ser “mulher+branca+rica” versus ser “mulher+negra+pobre”. Ser mulher, branca e pobre também é diferente de ser mulher, negra e rica – algumas camadas de preconceito se mantém, outras se silenciam, a maioria raramente desaparece.

Passar um marca-texto sobre “raça” e “classe” como subcategorias em “gênero”, no entanto, não quer dizer que mulheres com diferentes situações de privilégio ou preconceito deveriam se opor, ou que a luta de umas é mais importante que a de outras (embora algumas lutas possam, sim, ser mais urgentes que outras, o que não quer necessariamente dizer que sejam mais importantes). É preciso que todo mundo entenda e respeite as necessidades de quem está em lugares e momentos diferentes na escala do preconceito para que seja possível que todas as mulheres nos unamos contra o que nos oprime. Empatia é um combustível poderoso, afinal.

E daí?

Não podemos negar que o tal teto de vidro na academia parece ter um revestimento especial, ainda mais difícil de quebrar, quando se fala em mulheres negras e pobres adentrando (e se destacando em) carreiras científicas. Sem mencionar o fato de que, por todos os lados, as oportunidades para homens e mulheres não são as mesmas e a diferença entre média salarial ainda é de se chorar de tristeza (e raiva, obviamente).

Segundo o Fórum Econômico Mundial, se continuarmos no passo em que estamos, será necessário esperar 170 (!) anos para que o mundo atinja a paridade salarial entre gêneros. Por aqui, é vergonhoso que as brasileiras em média ganhem quase 25% a menos que os brasileiros, mesmo tendo passado mais tempo na escola. O que mais assusta é que mulheres negras com curso superior ganhem em média quase metade do salário de homens brancos com o mesmo grau de instrução (as mulheres brancas ganham também absurdos 40% a menos). Esperar 170 anos por paridade salarial seria um horizonte de expectativa otimista para as brasileiras, para dizer o mínimo. Mais ainda para as negras.

É verdade que o acesso da população negra brasileira ao ensino superior praticamente dobrou na última década em decorrência de cotas e outras políticas de ação afirmativa. Em 2005, a juventude negra e parda somava 5,5% do contingente de estudantes no ensino superior. Em 2015, já eram 12,8%. Entre jovens brancos entre 18 e 24 anos, a porcentagem também cresceu: passou de 17,8% em 2005 para 26,5% em 2015, segundo o IBGE. O quadro melhorou, mas o fosso continua.

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Olhando mais de perto

Dois estudos de caso de 2008 e 2009 mostram que para jovens negras e pardas o desafio é se manter nesta magra porcentagem do alunado em instituições públicas e privadas. No estudo de 2008, João Bôsco Góis, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, traz alguns dados observados na instituição (que não devem ter mudado substancialmente desde que o artigo foi publicado). A presença de estudantes negras nos cursos de maior status era estatisticamente residual. Com números chocantes. Segundo Góis, 60,9% do alunado do curso de Medicina era mulher – delas, ínfimos 1,53% eram negras e 16,9% eram pardas. Em Direito, 77,5% dos alunos eram mulheres – 3,2 negras e 16% pardas. Nas Engenharias, o professor aponta que há uma inversão em termos de gênero: apenas 24,8% dos alunos eram mulheres – desse total, 2,4% eram negras e 17,4%, pardas.

E não é só isso: no ano em que a pesquisa aconteceu não havia jovens negras matriculadas nos cursos de Física e Ciência da Computação.

A posse de bolsa para alunas negras também representava um desafio: para as bolsas mais valorizadas, como de monitoria, iniciação científica e extensão, as negras estavam em clara desvantagem: entre as alunas da UFF com posse de bolsa, 3,5% das alunas negras tinham uma bolsa de monitoria, 2,64%, uma de iniciação científica e 0% de extensão, em comparação a 72,3% de brancas que tinham uma bolsa de monitoria, 70,6% com uma de iniciação científica e 66,7% de extensão na universidade.

Por isso Góis defende que os cursos mais valorizados da UFF teriam tido uma “‘democratização de acesso por gênero’ sem seu equivalente racial”. As alunas negras se concentravam mais em cursos considerados de carreira secundária, onde os profissionais “geralmente estão em posição de relativa subordinação nas instituições em que atuam, a exemplo de enfermeiros, fisioterapeutas e assistentes sociais em ambientes hospitalares”, observa o pesquisador.

Não que estas carreiras não tenham função social crucial. As funções do cuidado do outro, aliás, estão entre as que mais serão necessárias em países (como o Brasil) em que a tendência é que a taxa de fertilidade siga em queda. Na quarta revolução industrial, estes profissionais serão mais necessários do que nunca. Mas é uma temeridade que sejam profissões tão pouco reconhecidas – e que isso gere um ciclo vicioso perpetuando a subvaloração da mulher negra, vendo nestes cursos uma possibilidade de inserção no ambiente universitário.

No estudo de 2009, a psicóloga Ana Luiza Julio e a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) Marlene Strey observam os desafios da permanência de alunos e alunas afrodescendentes na PUC-RS. Por lá, a questão também era um desafio para os 280 alunos com quem elas interagiram. A maior questão que elas encontram é a dificuldade de enfrentamento dos inúmeros percalços que surgem pelo fato de se ser o que se é: negro ou negra em uma instituição de ensino superior. A dificuldade em nos reconhecermos racistas como país e o praticarmos no cotidiano pode ser um fator que, segundo as pesquisadoras, atrapalha o reconhecimento de pertencimento racial de muitos alunos, dificultando, assim, a formação de uma consciência política. Essa consciência, elas enfatizam, é essencial para a permanência na universidade e para iniciar a vida profissional, já que ajuda a criar uma visão de si mais complexa e contextualizada. E ajuda a não interiorizar a decepção de não ser selecionada depois de uma entrevista (normalmente a última etapa de um processo de seleção) como uma falha pessoal.

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E então…

Sabemos que a vida das mulheres negras no Brasil nunca foi fácil (possivelmente a de negras em lugar nenhum, diga-se de passagem). E que na academia, as diferenças não se iniciam na graduação – têm raízes mais profundas mas são sentidas mestrado, doutorado e pós-doutorado afora. E claro, nas seleções de alta cúpula das universidades, de institutos de pesquisa e onde quer que se queira fazer pesquisa de alto nível.

Fica difícil renovar os quadros da pesquisa científica e do professorado universitário com mais diversidade se a graduação é pouco diversa. E chega a ser absurda a dificuldade que alunas negras enfrentam para entrar e se manterem em cursos de graduação em áreas científicas – tanto que chega a ser surpreendente que a primeira negra brasileira a ter um título de doutorado em Física (a simpaticíssima Sonia Guimarães) seja atualmente professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e não uma senhora de 90 anos ou uma personagem histórica da ciência brasileira.

Quando se fala em maior acesso de mulheres – e mulheres negras – a carreiras acadêmicas, pode ser bem interessante colocar uma lente e observar quem são estas mulheres e por quais cursos e áreas essa inserção se dá. Entender isso pode ser um passo à frente no que toca ajudar brancas e negras (e amarelas, indígenas, enfim, todo o espectro de tons de pele) a entenderem as lutas e as necessidades umas das outras. E, quem sabe, entender o que é urgente e importante e entrar na briga.

Mais espaço para as mulheres negras nos quadros de prestígio científico e acadêmico não faz mais do que beneficiar toda a sociedade, já que elas são as ‘últimas da fila’ no que toca posições de privilégio. Para trazer de novo Angela Davis à conversa, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”. E da ciência com ele.

—–

*Em dezembro passado, foi sancionada a lei 13.536/2017, que prevê a possibilidade de afastamento remunerado de bolsistas de pesquisa por maternidade ou adoção. A aprovação do projeto de lei representa um avanço imenso, mas ainda serão necessários alguns anos para se verificar seu impacto real nas diversas áreas do conhecimento e no universo da pesquisa acadêmica.

Fontes:

DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016 (1981)

GÓIS, J. B. H. Quando raça conta: um estudo de diferenças entre mulheres brancas e negras no acesso e permanência no ensino superior. Revista Estudos Feministas, 2008. http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n3/02.pdf

JULIO, A. L. S e STREY, M. N. Negros e negras no ensino superior: singularidade para a permanência. Revista África e Africanidades, 2009. http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/Negros_e_Negras_no%20ensino_superior_singularidade_para_permanencia.pdf

HU, J. The Magnifying Glass Ceiling: The Plight of Women in Science. PLoS ECR Community Blog, 2013. http://blogs.plos.org/thestudentblog/2013/08/16/glass-ceiling-women-in-scienc/

Portal de Notícias do Senado. Sancionada lei que dá direito a afastamento por maternidade para bolsistas de pesquisa. Brasília, 18/12/17. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/12/18/sancionada-lei-que-de-afastamento-por-maternidade-para-bolsistas-de-pesquisa

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