Contraceptivos hormonais, trombose e depressão. Quais são os riscos comprovados cientificamente?

Muitas pessoas já viram diversos relatos e notícias na web sobre casos de trombose e depressão sendo associados à utilização de contraceptivos hormonais. Porém, às vezes é difícil entender se realmente esses efeitos são pontuais ou de maiores proporções na população. Além disso, entender toda a relação de causa e efeito com a grande quantidade de fatores ligados a essas doenças é complicado. Por isso, hoje nós trazemos os últimos dados relacionados a esses temas para contribuir com algumas informações.

O lançamento da pílula anticoncepcional hormonal, no início dos anos 60, significou um grande passo para a emancipação da mulher com a opção de decidir quando e quantos filhos gerar. Porém, apesar dessas vantagens, há alguns anos ela passou a ser vista de forma desconfiada pelo público por conta dos seus efeitos colaterais e possíveis riscos de desenvolvimento de doenças.

Os contraceptivos hormonais orais normalmente contém uma combinação de estrogênio e progesterona, ou apenas progesterona, e regulam a fertilidade de forma segura, eficaz e reversível. Desde a regulamentação da primeira pílula, as fórmulas utilizadas foram constantemente modificadas para reduzir os riscos de efeitos cardiovasculares adversos e de tromboembolismo [1].

O tromboembolismo pode ocorrer nas veias ou artérias do corpo e se dá pela coagulação do sangue nesses vasos, podendo ter causas diversas. Esse coágulo, chamado de trombo, pode se aderir na parede dos vasos causando muitos sintomas, constituindo assim a trombose.

coágulo

Figura 1. Ilustração de um coágulo dentro de um vaso saguíneo (Fonte: Ferrerincode)

Grande parte dos estudos em larga escala presentes na literatura até hoje foram realizados na Europa e nos Estados Unidos, isso restringe um pouco a extrapolação dos dados para outros países e populações, como o Brasil, mas ao mesmo tempo nos auxilia com informações fisiológicas importantes relacionadas ao uso desses fármacos.

Esses estudos mostram que a presença do estrogênio chamado de etinilestradiol nas pílulas hormonais é o fator que mais se relaciona com o aumento do risco de desenvolvimento de trombose nas mulheres, comparado aos outros compostos analisados. Em números, mulheres que utilizam esse composto específico na pílula possuem 4 vezes mais chances de riscos de trombose do que não usuárias de contraceptivos hormonais [1, 2].

Um estudo com seis milhões de mulheres francesas mostrou que existe uma correlação entre a dose de etinilestradiol utilizada e os efeitos de embolia pulmonar, AVC e infarto do miocárdio. Ou seja, mulheres que utilizavam menores doses de etinilestradiol eram menos propensas a desenvolverem os efeitos citados, justificando a recomendação de baixas doses do composto nos medicamentos comercializados. Aparentemente o etinilestradiol causa alterações na produção das proteínas do fígado e pode promover ligeiras alterações nas vias relacionadas a coagulação sanguínea, independentemente da via de administração utilizada [2].

Outro estudo, realizado com nove milhões de dinamarquesas que faziam uso de contraceptivos hormonais não orais, mostrou que a taxa de trombose aumentou 7,5 vezes para mulheres que utilizavam adesivos hormonais, 6,5 vezes para mulheres que usavam anéis vaginais e 1,4 para implantes subcutâneos, comparada a mulheres que não faziam uso de contraceptivos hormonais. Entretanto, a taxa de trombose não aumentou para mulheres que utilizavam o dispositivo intra uterino (DIU) hormonal a base de levonorgestrel, que é um tipo de progesterona sintética [3].

anticoncepcionais hormonais

Figura 2. Métodos contraceptivos. 1. Pílula, 2. Implante subcutâneo, 3. Diafragma*, 4. Injeção, 5. Anel vaginal, 6. Adesivo dérmico, 7. DIU hormonal (Fonte: Bruno Marçal/ Saúde Abril, com adaptações). *Não é um método contraceptivo hormonal.

Sobre as relações dos anticoncepcionais com a depressão, sabe-se que os índices de depressão em mulheres são duas vezes maiores do que em homens [4] e diversos estudos tentam entender esses motivos, sendo que os contraceptivos hormonais são constantemente apontados como uma das possíveis causas.

A revisão mais recente sobre o tema foi publicada em janeiro de 2018, com a síntese dos 26 principais trabalhos publicados sobre anticoncepcionais e depressão. Segundo a revisão, os resultados ainda não são conclusivos para afirmar uma associação de anticoncepcionais com a depressão, devido à grande variação entre as conclusões encontradas nos estudos, o tamanho das populações analisadas, a validação e randomização dos dados [5].

Sabemos que a ciência, que até pouco tempo atrás era majoritariamente realizada por homens, tende a negligenciar alguns assuntos de importância extrema para a saúde da mulher. Hoje, milhões de mulheres utilizam anticoncepcionais hormonais no mundo. Nesse sentido, mais estudos são necessários para entender todas as relações entre os contraceptivos hormonais e a saúde das mulheres. Por fim, é importante lembrar que para decidir sobre o uso de qualquer medicamento é necessário sempre consultar um profissional de saúde que deve basear-se no histórico, idade, condições de saúde de cada mulher para prescrever o melhor contraceptivo.

Para saber mais:

A Organização Mundial da Saúde fez uma cartilha que auxilia os profissionais de saúde a selecionarem apropriadamente o melhor método contraceptivo para cada mulher de acordo com cada estágio da vida reprodutiva e condições de risco. E aqui, no Cientistas Feministas, existem dois ótimos textos sobre contraceptivos hormonais para homens e sobre depressão. Vale a pena conferir.

 

Referências:

  1. Heit, J.A., Spencer, F.A., White, R.H. The epidemiology of venous thromboembolism. J Thromb Thrombolysis, 41, 3–14, 2016.
  2. Sitruk-Ware, R. Hormonal contraception and thrombosis. Fertility and Sterility, 106(6), 1289-1294, 2016.
  3. Lidegaard, O., Nielsen, L.H., Skovlund, C.W., Løkkegaard, E. Venous thrombosis in users of non-oral hormonal contraception: follow-up study, Denmark 2001-10. BJM, 344, e2990, 2012.
  4. Skovlund, C.W., Mørch, L.S., Kessing, L.V., Lidegaard, Ø. Association of Hormonal Contraception With Depression. JAMA Psychiatry. 73(11), 1154-1162, 2016.
  5. Worly, B.L., Gur, T.L., Schaffir, J. The relationship between progestin hormonal contraception and depression: a systematic review. Contraception. S0010-7824(18)30032-5, 2018.
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