“É claro que a vida é boa…Mas acontece que eu sou triste* ”: Como nosso corpo funciona durante a depressão.

Todo mundo já teve ou conhece alguém que teve uma experiência com ela: a depressão. Esse mal que pode atingir qualquer um, sem aviso nem piedade, já acomete mais de 300 milhões de pessoas e mata 800 mil pessoas por ano no mundo todo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que em Portugal, por exemplo, na ocasião da maior crise político-econômica do país, em 2011, o número de casos de depressão disparou (1). Alguns especialistas acreditam que a atual crise brasileira possa, num futuro próximo, causar um aumento expressivo dos números dos casos desta doença aqui no Brasil (2).

O diagnóstico da depressão está sempre envolto pela nevoa da doença mental e esse é um dos principais motivos da falha do tratamento: o paciente quer um remédio, mas não quer fazer a psicoterapia. Mas o quão eficazes são os antidepressivos? Como uma doença que não se mede por exames de sangue ou de imagem pode ser tratada farmacologicamente? Antes de falarmos como a doença é controlada, vamos voltar um pouco e comparar como funciona o corpo de uma pessoa saudável com uma com depressão.

Recentemente falamos aqui no blog sobre como a microbiota intestinal interfere no comportamento das pessoas. Um dos fatores que controla essa relação é a serotonina. Esta pequena notável é um neurotransmissor, ou seja, uma substância que atua no cérebro regulando funções como ciclo sono-vigília, humor, memória, entre outras atividades. Apesar de ser essencial no cérebro, 95% de sua produção acontece no intestino, daí a relação microbiota e comportamento. Depois de sua produção no intestino, a serotonina entra na corrente sanguínea e circula até alcançar receptores na membrana do neurônio onde ela, juntamente com a noradrenalina, pode desempenhar suas funções. Caso exista serotonina não utilizada pelos neurônios, ela é recaptada por moléculas transportadoras e degradadas para posterior eliminação. Quando esse sistema funciona, temos uma pessoa saudável.

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No entanto, fatores genéticos, biológicos e/ou psicossociais podem desregular esse sistema e levar a quadros de alteração comportamental, incluindo a depressão (4). Ora, se a falha pode acontecer em vários lugares (ao mesmo tempo ou não) e os médicos não sabem onde é o defeito, como os antidepressivos funcionam?

Pois é, antidepressivo não é um assunto trivial. Imagine todas as questões éticas envolvidas em testar um medicamento para uma doença que pode levar a morte. A primeira geração de antidepressivos foi identificada por acaso na década de 1950 quando médicos observaram que alguns anti-histamínicos causavam alterações de humor. Com o aumento do conhecimento do sistema serotoninérgico, a segunda geração foi especialmente sintetizada para “encaixar” nas moléculas recaptadoras e inibi-las, deixando a serotonina disponível para atuar nos neurônios (inibidores de recaptação de serotonina, ou SSRI, do inglês “selective serotonin reuptake inhibitors”)(3). Entretanto, apesar de amplamente utilizados, não existe um consenso na comunidade médica sobre a eficácia dos antidepressivos. Entre as várias razões para o descrédito dessa classe de medicamento está a condução de estudos com poucos pacientes, somente um ou dois medicamentos são comparados por vez, e existe um alto índice de abandono do tratamento já que antidepressivos demoram a fazer efeito.

Para tentar esclarecer se os antidepressivos são, afinal de contas, eficazes, vários grupos de pesquisadores de diversas universidades da Europa, Estados Unidos e Japão, lançaram mão de uma ferramenta simples, mas muito eficaz. Os autores, ao invés de submeter pacientes a testes, revisitaram toda a literatura médico-científica que fala sobre o tratamento com os 21 antidepressivos mais utilizados. Os autores identificaram quase 30 mil publicações sobre o assunto e puderam comparar os dados de pouco mais de 87 mil pacientes. Caso esses mesmos pesquisadores tivessem feito os estudos de eficácia, nunca teriam tantos pacientes! A partir das análises desses dados, os autores verificaram que todos os antidepressivos eram mais eficazes quando comparados com o grupo placebo. No entanto, 5 antidepressivos se destacaram pois eram os que tinham menor taxa de abandono de tratamento e maior eficácia quando comparado aos outros 16 estudados. Entre os 5 que se destacaram, havia 4 de segunda geração e 1 de terceira geração (que inibe a recaptação da serotonina e de noradrenalina). Além disso, eles observaram que fatores como a idade influenciam na eficácia do medicamento: medicamentos eficazes em adultos não reproduziam o mesmo efeito em crianças e adolescentes.

Esse estudo traz segurança à comunidade médica na hora do atendimento ao paciente, mas a depressão deve ser encarada de forma mais ampla. A própria OMS preparou um plano de ação até 2020 onde recomenda acolhimento dos doentes, mas, principalmente, preza pela prevenção. Realização de atividades físicas regularmente, investimento em autoconhecimento e inserção de práticas diárias que tragam bem estar são exercícios que não só previnem o aparecimento da depressão como devem ser usados junto do tratamento com antidepressivo. E como fala um dos vídeos educativos da OMS, “não tenha vergonha de pedir ajuda, tenha vergonha de não aproveitar a vida”.

http://www.who.int/mental_health/management/depression/en/

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