Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

“A Revolução será feminista, ou não será! Construí-la é tarefa de todas nós. Vamos a isto!” Foi com esta provocação que Patrícia Martins deu por encerrado o primeiro encontro de mulheres [1] realizado no Porto, em Portugal, nos últimos 10 e 11 de Março. Esta iniciativa que teve lugar na Escola Artística Soares dos Reis, centrou-se em três eixos temáticos: mulheres e precariedade, mulheres e violência e mulheres invisibilizadas.

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Manifesto do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Pelas 12 mesas redondas e 7 oficinas passaram 200 pessoas, sendo que 95% foram mulheres, mas nem assim os homens foram descurados, uma vez que lhes foram dedicadas “orientações feministas para participantes que se identificam como homens”. Assinadas pelo Diogo Araújo e pelo Filipe Barbosa, estas orientações iniciavam-se com o seguinte alerta: “Dado que o espaço exterior ao Encontro de Mulheres, tanto público como privado, é maioritariamente dominado por pessoas que se identificam como homens, o do Encontro de Mulheres é gerido por pessoas que se identificam como Mulheres e os espaços de discussão destinados à participação das Mulheres” e terminavam com a seguinte convocatória: “Dá a tua vez a quem não tem voz!”

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Mesas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Para sabermos a quem foi dada voz, falamos com Patrícia Martins e Ana Barbosa, duas das organizadoras do evento. Ana Barbosa esclareceu-nos que foi, na realidade, “a vontade de reunir diferentes vozes que levou à dinamização de reuniões em Braga, Bragança, Chaves, Coimbra, Lisboa e Vila Real onde convidamos as pessoas a juntarem-se à organização, desafiando-as a organizarem-se localmente para a divulgação, preparação e participação no Encontro. Deste esforço resultou a presença de participantes de outras cidades, para além das que tinham sido abordadas, como Barcelos, Esmoriz e Guimarães.”

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Oficinas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

E clarifica que “o Encontro de Mulheres partiu da vontade de mudar uma sociedade em que as mulheres ocupam espaços de sub-representação em várias áreas, desde a participação política, à esfera familiar, às decisões sobre os seus corpos e sexualidade, ao direito ao espaço público. Essa sub-representação é agravada quando as mulheres experienciam outras formas de opressão como a cor de pele, estatuto social e económico, orientação sexual não normativa, religião… O diagnóstico da falta de espaços onde haja discussão que reconheça essas opressões e em que exista um acesso igual à palavra, levou-nos a procurar alternativas de contexto para que as mulheres se sentissem capacitadas para a elaboração e resolução das suas próprias questões, apresentando livremente as suas opiniões e propostas.” Foi neste ambiente que circularam as já mencionadas 200 pessoas, “com uma média de idades de 26 anos”, informa-nos a Ana Barbosa e, continua: “Os homens presentes foram, sobretudo, voluntários nas tarefas de logística do evento permitindo assim uma maior disponibilidade das mulheres para participar nas mesas de debate.”

 

 

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Feira Feminista no Encontro – Todas as Vozes Contam

Foi ainda Patrícia Martins que elogiou a experiência horizontal dos debates explicando que: “O modelo do I Encontro de Mulheres 2018 foi pensado a partir das experiências dos Encontros de Mulheres da América Latina. Desse modo, pretendeu-se diluir as fronteiras de audiência/público e quem transmite conhecimento: a possibilidade das participantes construírem o debate a partir do tema que enquadra a mesa redonda e das pistas dadas pelas moderadoras. Procurou-se ter a presença de duas moderadoras no debate para a moderação não ficar centrada numa só pessoa, e possibilitar um espaço mais democrático. O feedback geral deste método revelou-se bastante pertinente: primeiro, a maioria das moderadoras comentou que no início havia alguma dificuldade das mulheres partilharem opiniões, experiências e ideias, mas quando o nível de participação começou a aumentar, houve uma grande participação e vontade de comunicar ( chegando a comentar que o tempo não era suficiente). Esta experiência reforça a ideia da necessidade de espaços que fomentam a participação e emancipação das mulheres. Para o trabalho de moderação foram recolhidas algumas técnicas de moderação de conversas e debates e divulgadas junto das moderadoras. Isto foi apenas uma experiência, pretendemos aprofundar este trabalho de moderação, no sentido horizontal da participação”.

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Recepção no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Ana Barbosa assumiu que o evento superou as expectativas que possuía, uma vez que “as 12 mesas redondas e as 7 oficinas foram muito participadas por intervenientes com diversidade de idades, estatuto social e nacionalidades (participantes de 10 países diferentes) e consequente pluralidade de opiniões e experiências.” E assegura que “ outro dos objectivos bem sucedidos deste primeiro Encontro foi a autogestão da iniciativa, sem qualquer tipo de financiamento ou patrocínio, procurou-se uma responsabilização colectiva para a recolha de fundos e doações, tendo sido dinamizadas várias actividades, entre elas o lançamento de uma campanha de crowdfunding. A nível local também houve iniciativas de recolha de verbas que serviram para o apoio aos transportes das participantes”.

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Encerramento do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Patrícia Martins refere que a organização deste Encontro está, neste momento, a analisar profundamente as anotações de todas as relatoras das várias mesas e oficinas mas que pode adiantar que o que se conclui deste Encontro é que: “A sociedade actual estrutura-se segundo sistemas de opressão e discriminação que se articulam entre si. Deste modo podemos concluir que todas estas formas de opressão e exclusão das mulheres na sua diversidade racial, étnica, sexual ou de origem de classe prende-se com uma questão estrutural. As opressões não estão isoladas, não são caso pontuais, estão todas interligadas. Desta forma, a nossa resposta também não deve ser isolada, ou individual. Tem que ser colectiva, interseccional, de combate à precariedade, à exclusão e ao racismo.” E termina, tendo em mente vários desafios: “A nossa preocupação agora é como a partir das sínteses conclusivas deste Encontro podemos construir uma Greve de Mulheres 2019 e o 2º Encontro de Mulheres a partir de uma perspectiva mais estrutural das opressões e de maior representatividade das diferentes agendas.”

[1] https://www.facebook.com/encontromulheres.pt/

 

 

 

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