A biologia da aprendizagem

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Fonte: http://www.corujaloira.com/2015/04/18/10-dicas-para-estudar-no-feriado/

Eu adoro estudar. Procuro sempre estar aprendendo algo novo, mesmo que eu não precise saber necessariamente aquele assunto. Quando você se dispõe a aprender algo, na maioria das vezes, será sobre um assunto que você gosta. Eu adoro biologia, literatura, história e vários outros assuntos, mas eu odeio tenho extrema dificuldade em aprender línguas. O problema é que eu preciso fazer um teste de proficiência esse ano e, querendo ou não, eu tenho que aprender de verdade a falar, escrever, escutar e ler em outra língua. Foi nesse cenário que eu comecei a pensar em quais estratégias eu poderia utilizar para tornar meu aprendizado mais eficiente e menos doloroso, por assim dizer. Nesse momento eu fui estudar. Estudei e achei respostas tão interessantes que resolvi trazer algumas das coisas que a ciência diz sobre o aprendizado e compartilhar com vocês. Vamos lá!

Começando pelo início

Bem simplificadamente, quando aprendemos algo novo, essa informação chega em primeira mão a um determinado grupo de neurônios. Esses neurônios então passam essa informação adiante através de impulsos elétricos e impulsos químicos. Esse ato de “passar a informação adiante” possibilita a formação de novas conexões. Cada informação nova é recebida, processada e analisada.

Cada organismo é um universo particular, então o recebimento de informações, os impulsos gerados, as conexões formadas são dependentes de uma série de fatores como aprendizagem anterior, existência de algum tipo de lesão, desbalanço químico, entre outros. Isso significa que não adianta você seguir todas as dicas que os cientistas dão para querer aprender neurociência em um dia se você não lembra nem das aulas de biologia. Ou ainda se você estiver sob forte estresse ou muito triste ou ansiosa(o). Primeiro você precisa resolver isso porque as emoções vão influenciar como e em que velocidade você aprende.

Primeira dica: Faça exercícios!

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Fonte: http://blogeducacaofisica.com.br/beneficios-do-exercicio-fisico

Diversos estudos sugerem que fazer exercícios aumenta a capacidade de aprendizado. Uma das relações existentes entre exercícios e aumento de aprendizagem é relacionada ao hipocampo. O hipocampo é uma estrutura localizada em ambos os hemisférios cerebrais que possui diversas funções em relação à consolidação da memória e aprendizagem. Praticar exercícios aumenta a formação de novos neurônios no hipocampo (neurogênese), aumenta a “força das sinapses” nessa região (em inglês: Long term potentiation – LTP) e aumenta também a concentração de substâncias neuroprotetoras e antioxidantes que vão proteger o hipocampo de danos.

Além de afetar o hipocampo, praticar exercícios aumenta a autoestima (pelo menos em crianças e adolescentes em idade escolar). Uma melhor imagem de si mesmo faz com que você se sinta mais feliz, menos ansiosa(o) e menos estressada(o). Certamente você estará mais disposta(o) a aprender quando estiver se sentindo bem. Recentemente, um estudo de pesquisadores norte americanos, mostrou que a corrida, especificamente, tem efeitos positivos na memória, mesmo se a pessoa estiver passando por algum tipo de estresse. Segundo esse estudo, a corrida elimina o efeito maléfico do estresse na memória.

Dica número 2: Alimente-se bem!

Muita gente já deve ter ouvido falar sobre o efeito positivo de uma planta chamada Ginkgo biloba na memória. Diversos estudos suportam essa ideia, mas a pergunta que fica é o que o G. biloba tem que pode afetar o nosso cérebro? A resposta é: ele tem flavonoides.

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Fonte: http://www.aiuro.it/benessere/ginkgo-biloba-pianta-proprieta-controindicazioni-e-benefici.html

Flavonoides também podem ser encontrados em grandes quantidades em uva, chá preto, chá verde, cacau e mirtilo. O que eles fazem? Até algum tempo atrás se achava que o potencial benéfico dos flavonoides era devido ao seu poder antioxidante. Atualmente já sabemos que esse potencial vai muito além. Flavonoides podem proteger neurônios vulneráveis, aumentar a função neuronal e estimular a regeneração neuronal. Eles também protegem os neurônios contra danos causados por doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Como os flavonoides podem ajudar em todos esses problemas? Especula-se que eles possam modular cascatas de sinalização intracelular que controlam sobrevivência, morte e diferenciação neuronal. Por exemplo, um estudo de 2007 de um grupo francês mostrou, após 10 anos de acompanhamento, que um maior consumo de flavonoides diminui as chances de sofrer com doenças neurodegenerativas e aumenta a capacidade cognitiva. Alguns estudos também mostram que um tipo especial de flavonoides, as isoflavonas, encontradas na soja, por exemplo, podem melhorar as capacidades cognitivas e memórias de mulheres na menopausa.

Resumindo, a ingestão de flavonoides não vai modificar seu cérebro de um dia para o outro e pode não funcionar se a sua intenção é memorizar todo o conteúdo do semestre para uma prova na semana que vem, mas certamente protege seu cérebro contra possíveis problemas no futuro e pode potencializar aos poucos sua capacidade cognitiva e de memória.

Dica número 3: Relaxe!

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Fonte: http://selmasanttos.blogspot.com.br

Eu sei, essa é uma dica que pode ser muito difícil de ser seguida. Com a vida corrida, milhares de coisas pra fazer, trabalho acumulado, chefe pressionando, artigo para escrever, análises para entregar o mestrado atrasadas, e muitas outras tarefas, relaxar pode parecer impossível. Mas acredite, a ciência diz que todas essas tarefas podem parecer mais fáceis se você tirar um tempo para desestressar. Uma revisão de 2016 compilou  uma série de dados que mostram que estresse crônico está associado com a degeneração estrutural e o mau funcionamento do hipocampo e do córtex pré-frontal. Nós já falamos que o hipocampo está relacionado com a consolidação da memória e a aprendizagem. Já o córtex pré-frontal está envolvido em uma série de funções como tomada de decisões, resoluções de problemas complexos, planejamento, atenção e memória. A boa notícia é que os problemas no cérebro causados pelo estresse não são permanentes. Segundo uma das autoras do estudo, uma professora do departamento de psiquiatria geriátrica da Universidade de Toronto, antidepressivos e exercícios (olha eles aí novamente) podem atuar revertendo a degeneração e o mau funcionamento dessas estruturas cerebrais.

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Fonte: http://www.bcslogic.com/time-to-relax/

Dica número 4: Durma bem!

Dormir é tudo de bom. Uma boa noite de sono pode resolver muitos problemas, pode te dar novas ideias, pode te fazer relaxar, enfim, só coisa boa. E aquela velha lenda de que podemos aprender algo enquanto dormimos é verdade? Bom, sim e não. Calma que eu já te explico.

Primeiro o “não”. Se você está pensando naquela cena de filme em que uma pessoa coloca uma fita pra tocar sobre algo que ela quer aprender, vai dormir e no dia seguinte acorda expert naquele assunto saiba que isso só acontece nos filmes mesmo. Até hoje não há estudos mostrando que isso seja possível.

Agora o “sim”. Se você considerar que enquanto dormimos, nossa mente se reorganiza e trabalha para formar e consolidar memórias, então de certa maneira, nós aprendemos enquanto dormimos. Um estudo de 2017, feito por cientistas da Alemanha e Suíça, mostrou que algumas áreas do cérebro ficam extremamente ativas enquanto dormimos. Uma estrutura em particular interessou bastante os cientistas: os dendritos. Os dendritos são prolongamentos dos neurônios responsáveis pela recepção dos estímulos nervosos tanto do ambiente, quanto de outros neurônios e na transmissão desses estímulos para o corpo da célula. Os cientistas viram que há alta atividade dendrítica em certos momentos do sono que são importantes na formação e consolidação de memórias. Além disso, os cientistas também puderam ter uma ideia de como estimular esses dendritos em pessoas com dificuldades de aprendizado e memória.

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Fonte: http://tudosobrecachorros.com.br

Concluindo…

Existem várias estratégias para você aprender mais e melhor. Aqui é importante lembrar que cada indivíduo é único e que algumas táticas funcionam melhor para uma pessoa que para outra. O importante é não se desesperar (olha o estresse aí). Quando você estiver estudando aquele assunto difícil que não entra na sua cabeça de jeito nenhum, pare. Reveja o que você está fazendo, como você está (estressada(o)? Com sono? Com fome?), tente bolar uma estratégia diferente, siga algumas das dicas do texto e não desista. Você certamente é capaz.

 

Referências:

Trudeau F and Shephard R J. Physical education, school physical activity, school sports and academic performance. International Journal of Behavioral, Nutrition and Physical Activity, 2008; 5: 10.

Roxanne M. Miller, David Marriott, Jacob Trotter, Tyler Hammond, Dane Lyman, Timothy Call, Bethany Walker, Nathanael Christensen, Deson Haynie, Zoie Badura, Morgan Homan, Jeffrey G. Edwards. Running exercise mitigates the negative consequences of chronic stress on dorsal hippocampal long-term potentiation in male mice. Neurobiology of Learning and Memory, 2018; 149: 28

Spencer J P E. Food for thought: the role of dietary flavonoids in enhancing human memory, learning and neuro-cognitive performance. Proceedings of the Nutrition Society, 2008; 67: 238.

Letenneur L, Proust-Lima C, Le Gouge A, Dartigues J F, and Barberger-Gateau P. Flavonoid Intake and Cognitive Decline over a 10-Year Period. American Journal of Epidemiology, 2007; 165 (12): 1364.

Linda Mah, Claudia Szabuniewicz, Alexandra J. Fiocco. Can anxiety damage the brain? Current Opinion in Psychiatry, 2016; 29 (1): 56

Julie Seibt, Clément J. Richard, Johanna Sigl-Glöckner, Naoya Takahashi, David I. Kaplan, Guy Doron, Denis de Limoges, Christina Bocklisch, Matthew E. Larkum. Cortical dendritic activity correlates with spindle-rich oscillations during sleep in rodents. Nature Communications, 2017; 8 (1).

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