Carrapatos em âmbar: será que teremos um Jurassic Park?

Um dos grandes fascínios da humanidade são os Dinossauros, ainda mais depois da série de filmes Jurassic Park. Mas quem se lembra bem do filme está atento a um pequeno detalhe: o mosquito preservado em âmbar, cujo sangue continha material genético utilizado para criar os dinossauros.  

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Mosquito no Âmbar de Jurassic Park. Fonte: Daily Mail

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Pulga identificada em peça de âmbar. Fonte: cnet.com

De fato, fósseis de ectoparasitos¹ e artrópodes hematófagos já foram encontrados: ovos de piolhos presos aos pelos em um âmbar, e pulgas preservadas junto aos pelos de mamíferos, ambos datados do período Mioceno [1]. Porém, mais difícil ainda é encontrar algum traço de sangue nestes fósseis. A ciência que estuda estes parasitos é denominada Paleoparasitologia e é considerada uma das subáreas tanto da Paleontologia, como Arqueologia e Parasitologia. Na Paleoparasitologia estuda-se os parasitos em material antigo, que pode ser tanto de origem humana quanto animal.

Recentemente um grupo de pesquisadores de diferentes instituições espanholas, americanas e britânicas encontraram peças de âmbar datado do período Cretáceo. O especial destas peças é o seu interior: a presença de espécimes de carrapatos de 99 milhões de anos (Ma²). A partir de sua análise foi descrita uma nova espécie de carrapato extinta, Deinocroton draculi. E também identificada outra espécie já descrita em 2003: Cornupalpatum burmanicum.

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Peças de âmbar analisadas no estudo. Fonte: National Geographic

 Além da descrição de uma nova espécie, um dos espécimes encontrados estava associado a uma pena de dinossauro. Aí, você leitor, deve se perguntar: como se sabe que era de dinossauro e não de uma ave? Grupos de aves foram excluídos como possíveis hospedeiros devido ao seu surgimento há 73 Ma, antes das penas encontradas neste âmbar. As análises morfológicas relacionadas à pena e sua datação indicam que o seu dono era possivelmente do grupo Pennaraptora, um ancestral das aves modernas. Porém, é difícil saber exatamente qual espécie, com os poucos dados encontrados.

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Carrapato associado a pena de dinossauro. Fonte: Nature Communications

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Carrapato ingurgitado. Fonte: Nature Communications

Foi também identificado um carrapato ingurgitado (cheio de sangue) no pedaço de âmbar, o primeiro aproximadamente 8.5 vezes maior que o seu volume corporal. O ingurgitamento também ocorre com carrapatos fêmeas atuais, podendo atingir até 100 vezes o seu volume original. Essas evidências indicam que carrapatos se alimentavam do sangue de dinossauros durante o Cretáceo Inferior. Devido à presença de fósseis de grupos relacionados a mosquitos (dípteros) e a pulgas, questiona-se se estes artrópodes seriam vetores de patógenos de dinossauros, e o achado dos carrapatos ingurgitados reforça  esta hipótese. Hoje em dia, carrapatos são vetores de microrganismos de pássaros, mamíferos e répteis e possivelmente, estes carrapatos transmitiam estes organismos aos antepassados destes vertebrados.

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Carrapatos machos não ingurgitados. Fonte: Nature Communications

Carrapatos são ectoparasitos que possuem poucos exemplares fósseis, o que dificulta muito o entendimento de sua história evolutiva e relação parasito-hospedeiros. Sabe-se que as estratégias para o desenvolvimento da hematofagia e surgimento das adaptações de ectoparasitos surgiram no período Mesozoico. Estas adaptações se estendem para os carrapatos e são condizentes com os achados deste estudo, que mostra que a relação dos carrapatos com seus hospedeiros data de pelo menos 99 milhões de anos.

Infelizmente, os pesquisadores deste estudo ainda não conseguiram a extração de material genético destes parasitos tão antigos, já que até onde se sabe, o limite para se recuperá-lo é de 1 milhão e meio de anos (depois dos dinossauros, diga-se de passagem). Acho que Jurassic Park vai ter que esperar mais um pouco… e ainda bem né?

 

  1. Parasitos que ocorrem no exterior do hospedeiro: carrapatos, piolhos e pulgas.
  2. Ma- Milhões de anos.

Referências:

[1] Peñalver, Enrique, et al. “Ticks parasitised feathered dinosaurs as revealed by Cretaceous amber assemblages.” Nature communications 8.1 (2017): 1924.

[2] National Geographic:   

<https://news.nationalgeographic.com/2017/12/tick-dinosaur-feather-found-in-amber-blood-parastites-science/>

[3] Poinar, G. O. & Brown, A. E. A new genus of hard ticks in Cretaceous Burmese amber (Acari: Ixodida: Ixodidae). Syst. Parasitol. 54, 199–205 (2003)

 

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