Ahed Tamimi e o silêncio das organizações feministas ocidentais

Com apenas oito anos de idade começou a participar em manifestações, em Nabi Saleh, localidade da Cisjordânia onde reside com a sua família, contestando o apartheid e a colonização de que a sua terra é alvo por parte de Israel. Em 2011 viu morrer um tio a tiro às mãos dos militares israelitas e em 2012 enfrentou um grupo de soldados que tinham prendido um dos seus irmãos e recebeu um prémio do então Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan pela coragem demonstrada ao enfrentar os soldados israelitas. Em Maio do ano passado foi acusada de tentar impedir soldados de prenderem um manifestante que lhes atirava pedras. Não, não falamos da Malala da Palestina nem da Joana d’Arc palestiniana como é conhecida nalguma imprensa. O seu verdadeiro nome é Ahed Nariman Tamimi, é palestiniana, de facto, tem 17 anos e sonha formar-se em Direito para ajudar os activistas a criar um Estado Palestiniano.

ISRAEL-PALESTINIAN-CONFLICT-TAMIMI

Ahed Tamimi, Foto:Middle East Eye.

Apelidá-la de Malala e de Joana d’Arc é já retirar-lhe uma parte da sua identidade da Outra diferente – a árabe que luta contra os “únicos democratas e civilizados do Médio Oriente” e atribuir-lhe características das identidades destas duas heroínas, com as quais nos identificamos, que são muito mais “as nossas” heroínas, porque se aproximam do Eu semelhante, igual a nós. A Ahed Tamimi é a Ahed Tamimi, não é a Malala nem a Joana d’Arc e talvez estas três adolescentes partilhem apenas entre si, a juventude e a coragem. Nunca sentimos necessidade de comparar a Joana d’Arc a ninguém, nem a Malala, que de repente aparece associada à Joana d’Arc, depois do caso da Ahed ser explorado pelos activistas dos direitos humanos. Isto significa, tão só e simplesmente, que necessitamos destes truques das comparações com alguém que legitimámos como nosso para humanizar a Ahed, para a ver como uma adolescente igual às “nossas”, porque ela não o é, é a Outra diferente. E as organizações feministas ocidentais ficam em silêncio!

Pelo mundo inteiro replicam-se por parte de activistas, nas redes sociais, mensagens de repúdio à prisão de Ahed Tamimi que se encontra detida desde o dia 19 de Dezembro do ano passado em prisões israelitas. O seu crime foi ter esbofeteado um soldado israelita, armado até aos dentes, que se encontrava no território da sua residência e que tinha atingido um seu primo com um tiro de borracha à queima roupa na cara (deixando-o em coma induzido durante três dias) durante um protesto contra a decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. O soldado israelita adulto que mandou o seu primo para o hospital está livre e solto, enquanto ela, uma adolescente de 17 anos, se encontra presa há dois meses e será julgada por um tribunal militar por agressão agravada a um militar israelita, obstruir a sua acção, perturbação da ordem pública e incitamento à violência. E as organizações feministas ocidentais nada dizem.

PHOTO-FILE

Ahed Tamimi rodeada por soldados israelitas, foto: Photo-File

As circunstâncias da sua prisão e o abuso dos direitos humanos de que foi alvo são atrozes: é uma menor que não tem acesso aos seus pais, nem a um advogado, no imediato. Por sua vez, levantam-se as vozes de líderes e jornalistas israelitas exigindo a sua prisão perpétua e até insinuando que ela deveria ser violada num quarto escuro para pagar pelos seus crimes [1]. E as organizações feministas ocidentais continuam em silêncio e o movimento #metoo não reconhece a voz da adolescente palestiniana.

Ahed Tamimi com a sua cabeça bem levantada e o olhar muito directo e frontal, sem demonstrar medo, enfrenta o opressor desafiando consciências. Ela recusa submeter-se à lógica israelita de que os palestinos devem viver como eles querem que vivam, sem protestar e se não quiserem viver assim, devem partir. Mas, Ahed Tamimi quer ficar nas suas terras e por isso desafia-os e luta contra o roubo dos seus recursos e liberdades, e mesmo assim não surgem por parte das organizações feministas ocidentais hashtags como #IamAhed ou #JesuisAhed.

Não existem perspectivas de que Ahed obtenha justiça. Ahed Tamimi não é a primeira criança a ser presa. Estima-se que, desde o ano de 2000 foram detidos na Cisjordânia cerca de 10 000 crianças e adolescentes, incluindo crianças de seis e sete anos, sem consequências [2]. Israel não responde perante ninguém. Tem o grande apoio dos Estados Unidos da América e os outros países mantêm-se como observadores silenciosos. E os grupos feministas ocidentais também.

As organizações feministas ocidentais são acusadas de racistas e islamofóbicas por não se pronunciarem sobre a prisão de Ahed Tamimi e de outras adolescentes e mulheres palestinianas [3] e nem assim quebram o silêncio!

E, este silêncio não se percebe e é difícil de aceitar. O feminismo é um movimento de emancipação que emergiu da tomada de consciência da opressão vivenciada pelas mulheres. Este movimento só tem sentido se estiver empenhado com a equidade e justiça social de todos os seres humanos e com a luta para eliminar todas as formas de violência e opressão. Desta forma, uma das grandes batalhas do feminismo é dar voz às mulheres e a todos os subalternos, particularmente àqueles que se encontram sob a alçada de um poder colonial que os constituem sempre como os “outros” diferentes e inferiores. Nenhuma pessoa ou grupo social se pode apropriar legitimamente do rótulo “feminista” sem se comprometer com estes princípios. [4]

Por tudo isto, a luta pela liberdade de Ahed Tamimi e de todas as adolescentes de qualquer recanto do globo terrestre é uma luta feminista!

 

[1] http://mondoweiss.net/2017/12/should-israeli-journalist/

[2] http://observatorio3setor.org.br/noticias/criancas-palestinas-estao-sendo-presas-e-condenadas-em-israel/

[3] https://medium.com/@TonyGreenstein/feminist-silence-over-ahed-tamimi-exposes-the-racist-consensus-at-the-heart-of-western-feminism-8413ea14be23

[4] Ferreira, Helena (2017). “Sou feminista e apoio o BDS”. Folhas Soltas N. 8, pp. 16-18. http://grupoaccaopalestina.blogspot.pt/2017/09/folhas-soltas-n8.html

 

 

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