Caudas perigosas

Que a defesa é o melhor ataque, como diz o provérbio, todos já sabemos. E na natureza, essa regra é levada a sério, especialmente quando falamos em uma corrida armamentista natural. Tanto nos dias de hoje, como no passado, diversos animais desenvolveram formas muito peculiares para se defender de seus possíveis inimigos. Um dos locais mais vulneráveis dos corpos dos animais – a cauda – ao contrário do que é esperado, não é onde encontramos a maioria das adaptações para a defesa. Quem não se lembra dos espinhos mortais no Stegosaurus – astro de alguns filmes e desenhos animados sobre dinossauros – ou a clava no não-tão-famoso, o Ankylosaurus (Figura 1)? Até mesmo alguns saurópodes desenvolveram algo parecido com a clava dos Ankylosaurus, porém aparentemente isso só surgiu apenas em duas espécies desse grupo.

figura 1

Figura 1. Diferentes tipos de dinossauros e suas caudas modificadas em armas para defesa. A) Ankylosaurus e sua cauda em clava; B) Shunosaurus com um “porrete” na cauda e C) Miragaia, um parente do Stegosaurus, mostrando a cauda repleta de espinhos. Imagem por Mohamad Haghani.

Mas o grande mistério permanece: por que não vemos estruturas parecidas como essas nos animais viventes? Em um estudo que abrange 300 milhões de anos de história evolutiva, duas pesquisadoras, Victoria Arbor da Universidade Estadual da Carolina do Norte e Lindsay Zanno, do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte sugerem uma resposta interessante. Segundo as autoras, são necessários quatro componentes: maior tamanho corporal, presença de uma armadura (ainda que sutil), e… rigidez torácica!

Para desenvolver o trabalho, as autoras analisaram um conjunto de dados com 286 espécies, entre elas dinossauros, mamíferos e outros vertebrados. Dentre as amostras, foram levantadas espécies vivas e extintas, para avaliar se havia algum tipo de direcionamento na evolução de três tipos específicos de armas na cauda (espigões ou espinhos ósseos, um rabo rígido ou um espessamento ósseo na ponta da cauda, veja Figura 2).

As autoras descrevem no artigo que clavas, porretes e espinhos nas caudas só são encontrados em poucos animais extintos – como os dinossauros já ditos anteriormente, mas também em algumas tartarugas fósseis e em gliptodontes (parentes distantes dos tatus). Apesar de todos esses exemplos serem de espécies já extintas, as autoras também levantam um ponto: se o aparecimento de defesas nas caudas está relacionado ao tamanho corporal, por que outras espécies de dinossauros também não desenvolveram algo semelhante em suas caudas? E mais ainda: quando as autoras observaram o registro fóssil, perceberam que na verdade a maior parte dos armamentos estão localizadas na cabeça. Isso leva a outro questionamento: se a cabeça é alvo preferencial de predadores, por que a evolução não favoreceu mais animais com caudas armadas, ao invés de criar algo que chama mais atenção para a cabeça?

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Figura 2. Existem três tipos principais de artigos de defesa na cauda: clavas, espinhos e enrijecimento caudal. Todos eles são ligados a quatro parâmetros descritos pelas autoras. Imagem adaptada de Arbour & Zanno, 2018.

Como possíveis respostas às essas perguntas, as autoras perceberam que todos os animais amostrados tinham quatro características em comum. Primeiro, eles eram geralmente grandes, pesando mais de 200 quilos – ou seja, animais pequenos não estão propensos a desenvolver esse tipo de defesa. Em segundo lugar, seria o aparecimento de algum tipo de armadura. Antigas espécies de tartarugas, gliptodontes e dinossauros blindados estavam cobertos com algum tipo de carapaça dura. E essa resposta já nos leva a um terceiro ponto: a rigidez torácica. Essa rigidez se deve a presença da própria armadura, já que se seu corpo possui uma cobertura óssea, ele não irá se dobrar lado a lado facilmente. A rigidez, em particular, levou as paleontólogas a pensar que essa falta de mobilidade lateral ajudou a neutralizar as forças necessárias para balançar uma cauda mais pesada.

O último ponto já se referia a algo interessante: somente animais herbívoros desenvolveram esse mecanismo. Esse último ponto, entretanto, não era uma novidade, visto que tanto Darwin (1871) quanto outros autores (exemplo, Emile, 2008) já haviam percebido que a maior parte dos animais que desenvolvem alguma estrutura de defesa são animais herbívoros, de modo a terem uma proteção mais ofensiva contra os seus predadores. A novidade das autoras, então, foi associar a herbivoria aos demais componentes (tamanho corporal, presença de algum tipo de armadura e rigidez torácica) para favorecer o surgimento de estruturas de defesa nas caudas, bem como de observar que todas essas estruturas, apesar de terem uma mesma função defensiva, possuíam duma diversidade de comportamentos associados a elas (Figura 3). Outros resultados mostraram que a maioria das defesas nas caudas consiste na modificação e fusão de osteodermos, enquanto raras são as vezes que estruturas completamente novas (como as clavas dos anquilossauros ou do Shunosaurus) são criadas, todas elas gerando uma diversidade de blindagens.

figura 3

Figura 3. Os tipos de defesas encontradas nas caudas dos animais estudados e seus possíveis comportamentos associados. Imagem adaptada de Arbour & Zanno, 2018.

As autoras percebem que o armamento nas caudas é raro nos animais existentes pela combinação de fatores também não ser algo muito frequente na fauna de hoje – já as explicações do que porquê isso não acontece ainda não são conhecidas e aguardam por novos estudos. Mas claro que, por essa combinação de quatro componentes já foi um tanto raro no passado, é de certa forma esperado que também não fosse muito comum nos dias de hoje. Por fim, as autoras concluem que essas correlações ecológicas e morfológicas sugerem que os quatro parâmetros identificados por elas influenciam a evolução de distintos comportamentos, bem como suas possíveis consequências em desenvolvimentos de estruturas morfológicas para evitar predadores.

Referências:

ARBOUR, V.M.; ZANNO, L.E. 2018. The evolution of tail weaponization in amniotes. Proceedings of The Royal Society B 285: 20172299.

DARWIN, C. 1871 The descent of man, and selection in relation to sex, vol. 2. London, UK: John Murray.

EMLE, N.D.J. 2008. The evolution of animal weapons. Annu. Rev. Ecol. Evol. S. 39, 387–413. (doi:10.1146/annurev.ecolsys.39.110707.173502)

 

 

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