Relação alimentos e doença: uma questão de escolha individual ou ambiental?

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Fonte: http://www.reacaosaudavel.com.br/como-escolher-melhor-os-alimentos-no-supermercado/

 

A obesidade e as doenças crônicas são consideradas as principais causas de morbidade e mortes prematuras da população mundial. Por apresentarem causa multifatorial, o combate a essas condições é o principal desafio atual, sendo de extrema importância abordar os múltiplos fatores e níveis envolvidos no desenvolvimento dessas doenças. Recentemente tem se discutido muito a relação causal entre essas condições e a publicidade, e a maior disponibilidade de alimentos considerados menos saudáveis, enquanto muitos setores alegam ser uma questão apenas de escolha individual. Neste sentido, cresce o interesse em se aplicar um tipo de intervenção multinível e multicompartimental para responder a perguntas como: como os mecanismos biológicos são afetados por diferentes características do ambiente construído, social ou econômicamente, para produzir uma determinada distribuição de alimentos no ambiente ? Como essas condições permitem ou restringem a alimentação, e como essas condições  são incorporadas nos sistemas biológicos para afetar esses comportamentos?(1)

Considerando essas questões, pesquisadores americanos avaliaram o impacto de uma intervenção comunitária multinível (operando em diferentes condições do ambiente alimentar) e multicomponente (atuando em diferentes níveis de distribuição de alimentos). A comunidade escolhida foi uma área de baixa renda da cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, tendo como público principal as crianças. A intervenção consistiu na promoção e venda de alimentos mais saudáveis , de forma a aumentar o acesso e demanda desses alimentos. Foram incluídos na intervenção os mercados atacadistas, lojas de conveniência e mercados locais, centros de recreação e domicílios. Para selecionar os domicílios avaliados, foram convidados adultos cuidadores de crianças nos centros de recreação e frequentadores dos estabelecimentos comerciais da região selecionada(2).

No nível do atacadista, os gerentes foram convidados a armazenar produtos mais saudáveis, como grãos integrais, frutas e vegetais e lanches e bebidas com baixo teor de gordura e baixo teor de açúcar.  A maioria dos alimentos promovidos e das bebidas selecionadas estavam disponíveis durante todo o ano. Em lojas de conveniência e mercados menores, os proprietários foram incentivados a armazenar e/ou preparar alimentos usando itens mais saudáveis sugeridos pelo estudo. Os produtos foram promovidos nas lojas através de cartazes, etiquetas de prateleiras e sinalização. Além disso, os clientes foram expostos a esses novos produtos durante as sessões educacionais interativas conduzidas pelos pesquisadores nas lojas. Os clientes provaram amostras de alimentos, receberam folhetos educacionais, brindes e informações detalhando os benefícios para a saúde de cada item de comida ou bebida. Paralelamente, nas mídias sociais, materiais educativos e receitas foram disponibilizados e reforçados por meio de postagens e mensagens de texto enviadas para os cuidadores adultos. Nos centros de recreação, líderes juvenis (estudantes da faculdade de Baltimore e do ensino médio) ensinaram lições em tópicos de nutrição e aulas de culinária para crianças com idade entre 10 e 14 anos(2).

Para analisar  os resultados, os pesquisadores compararam os locais com e sem intervenção. Os autores do estudo observaram que houve aumento da venda dos produtos promovidos no comércio atacadista e maior disponibilidade desses produtos nos mercados menores, em especial em relação a bebidas e lanches. As crianças que foram expostas aos alimentos mais saudáveis aumentaram seu consumo significativamente, apesar do mesmo não ter sido observado em seus cuidadores. Assim, concluíram que a intervenção foi bem sucedida para modificar o ambiente alimentar (2).

Apesar de trazer algumas limitações, essa pesquisa merece destaque por ser pioneira no setor de distribuição de alimentos, mostrando o impacto das mudanças no sistema alimentar(2). Mais estudos com foco em outros itens alimentares e outros públicos serão necessários, bem como avaliar a resposta dessas mudanças por maior tempo e também nas variáveis de saúde. O campo é promissor, uma vez que estudos em escolas utilizando o mesmo modelo multinível mostraram haver redução do peso da população estudada(3-5). A mensagem que fica é que é preciso envolver crianças e suas famílias, escolas, líderes empresariais, profissionais de saúde, atores políticos e organizadores da comunidade para garantir melhor qualidade de vida e prevenir os problemas de saúde. Não basta apenas escolher – precisamos ter opções para fazermos melhores escolhas.

 

  1. Huang TT, Drewnowski A, Kumanyika SK, Glass TA. A Systems-Oriented Multilevel Framework for Addressing Obesity in the 21st Century. Preventing Chronic Disease. 2009;6(3):A82.
  2. Gittelsohn J, Trude AC, Poirier L, et al. The Impact of a Multi-Level Multi-Component Childhood Obesity Prevention Intervention on Healthy Food Availability, Sales, and Purchasing in a Low-Income Urban Area. Powell L, ed. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2017;14(11):1371. doi:10.3390/ijerph14111371.
  3. Economos CD., Hyatt RR., Must A, Goldberg JP, Kuder J, Naumova EN, Collins JJ, Nelson ME. Shape up somerville two-year results: A community-based environmental change intervention sustains weight reduction in children. Med. 2013;57:322–327. doi: 10.1016/j.ypmed.2013.06.001.
  4. Shin A., Surkan P.J., Coutinho A.J., Suratkar S.R., Campbell R.K., Rowan M., Sharma S., Dennisuk LA, Karlsen M, Gass A, et al. Impact of baltimore healthy eating zones: An environmental intervention to improve diet among African American youth. Health Educ. 2015;42:97–105. doi: 10.1177/1090198115571362.
  5. Foster GD, Sherman S, Borradaile KE, Grundy KM, vander Veur SS, Nachmani J, Karpyn A, Kumanyika S, Shults J. A policy-based school
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2 comentários sobre “Relação alimentos e doença: uma questão de escolha individual ou ambiental?

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