O Carnaval está chegando! Vamos falar sobre mulheres na ciência e no carnaval?

Texto escrito em colaboração com @agaiadm

“Ó abre alas que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar”! Viemos aqui falar sobre carnaval, mulher e ciência. Pedimos licença e abrimos espaço citando a primeira marchinha feita na história, no século XIX, pela musicista carioca e preta Chiquinha Gonzaga, uma mulher que fez a diferença na música popular brasileira e trouxe representatividade e poder a qualquer mulher que quer conquistar seu lugar de fala e respeito numa sociedade machista.

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Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – Imagem de Edinha Diniz, 2009.[1]

Como sabemos, o carnaval vem chegando aí e nada como curtir esses dias de liberdade, calor e manifestação cultural compreendendo de onde vem essa festa e refletindo sobre a relação de nós mulheres com a ciência, a cultura e tudo o mais que nós quisermos nos relacionar! Sim, o carnaval é um manifesto a favor da liberdade. E a história está aí para nos contar como as mulheres se relacionam com essa tal liberdade em diversos contextos diferentes. O que nunca mudou no carnaval é que temos uma festa onde podemos sair pelas ruas trazendo à tona nossas fantasias, podendo ser desde deusas a animais selvagens ou seres fantásticos.

Lá no início…

O carnaval teve como inspiração momentos de festividade desde a Grécia antiga e foi adaptado aos moldes da igreja católica como um ritual festivo de preparação à quaresma até a páscoa. Bom, até aí nada de novo. Mas como será que as mulheres eram vistas, levando em consideração as épocas, as classes sociais e a cor, nos primeiros carnavais do Brasil? Por que hoje somos tão objetificadas, principalmente nesse período do ano?

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Representação de jogos do entrudo no Rio de Janeiro, na pintura de Augustus Earle (1822)

A primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso país foi o Entrudo, no século XVI, que era um conjunto de brincadeiras típicas das aldeias da Península Ibérica ligado a práticas socioculturais da Europa pré-cristã. Os Entrudos resumiam-se em três dias de festas que antecediam a quaresma. Era o único momento do ano em que as mulheres sentiam uma liberdade parecida com a dos homens, diferente dos outros 362 dias, onde elas se resguardavam à espera de um casamento. Durante esses três dias, as mulheres podiam sair pelas ruas sem ser reconhecidas, brincavam com quem quisessem e demonstravam interesse por aquele crush que jamais soubera de seus sentimentos. Estamos falando, é claro, das mulheres brancas. Já as mulheres pretas, ainda escravizadas, em épocas de Entrudos tinham muito trabalho a fazer. Eram elas que preparavam os brinquedos e as fantasias, por exemplo. Podiam, sim, participar de brincadeiras durante esses dias, mas tinham a responsabilidade pela produção da festa. A hierarquia social era demonstrada nas festividades e a alegria, marca do carnaval, não era (é!) para todos.[3]

O carnaval foi sofrendo influências políticas, sociais e econômicas até ter a estrutura atual, que começou a ser lapidada no início do século XX, com a expansão urbana e a criação de novos bairros nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As novas ruas largas foram os palcos escolhidos pela burguesia para apresentar seus desfiles carnavalescos, onde suas filhas desfilavam em ricas fantasias em cima de carros alegóricos, a fim de esbanjarem suas riquezas e quiçá servirem como catálogos para moços ricos escolherem com quem casar. Nesse momento, o Rio de Janeiro tinha uma grande população preta escravizada, em desigualdade social bem evidente, e que trazia outro carnaval às ruas. Da pequena África, região onde morava grande parte dos pretos baianos, surgiram as tias, mulheres emblemáticas conhecidas por acolher os que precisassem de lar e pelos seus saberes e agrupamentos em corporações de trabalho, como fabricação de doces, salgados e costura e aluguel de roupas carnavalescas. As tias foram espécies de mediadoras culturais e ficavam entre as distintas classes sociais, pois eram muito procuradas pelos burgueses da zona sul que encomendavam roupas de carnaval e acabavam ficando em suas casas para os sambas. Aliás, foi na Pedra do Sal, localizada na pequena África, na presença das tias, que o samba nasceu, levando identidade e pertencimento a muitos cantos do país. [4]

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Tia Ciata (1854 – 1924), exemplo das tias baianas na cidade do Rio de Janeiro. (fonte pinterest).[2]

Hoje em dia, o que vemos do carnaval é um grande comércio carnavalesco de desfiles, onde as mulheres são apresentadas não mais a burgueses, mas ao mundo pela mídia, a fim de potencializar o turismo na cidade. Essa exposição, dentro de uma cultura que respira patriarcado e que não vê o corpo da mulher com respeito, acabou contribuindo bastante para a objetificação da mulher brasileira. O carnaval de rua, representado pelos blocos de bairro, também nos traz histórias que mostram que o machismo está enraizado em diversas atitudes. Não é a toa que governos, empresas e sites jornalísticos têm divulgado o Ligue 180 para que mulheres tenham em mente esse canal em casos de assédio durante a folia. Atualmente, muitas mulheres têm reivindicado o direito por seus corpos, sexualidade e vontades. Quem dita as regras somos nós! O que dá gana de lutar pela equidade de gênero e nossos direitos é ver diversos blocos nascendo do feminismo, idealizado por minas engajadas e com fome de conquistas.

A discussão sobre gênero incomoda, mas temos que fazê-la

Essa pequena história do carnaval brasileiro traz as mulheres em diversas posições sociais, porém é perceptível o quanto o machismo está atrelado em nossos caminhos e escolhas. Lugar de mulher é onde ela quiser, seja no carnaval, na arte ou na ciência. Ainda assim, as notícias não enganam: é difícil ser mulher no mundo, em qualquer contexto social. A gente lê manchetes, dados e estatísticas e se assusta, não entende, busca um porquê para ser desse jeito. Os sustos vêm de todos os lados. Pode vir no título de uma matéria de jornal de 2016: “Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901” (El país). Em 2017, nada mudou: os homens – todos brancos, vale destacar – levaram todos os prêmios do Nobel. Pode vir num número que representa a realidade nua e crua de muitas brasileiras: a taxa de feminicídio (o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) no Brasil, segundo levantamento da organização Artigo 19, é a quinta maior do mundo. Ou, então, pode vir de um lado que a gente não viu, em forma de agressão física, simplesmente porque dissemos não a alguma pessoa que claramente não soube respeitar o nosso direito de se divertir no carnaval.

Mulher na ciência, mulher vítima de assassinato no Brasil, mulher no carnaval… são mundos distintos, nós reconhecemos. Todos eles poderiam ser contextualizados de forma individualizada, mas há, no pano de fundo que os sustenta, um novelinho de lã que costura essas narrativas. No Brasil, ou em outras partes do mundo, não há como falar de mulher na ciência sem ao menos contextualizar, um pouco que seja, o que isso representa naquela cultura e naquele local. Isso porque uma coisa pode puxar a outra e somos seres inseridos em diferentes mundos ao longo da vida: família, profissão e vida social, por exemplo. Há opressões direcionadas às mulheres em cada um desses mundos. E, sim, todas elas conversam dentro da nossa cultura porque falam de opressão ao gênero e sexo feminino.

Todos nós conhecemos a história de uma mulher que precisa se desdobrar em três para dar conta de trabalhar e/ou estudar, tomar conta da casa e/ou da família e cuidar de si mesma (se restar tempo, claro). Vamos dar um nome a essa mulher: Rosa. Rosa está quase terminando seu mestrado em matemática, cresceu ouvindo que mulher precisa saber cozinhar e ser excelente mãe para arranjar e segurar marido e, além disso, morre de vergonha e desconforto de sair com roupas mais decotadas e menores porque tem medo de ser assediada na rua ou no trabalho. No carnaval de rua, por exemplo, só se sente confortável para sair de casa com alguma fantasia que deixa o corpo mais à mostra caso esteja com um grupo de amigos confiáveis. Isso porque, infelizmente, ela percebeu que é um fator cultural o fato de muita gente achar que pode fazer o que bem entender com o corpo de uma mulher e “se saiu desse jeito, é porque estava pedindo”. “Aqueles amigos do mestrado”, ela pensa, “certamente me julgariam se me vissem desse jeito”.

Desconstruir para construir novos valores na cultura

É difícil ser mulher no mundo. Ponto. É tanta coisa para pensar. As respostas que temos que dar, os sinais que temos que ler, a rua escura que precisamos enfrentar, ou evitar, a inteligência que precisamos provar, a fragilidade que já nos é atribuída de forma natural desde a infância, a boneca que teimam em nos dar para cuidar… A sociedade põe a todos numa caixa, é verdade. Porém, verdade seja dita: a caixa das mulheres, no caso de muitas mulheres, é bem pequena para comportar tanto julgamento e opressão. Já rasgamos e quebramos muitas caixas mundo afora, mas todo dia precisamos rasgar um pouco mais as que ainda existem por aí.

Um convite mais que especial

 

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(Fonte: Museu da Vida/Fiocruz)

Pensando nesse contexto, estamos realizando, no dia 3 de fevereiro, um Grito de Carnaval, cujo tema – ou samba-enredo – será “Mulheres na ciência”. O evento será realizado no Museu da Vida, centro de ciência da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e é uma tentativa de rasgar um pouquinho mais essas caixas que nos rodeiam dentro da sociedade. Há atividades para várias idades. Além de ser uma excelente oportunidade para debater a igualdade de gênero na ciência brasileira, essa farra carnavalesca nos propõe pensar novos formatos para fazer divulgação científica.

Dando alguns exemplos: no “Espaço da fantasia”, o público poderá vestir uma fantasia que dialoga com diversas áreas da ciência. A proposta conversa com dois questionamentos: “Será mesmo que cientista tem uma única cara, a do jaleco?” e “Será que podemos dar ao nosso público a oportunidade de considerar ser uma cientista?”. No carnaval, as fantasias conversam bastante com o imaginário, sonhos e possibilidade. Por isso, a mensagem que queremos passar é que ser mulher cientista é, além de muito necessário, extremamente possível. Já em “Estandarte das mulheres incríveis”, os visitantes poderão escrever em pedaços de papel sobre mulheres inspiradoras, como integrantes da família, professoras, amigas, namoradas ou outras pessoas queridas. Em eventos públicos de divulgação científica, conversar com o público e ouvi-lo é fundamental!

Poderíamos ficar um bom tempo discorrendo sobre as atividades, mas, para quem é do Rio ou estiver pelo Rio no dia 3, queremos deixar o convite de ir construir o Grito de Carnaval com a gente. Fica a dica! Há mais informações sobre o evento no link bit.ly/gritodecarnavalmv.

Referências:
[1] DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar. 2009
[2] https://br.pinterest.com/
[3] SIMSON, Olga R. de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o entrudo até as escolas de samba). Revista de História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, july 1992.
[4] VELLOSO, Monica P. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, p.207-228, 1990.
[5] http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/11-visitacao/884-anote-na-agenda-o-grito-de-carnaval-do-museu-da-vida-vem-ai

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