Turismo Negro – Entrevista a Belmira Coutinho

No final do ano passado, um jantar organizado no Panteão Nacional pela Founders Summit para assinalar o encerramento da Web Summit gerou imensa controvérsia nas redes sociais e na comunicação social [1, 2, 3, 4]. O jantar, onde só participaram algumas dezenas de pessoas, seleccionadas pela organização decorreu no espaço central do Panteão, junto aos túmulos de algumas personalidades portuguesas. Na verdade, este não foi o primeiro jantar que ali se realizou, mas foi este que se transformou numa notícia bombástica que indignou a grande maioria dos portugueses, desde figuras públicas a figurantes não tão públicos assim… Inicialmente supus que esta indignação teria mais a ver com a defesa dos monumentos nacionais, mas não, toda a tinta que se gastou neste assunto teve a ver com “a grande falta de respeito” pelos ilustres mortos. Isto encontra-se relacionado com a forma como encaramos a morte, assunto que, já agora, evitamos a todo o custo. Considera-se, portanto, pertinente falar com a Belmira Coutinho, que investiga o turismo como mediador de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea.

Belmira

Belmira Coutinho -Dark Tourism researcher 

Helena Ferreira (HF) – Como explicas toda a polémica que se gerou em torno dos jantares que se realizaram no Panteão Nacional, junto dos túmulos das personalidades portuguesas?

Belmira Coutinho (BC) – Em primeiro lugar, importa clarificar que no local onde se realizou o jantar (corpo central do Panteão) não existem túmulos, apenas cenotáfios. Mas, indo ao que interessa: a resposta a esta pergunta dava para uma tese! Há muitos factores que contribuem para que tenha havido uma reacção pública tão enfática à realização deste evento. Resumidamente: temos um evento com carácter recreativo num local a que são atribuídas características de sagrado e que contém sepulturas de pessoas vistas como importantes para o país. A forte influência católica no nosso país impõe uma postura de reverência e pesar em face da morte e de túmulos. Em Portugal não existem sepulturas fora de locais religiosos (cemitérios, igrejas, etc.). Então, aqui, qualquer actividade em cemitérios e outros locais de enterramento além daquelas ligadas à religiosidade ou as visitas a sepulturas de familiares e amigos pode ser vista como “falta de respeito”, como algo que vai deturpar o carácter sagrado daquele espaço. A minha pesquisa mostrou-me como noutros países, mais seculares e/ou onde o catolicismo tem menos peso, esta postura é diferente. Além disso neste caso trata-se de um local onde estão sepultadas ou têm monumentos funerários “pessoas com destaque na História de Portugal”, ou seja, que são reconhecidas por grande parte da população. Então a “falta de respeito” não é só para com os indivíduos sepultados e eventualmente as suas famílias, é para com o país inteiro! Ainda por cima o evento destinou-se maioritariamente a um público estrangeiro, que desconhece estas figuras, então é visto como incapaz de prestar o devido respeito à sua memória. Ao mesmo tempo, existe uma retirada quase total da morte da vida quotidiana. Enquanto sociedade só nos permitimos contactar com a morte “real”, personalizada, em momentos e circunstâncias excepcionais. Lidamos com essa morte em funerais, nas visitas a moribundos ou mortos nos hospitais e morgues, nos rituais religiosos de visitas a cemitérios. Quando tem mesmo de ser. De resto, não queremos sequer lembrar-nos de que ela existe. Trazer os mortos para uma actividade tão mundana como um jantar, ainda por cima festivo, é algo que nos causa muita impressão.

HF –Consideras que houve, no mundo ocidental, uma evolução nas atitudes perante a morte, ao longo do tempo?

BC – Claro que sim. Sensivelmente a partir do Romantismo a morte foi assumindo um carácter cada vez mais extraordinário na sociedade ocidental. Até então ela era encarada como algo triste, claro, mas que fazia parte da vida. A morte não interrompia a vida. Quando alguém morria seguiam-se os devidos rituais religiosos e civis, mas as outras actividades do quotidiano aconteciam paralelamente. Da mesma forma, os locais de enterramento não eram vistos como cidades dos mortos, eles pertenciam às cidades dos vivos, eram locais de comércio, habitações, e até actividades lúdicas. Mas progressivamente fomos encarando a morte como uma ruptura com as regras do quotidiano, como algo que não deve fazer parte dele. Para isto contribuiu, entre outras coisas, o avanço da Medicina. À medida que mais doenças e ferimentos se tornaram tratáveis, a morte passou de natural a algo que devia ser combatido; em alguns momentos chega a ser vista como uma falha da medicina. Também nos fomos preocupando cada vez mais com a nossa morte, em vez de a encararmos como um destino colectivo. Conforme a nossa sociedade se foi dessacralizando e os indivíduos foram ficando mais e mais isolados, os tradicionais ritos e crenças que ajudavam a lidar com a morte foram perdendo importância, deixando-nos sozinhos a lidar com a nossa finitude. O que torna mais difícil querermos pensar nela. Como disse atrás, só lidamos com a morte quando somos obrigados. Ao mesmo tempo acontece uma coisa paradoxal: a morte entra-nos em casa todos os dias. É raro o dia em que não vemos imagens de pessoas mortas ou ouvimos relatos de mortes. Basta ligarmos a televisão ou entrarmos na internet para termos notícias de crimes e desastres. Ou ouvirmos música, vermos um filme, uma série, ou lermos um livro. A morte está muito presente na cultura popular. Mas ela é abstracta, despersonalizada. Suavizada.

HF – O que se entende por turismo negro? E turismo cemiterial? Queres dar como exemplo alguns locais?

BC – O Turismo Negro pode ser encarado – ou pelo menos eu encaro-o assim – como a actividade turística em locais que têm alguma ligação com a morte e com o sofrimento. Isto inclui, claro os cemitérios. Então, o Turismo Cemiterial, que diz respeito ao turismo desenvolvido em cemitérios, é Turismo Negro, mas o Turismo Negro engloba muito mais coisas. Podemos pensá-lo como um conceito guarda-chuva que abrange a actividade turística em locais que pouco ou nada mais têm em comum do que a sua ligação a morte e a sofrimento. Digo actividade turística porque não se trata apenas de uma fenómeno de oferta ou de procura, mas de algo muito mais complexo que envolve locais de elevada importância cultural e política para comunidades e nações, e com implicações éticas e económicas que devem ser tidas em conta, e que são visitados por pessoas nas quais vão causar algum impacto. Um exemplo facilmente identificável são os campos de concentração nazis, como Auschwitz, que no ano passado recebeu 2 milhões de visitantes. Mas há muitas atracções dentro deste tipo de turismo: campos de batalha, antigas prisões, exposições como a que está actualmente no CCB (sobre os portugueses em campos de concentração nazis), circuitos turísticos como o do Jack O Estripador, em Londres, antigos hospitais, entre tantas outras. A maior parte das pessoas já fez Turismo Negro sem ter pensado nisso.

HF – Segundo a tua investigação, o turismo negro e o turismo cemiterial assumem algum papel relevante para os indivíduos e a sociedade?

BC – Sim, assumem. Como já disse, na nossa sociedade não lidamos directamente com a morte e com o sofrimento. Precisamos de mediadores. E o Turismo Negro é um dos mais importantes mediadores de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea. É importante salientar que muitas das atracções deste tipo de turismo constam dos principais guias e roteiros de visita da maioria das cidades. Locais como o Cemitério do Père Lachaise (Paris), Pompeia, o Ground Zero. Em todos estes locais os visitantes podem contactar com a morte e o sofrimento sem serem afectados pessoalmente. Podem elaborar as suas construções e reflexões sobre aqueles acontecimentos ou sobre a finitude num local pensado para ser visitado, para ser consumido.

HF – O que podes ainda acrescentar sobre a tua investigação?

BC – A minha investigação procura pensar o Turismo Negro na realidade portuguesa a partir de um caso prático. A maior parte da teoria sobre este tema vem de um contexto anglocêntrico, então há coisas que não se podem transpor directamente para a nossa realidade. Por exemplo, as atracções relacionadas com a Segunda Guerra Mundial são consideradas o pináculo do Turismo Negro, mas em Portugal não as temos nem tivemos batalhas recentes no nosso território. O que é que nós temos de mais “negro” neste sentido? Eu creio que são os locais relacionados com a ditadura, como o Forte de Peniche e o Museu do Aljube, que hoje funcionam como museus de Resistência. São atracções turísticas e são locais onde a morte e o sofrimento aconteceram, embora isso não seja muito falado. Acho que é importante percebermos que histórias se estão a contar nestes locais, e quem é que as conta.

[1] http://observador.pt/2017/11/11/o-jantar-exclusivo-da-web-summit-foi-no-panteao-nacional/

[2] http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/paddy-cosgrave-pede-desculpa-por-jantar-no-panteao-nacional

[3] http://observador.pt/2017/11/11/governo-diz-que-jantar-da-web-summit-no-panteao-nacional-e-absolutamente-indigno-e-ofensivo/

[4] https://sol.sapo.pt/artigo/588526/web-summit-jantar-no-panteao-nacional-gera-revolta

 

 

 

 

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