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Crocantes petiscos

Todos somos fascinados por dinossauros. Não importa a quantidade de filmes, documentários, enciclopédias ou textos na internet: todos querem saber mais sobre dinossauros. Sempre gostamos de saber os detalhes sobre onde eles viviam, seu tamanho e o que comiam. Porém, a determinação da maioria das espécies é baseada em elementos ósseos bastante incompletos, o que nos deixa à mercê das estimativas de comprimento e peso. Uma das subáreas da Paleontologia que nos permite ter uma maior precisão de informações é a paleodieta (Figura 1). A forma do dente, a presença ou a ausência de serrilhas geralmente nos dizem muito sobre os principais alimentos dos dinossauros. Outra fonte de informação são os coprólitos – fezes fossilizadas (Figura 2)! Apesar de parecer um pouco asqueroso, os coprólitos são fontes muito importantes de informações. E é justamente por causa de alguns desses cocôs fossilizados que tivemos um pequeno “tapa na cara”: aparentemente, as divisões bruscas de carnívoro, onívoro e herbívoro não são tão simplórias assim.

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Figura 1: Uma rápida busca na internet e achamos algumas imagens sobre dinossauros se alimentando. Imagem retirada de DEA PICTURE LIBRARY

 

Em um novo artigo publicado na revista “Scientific Reports”, a paleontóloga Karen Chin e seus colegas discutem sobre os coprólitos de dinossauros escavados da Formação Kaiparowits, do sul de Utah. Nesse artigo, Chin levanta a polêmica que os hábitos de alimentação inferidos a partir dos dentes precisam ser verificados contra evidências mais diretas – como os coprólitos. Neste caso em particular, as fezes de dinossauros herbívoros, de aproximadamente 75 milhões de anos, continham traços de alimentos inesperados. Apesar de não ser tão preciso quanto às espécies de dinossauros a que pertenciam os coprólitos, a forma e o material interno indicam que estes eram fezes de um tipo de hadrossauro,  muito comuns na região.

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Figura 2: Um dos coprólitos analisados na pesquisa. Retirado de Chin et al. 2017.

Como era esperado, a análise mais refinada dos materiais estudados a análise revelou uma composição de madeira de coníferas fibrosas, bem como alguns vestígios de fungos. Estes últimos, possivelmente foram ingeridos quando esses dinossauros inadvertidamente comiam pedaços de troncos apodrecidos. Mas havia algo mais. Dentro de alguns dos coprólitos examinados haviam pequenos pedaços de… concha!  Esses fragmentos não foram fáceis de interpretar – afinal, além de terem passado por todo o trato digestório dos hadrossauros que os engoliram há 75 milhões de anos, essas conchas trituradas são os restos das refeições que ainda tiveram que passar pelo difícil processo de fossilização.

Apesar das dificuldades naturais de identificação, Chin e seus colaboradores foram capazes de determinar que os fragmentos de casca eram sim de crustáceos. E isso não aconteceu num único coprólito. Dez de quinhentos (ou 2%) coprólitos examinados de várias camadas de rocha continham pedaços dos crustáceos mastigados. Pode parecer pouco quando olhamos os números, porém, se pensarmos que o registro de coprólitos é raro, essa porcentagem contendo elementos inusitados para animais herbívoros é bem interessante. Para explicar essa fascinante surpresa, Chin e colegas propuseram dois cenários. O primeiro deles, os dinossauros poderiam ter comido ativamente e intencionalmente os crustáceos – provavelmente pequenos seres de água doce – enquanto esses dinossauros estavam vagando em busca de alimento. Outro cenário possível é a ingestão acidental, na qual esses pequenos invertebrados estavam próximos aos troncos caídos em que os dinossauros estavam se alimentando e, portanto, foram ingeridos. Porém, Chin e coautores defendem que os dinossauros estavam comendo intencionalmente esses crustáceos, uma vez que as fezes foram encontradas em camadas de rocha que representam diferentes épocas do período geológico. Então, esta era uma tendência persistente ao longo do tempo na área de estudo. Além disso, os fragmentos indicam que os crustáceos eram relativamente  grandes, considerando o tamanho da boca dos hadrossauros para caracterizar apenas alguns casos de refeições acidentais.

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Figura 3: Diferentes conteúdos de coprólitos de dinossauros herbívoros, com partes de crustáceos no interior. Retirado de Chin et al. 2017.

A razão desses dinossauros terem ingerido as conchas não foi totalmente esclarecida, porém, é possivel que eles tenham recorrido a este “petisco” quando estavam se reproduzindo. Os dinossauros, tais como as aves e répteis, produzem a casca dos seus ovos a partir da retirada do cálcio dos próprios ossos. É possível que a ingestão de conchas – ricas em carbonato de cálcio – ajudava as fêmeas a obter esse elemento como um extra. Além disso, a parte interna e mole desses invertebrados pode ter contribuído com enriquecimento de proteínas, como um reforço para a época do acasalamento. Por fim, esse estudo representa mais do que apenas o registro de quais dinossauros viveram naquela região e do que eles se alimentavam. A pesquisa liderada pela Chin é um forte lembrete de que os animais são flexíveis e possuem uma gama mais ampla de estratégias do que podemos suspeitar. E essa talvez seja a razão pela qual os dinossauros continuam nos fascinando, mesmo depois de tantas décadas: eles continuam a sempre desafiar as nossas expectativas.

PARA SABER MAIS:

Chin, K., Feldmann, R., Tashman, J. 2017. Consumption of crustaceans by megaherbivorous dinosaurs: dietary flexibility and dinosaur life history strategies. Scientific Reports. doi: 10.1038/s41598-017-11538-w

Texto “Mas que coprólito!”, do blog científico “Colecionadores de Ossos”.