Vamos conversar sobre a história da Aids?

mortes por aidsNo último dia 1o, celebramos mais um Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Esse dia foi estabelecido pela Assembleia Mundial de Saúde e ONU em 1987, e é adotado pelo Ministério da Saúde desde 1988, devido à grande relevância dessa doença, que é responsável por mais de 1 milhão de mortes anualmente no mundo. E mesmo já passados 30 anos do estabelecimento desse dia de reflexão e conscientização, a Aids ainda acomete grande número de pessoas no Brasil e no mundo, e continua cercada de preconceitos e tabus. E para melhor lutarmos contra essa grave doença, ainda no espírito do dia 1o de dezembro, nada melhor que conhecermos a sua história. Vamos nessa?

A Aids, sigla para síndrome da imunodeficiência adquirida, é uma doença do sistema imunológico causada pelo vírus HIV, sigla para vírus da imunodeficiência humana. O HIV originou-se de um outro vírus, chamado SIV, que é encontrado no sistema imunológico de chimpanzés e do macaco-verde africano. O SIV não causa doença alguma nos animais que infecta; porém, como é um vírus altamente mutante, deu origem ao HIV. Acredita-se que a transmissão para o ser humano aconteceu em tribos da África Central que caçavam ou domesticavam chimpanzés e macacos-verdes. Não há consenso sobre a data das primeiras transmissões, mas é provável que tenham acontecido muitas décadas antes do reconhecimento da doença, em 1982, e que ela tenha inicialmente permanecido restrita a pequenos grupos e tribos da África Central, na região subsaariana. Só então na década de 1970, Estados Unidos, Haiti e África Central apresentaram os primeiros casos da infecção: surgiram diversos casos de doenças que ninguém sabia como explicar na época. Isso se deve ao fato da Aids fragilizar o sistema imune e, portanto, deixa o portador mais susceptível a diversas outras doenças, como à  criptococose (uma doença fúngica oportunista que já comentamos aqui no blog neste link), que podem ser fatais. Ou seja, o paciente não é acometido fatalmente pela Aids, mas sim de outras doenças que não são combatidas pelo organismo em decorrência da Aids.

How to Have Promiscuity in an EpidemicAcreditava-se que a primeira pessoa a levar o vírus para os Estados Unidos foi um comissário de bordo franco canadense chamado Gaetan Dugas, conhecido como o “Paciente Zero”. No entanto, um estudo publicado na Nature no ano passado (2016) revelou que a amostra do sangue de Dugas continha uma variação do vírus que já havia infectado homens antes dele começar a frequentar Nova York, mudando assim a história da epidemia. Imagina-se que o erro tenha ocorrido por uma confusão: Dugas era identificado como “paciente O”, com a letra “O”, que significa “out[side]-of-California” (termo utilizado para pacientes infectados fora do estado), e o símbolo circular ambíguo começou a ser lido como zero, erroneamente. Assim, a troca levou a se pensar que ele teria sido a primeira pessoa infectada fora da África e a o intitularem como “o homem que nos deu a Aids”, conforme manchete do New York Post.

peste gayO primeiro caso de Aids no Brasil foi registrado em 1980 e confirmado dois anos depois. No Brasil, como no restante do mundo, a história da Aids está repleta de preconceitos e foi até intitulada como “Peste-Gay”, conforme reportagem publicada no Jornal Notícias Populares, em 1983. É fato que, embora o HIV seja encontrado em vários fluídos corporais (sangue, leite materno, secreções vaginais e sêmen), a carga viral presente no sêmen é maior, tornando-o a via mais comum de infecção. Assim, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) têm probabilidade maior de se infectarem, o que não dizima a possibilidade de outros grupos se infectarem igualmente. O sexo não é a única via de contaminação, como ocorreu no caso reportado no Journal of Medical Case Reports em 2017: infecção pelo vírus HIV foi adquirida através de um ritual de curandeiro tradicional no qual ocorreu o corte da pele do curandeiro seguido pela da paciente usando o mesmo instrumento, na Tanzânia, África Oriental. Fanáticos diziam que a Aids havia sido criada por uma força divina para acabar com os gays e, depois, com os afrodescendentes, grupos nos quais os primeiros casos de Aids foram registrados. Vale lembrar que esses dois grupos já eram discriminados naquela época, o que explica a postura preconceituosa adotada. Infelizmente esse preconceito ainda persiste nos dias atuais, mesmo com todo o esclarecimento acerca da doença, criando uma barreira entre populações-chave para essa epidemia e a testagem e serviços de tratamento.

A história da Aids está repleta de luta! Não só luta contra o preconceito, mas também luta em prol de condições de tratamento. Esse cenário é bem retratado no filme “Clube de Compras Dallas”, que é baseado na vida de Ron Woodroof, um eletricista heterossexual de Dallas que foi diagnosticado com Aids em 1985. Woodroof se recusou a aceitar o prognóstico de apenas 30 dias de vida e criou uma operação de tráfico de remédios alternativos, na época ilegais. Ron passa a adquirir, ilegalmente, AZT, medicamento utilizado até então em pacientes com câncer, que só em 1987 foi autorizado para o tratamento da Aids. O filme, que ganhou Oscar de melhor ator em 2014, é interessantíssimo e retrata a luta dos portadores de HIV, marginalizados na sociedade, por acesso à saúde. Felizmente, pela primeira vez, o relatório UNAIDS de 2017 mostra que mais da metade de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo (53%) agora têm acesso ao tratamento do HIV (dado de 2016).

A Aids mata e, assim como o preconceito, segue, infelizmente, presente com força na nossa sociedade. Precisamos combater tanto a doença quanto a discriminação, por meio do conhecimento e da prevenção. A luta contra a Aids é necessária e responsabilidade de todos nós: o dia 1o de dezembro deve ser todo dia.

 

REFERÊNCIAS:

WOROBEY et al. 1970s and ‘Patient 0’ HIV-1 genomes illuminate early HIV/AIDS history in North America. Nature, 539(7627). 2016. Disponível neste link.

PALLANGYO et al. Human immunodeficiency virus infection acquired through a traditional healer’s ritual: a case report. Journal of Medical Case Reports, 11. 2017. Disponível neste link.

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2016/10/homem-culpado-pela-epidemia-de-aids-e-inocentado-pela-ciencia.html

http://www.ioc.fiocruz.br/aids20anos/linhadotempo.html

https://mundoestranho.abril.com.br/saude/como-surgiu-a-aids/

https://jovemsoropositivo.com/2014/08/09/carga-viral-no-semen/

https://unaids.org.br/estatisticas/

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