Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 3: o efeito placebo

Nesta série sobre conceitos básicos de pesquisa em saúde, já discutimos o desenho de experimentos e os conceitos de correlação, confundimento e significância estatística. Vamos agora discutir um fenômeno curioso com que ensaios clínicos – aqueles que buscam testar novos tratamentos ou intervenções – precisam lidar: o efeito placebo.

Brody [1] define o efeito placebo como “uma mudança na doença do paciente atribuível à importância simbólica de um tratamento ao invés de uma propriedade farmacológica ou fisiológica específica”. Em outras palavras, o efeito placebo ocorre quando há uma alteração no quadro de um paciente mesmo quando o tratamento não inclui uma substância ou intervenção eficaz. Pílulas de açúcar, injeções de soro fisiológico, cirurgias falsas (nas quais o paciente é anestesiado e apenas um corte é feito na pele) são exemplos de placebos. Nenhum deles trata de fato a doença ou condição, mas mesmo assim são capazes de provocar melhoras nos pacientes. As explicações para o efeito placebo são complicadas, envolvem uma multiplicidade de fatores e ainda estão em debate. O mais importante, contudo, é que o efeito placebo é fortemente relacionado com as expectativas dos pacientes [2]. Isso significa, por exemplo, que tratamentos têm mais eficácia quando pacientes estão cientes de que estão sendo tratados [3], mas o efeito placebo também age de maneira mais inusitada: as cores de pílulas têm efeito sobre o tratamento, com base nas associações sobre o efeito estimulante e calmante de cores quentes e frias, respectivamente [4], e até é possível induzir efeitos colaterais com tratamentos inertes (isto é, que não têm princípios ativos reais), desde que os pacientes tenham a expectativa de que sofrerão esses efeitos* [2]!

O efeito placebo pode ser usado para tornar tratamentos mais eficazes: médicos podem incorporar elementos que induzem esse efeito nos tratamentos que indicam a seus pacientes, aumentando as chances de que funcionem. Contudo, ele também representa um desafio à pesquisa em saúde. Se a expectativa de um paciente por si só já pode levá-lo a melhorar, como saber se uma intervenção de fato tem efeito sobre a doença, ou se é um mero placebo? É essa indagação que leva a que o objetivo de ensaios clínicos seja determinar se uma intervenção é mais eficaz do que um placebo**. Para dar conta desse desafio, ensaios clínicos costumam incorporar placebos em seus desenhos de estudo. Assim, o grupo experimental recebe a intervenção que está sendo testada e o grupo controle recebe o placebo. Para evitar que a percepção dos pacientes afete os resultados dos estudos, os participantes não são informados sobre o grupo em que estão. Para garantir que os pesquisadores não interfiram nos resultados dos dois grupos, nem revelem em que grupo cada participante está, eles também não sabem quem é quem durante o estudo. Esse tipo de estudo é chamado de duplo cego e, quando a alocação dos indivíduos nos grupos de tratamento é feita aleatoriamente, é o que fornece as evidências mais confiáveis sobre intervenções em saúde [5].

Contudo, nem sempre é possível fazer estudos desse tipo. Há casos em que não é possível esconder dos pacientes em que grupo estão, especialmente quando se trata de uma intervenção comportamental (é impossível alguém não saber se está fazendo exercício regularmente, por exemplo). Há também casos em que considerações éticas impedem que um grupo receba um placebo, ao invés de um medicamento de verdade. Nesses casos, as evidências produzidas pelos estudos são mais fracas, mas, ainda assim, esses estudos podem dar contribuições importantes à avaliação de intervenções em saúde.

Por que é importante entendermos o efeito placebo? Além de ser extremamente interessante por si só, o efeito placebo também nos ajuda a avaliar intervenções em saúde. Mesmo que você não faça pesquisa em saúde, entender o efeito placebo ajuda a questionar tratamentos vendidos por aí. Afinal, o simples fato de que alguém (ou mesmo várias pessoas) diz ter melhorado com um tratamento não significa muita coisa. Uma boa pergunta para se ter em mente é: “existe alguma evidência de que essa intervenção é melhor do que um placebo?”. Essa pergunta já ajuda a evitar tratamentos pseudocientíficos e é uma arma importante contra charlatães.

No próximo – e último – texto da série, vamos deixar de lado ensaios clínicos para discutir os conceitos de risco relativo e risco absoluto. Até lá!

*Nesse caso, temos o efeito nocebo, essencialmente a mesma coisa que o placebo, mas para efeitos negativos.
**Quando não há um tratamento já em uso. Quando já existe um tratamento, a nova intervenção precisa também ser testada contra o tratamento já existente.

[1] Brody, H. Placebos and the Philosophy of Medicine. Clinical, Conceptual, and Ethical Issues. Chicago: University of Chicago Press, 1980
[2] De Craen, AJ; Kaptchuk, TJ; Tijssen, JG; Kleijnen, J. Placebos and placebo effects in medicine: historical overview. Journal of the Royal Society of Medicine, v. 92, n. 10, 1999: 511-515. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1297390/
[3] Lanotte, M.; Lopiano, L; Torre, E; Bergamasco, B; Colloca, L; Benedetti, F. Expectation enhances autonomic responses to stimulation of the human subthalamic limbic region. Brain, Behavior, and Immunity, v. 19, n. 6, 2005: 500-509.
[4] De Craen, AJ; Roos, PJ; Leonard de Vries, A; Kleijnen J. Effect of colour of drugs: systematic review of perceived effect of drugs and of their effectiveness. BMJ : British Medical Journal. v. 313, n. 7072, 1996:1624-1626. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2359128/
[5] Schulz, KF; Grimes, DA. Blinding in randomised trials: hiding who got what. Lancet. v. 359, n. 9307, 2002: 696-700.

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2 comentários sobre “Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 3: o efeito placebo

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