Por que menstruamos? A história evolutiva da menstruação

Menstruação. Esse acontecimento fisiológico que ocorre com metade da população mundial em idade fértil ainda é um tabu social e científico em muitos aspectos. Por exemplo, quem nunca viu uma propaganda de absorvente que representa o sangue menstrual em cor azul ou rosa? Os fatores sociais e culturais relacionados  a este tema afetam a vida das mulheres[1] em todo o mundo e possuem influências em diversas questões políticas relacionadas à liberdade e saúde da mulher, mas o entendimento profundo sobre o assunto ainda é escasso para grande parte da população.

Recentemente a famosa revista científica “The Lancet” lançou uma nota editorial com o tema “Tempo de falar sobre menstruação” [1] na qual apresenta dados sobre como a menstruação é um assunto negligenciado socialmente, mesmo podendo afetar desde a autoestima de meninas e mulheres até o desempenho escolar destas, que precisam passar por este período todo mês. Então, no texto de hoje vamos abordar esse tema e mostrar algumas curiosidades sobre o assunto.

Os médicos e cientistas se perguntavam sobre o motivo e a função da menstruação desde os anos 400 a 300 a.C.. Nesse tempo eles acreditavam que a menstruação era a substância necessária para a formação do embrião. A crença era de que o sêmen atuaria no sangue menstrual levando este à coagulação. Sendo o sangue a matéria prima do embrião, perder este antes da entrada do sêmen era considerado na época equivalente a assassinato infantil. Esse simples desconhecimento de ciência levou na prática ao casamento de crianças em alguns países, sendo considerado um crime para uma menina menstruar antes de se casar [2].

Essa visão antiga sobre a menstruação permaneceu popular por quase dois mil anos, e somente por volta de 1700 os cientistas perceberam a diferença entre sangue menstrual e o sangue que circula em nosso corpo [3]. Com o passar dos anos, no final do século XIX e início do século XX, a partir de avanços na ciência com a descrição do ciclo hormonal de alguns mamíferos, acreditava-se, erroneamente, que a menstruação na mulher era equivalente ao sangramento relacionado ao momento de cio em alguns animais, sangramento proestrus [4]. Foram necessários mais alguns anos, até que em 1923 George W. Corner publicou um trabalho descrevendo a menstruação como um processo secundário, relacionado a um método altamente desenvolvido de implantação do embrião [5]. Sabe-se atualmente que esse processo ocorre em apenas 1,5% das espécies de mamíferos, sendo quase que restrito à primatas (78 ordens), mas que também está presente em 4 espécies de morcegos, um pequeno mamífero africano Elephantulus myurus, e recentemente descoberto na espécie de rato Acomys cahirinus [6, 7].

espécies que menstruam
Figura 1. Outras espécies que menstruam (Elephantulus myurus e Acomys cahirinus).

Com o surgimento e popularização da teoria da evolução, diversas hipóteses surgiram para explicar a função da menstruação, sempre tendo como perspectiva o fato de que, se este processo sobreviveu à seleção natural, provavelmente ele deve ser de alguma forma vantajoso ou pelo menos não prejudicial aos primatas e à continuação da espécie. Na época, os cientistas ignoraram os fatos de que a menstruação só ocorre em fêmeas com desenvolvimento corporal completo e apenas quando não estão grávidas ou amamentando. Assim, encontrar uma função para a menstruação consistia em uma tarefa árdua, pois era possível que as fêmeas passassem os seus genes para as próximas gerações mesmo sem menstruar e anteriormente à seleção natural exercer efeitos positivos ou negativos sobre a espécie [1]. Seguindo esse ponto de vista, aparentemente, a menstruação não está envolvida com alguma função específica na evolução dos primatas, mas possui uma ligação direta com o nossa forma de reprodução e à função do útero das mulheres.

Nesse sentido, olhando para o trato feminino atual, tudo começou com uma estrutura primitiva especializada em transportar gametas que apareceu primeiramente no peixes com mandíbulas. Esta estrutura evoluiu por milhões de anos, sendo conhecida atualmente como ductos de Müller ou Mulleriano, o precursor do útero, oviduto, cérvix e vagina superior nas mulheres. A grande vantagem da estrutura primitiva era permitir que o macho depositasse seus gametas diretamente dentro da fêmea, facilitando assim a união dos gametas e a fecundação.

ducto muller português
Figura 2. Ducto Mulleriano e a formação das estruturas do sistema reprodutivo feminino (Fonte: Wilhelm, D. e colaboradores/Physiological Reviews). Traduzido para português e adaptado.

Essa fertilização interna constituiu em um primeiro passo para a conquista do ambiente terrestre, mas apresentava algumas desvantagens evolutivas. Primeira, o embrião agora dentro da mãe possuía um tecido diferente geneticamente da mãe e um processo inflamatório de não reconhecimento deste tecido estranho teria que ser evitado. Segundo, a presença do embrião no interior de um ducto significava que a evolução do trato feminino passaria a ser realizada em conjunto com a evolução do embrião, sendo desta forma mais difícil de ter sucesso evolutivo.

Mudanças importantes no ducto Mulleriano ocorreram ao longo dos anos nas espécies que conquistaram o ambiente terrestre. Em répteis essa estrutura atuou na adição de camadas de proteção ao embrião (ovo), e em mamíferos, que evoluíram a partir de ovos de répteis primitivos, vestígios dessas camadas protetoras do embrião ainda existem. Um exemplo atual dessa evolução são os mamíferos primitivos que vivem nos dias atuais, como os ornitorrincos (Figura 3), que ainda possuem ovos.

Ornitorrinco

Figura 3. Ornitorrinco e seus ovos (Fonte: Agostini Picture Library/De Agostini/Getty Images).

O surgimento do útero em mamíferos ocorre com a especialização deste na provisão de nutrientes para o embrião. E com o passar do tempo, a evolução útero ocorreu no sentido de um contato cada vez cada vez mais íntimo entre o embrião e o endométrio materno (Figura 4). Tudo isso permitiu uma transferência de nutrientes cada vez mais eficiente entre as membranas que separam o sangue fetal e o materno.

trato vaginal
Figura 4. Esquema do trato feminino (Fonte: Editora Sanar). Com adaptações.

Para evitar a expulsão do embrião e o processo de inflamação no corpo da mãe em relação aos tecidos não reconhecidos deste, a evolução do embrião ocorreu no sentido de paralisar o processo inflamatório no útero e juntamente formar um tecido de granulação de proteção. Esse processo ocorre com o controle do embrião em estágios bem iniciais de um hormônio da mãe chamado de progesterona. Esse hormônio é majoritariamente produzido pelo ovário, porém com a fecundação passa a ser controlado, e posteriormente, produzido pelo próprio embrião. Esses efeitos combinados se converteram na resposta de implantação do embrião, que é considerada bem invasiva em primatas em relação ao mesmo processo em outros animais [8].

Contra isso, a mãe reagiu ao longo da evolução para proteger as camadas epiteliais do seu útero por meio de mudanças na espessura da parede do útero (endométrio) ao longo do ciclo de fertilidade e em resposta à antecipação de uma gravidez e a invasão do possível embrião. Assim, quando a gravidez não ocorre, há apenas o descolamento dessa parede do endométrio com um sangramento: a menstruação.

embrião se implantando no útero
Figura 5. Embrião se implantando na parede do útero (Fonte: Science Picture Co/SPL).

Ao perceber a estreita relação entre a menstruação e o seu papel na implantação do embrião, é difícil imaginar que estas poderiam ter evoluído separadamente. Assim, outra hipótese muito aceita é que a função evolutiva mais útil da menstruação é de se livrar de embriões não implantados corretamente [1, 7]. Ainda, não podemos deixar de citar, que uma pesquisadora chamada Margie Profet defende a ideia de que a menstruação serviria também para proteger a fêmea dos patógenos transportados pelo esperma do macho [9], mas vários autores discordam dessa hipótese e testes clínicos ainda são necessários para comprovar essa afirmação [10].

Para finalizar, um fato curioso da abordagem do tema é um pequeno vídeo produzido pela Walt Disney em 1946. Desculpas antecipadas pelas imagens e comentários sexistas da época, mas acredito que seja interessante conferir.

E aí, vamos colocar a menstruação na roda de conversa?

Referências

  1. The Lancet. Time to talk about menstruation: #PeriodEmoji. Lancet, 389: 2264, 2017.
  2. Finn, A.C. Why do women menstruate? Historical and evolutionary review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology 70, 3-8, 1996.
  3. Grant E, ed. A source book in Medieval Science. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964.
  4. Heape W. The ‘sexual season’ of mammals and the relation to menstruation. Q J Microsc Sci 44,1-70, 1900.
  5. Corner, G. W. Oestrus, ovulation and menstruation. Physiological Reviews 3, 4, 457-482, 1923.
  6. Bellofiore, N., Ellery, S., Mamrot, J., Walker, D., Temple-Smith, P. e Dickinson, H. First evidence of a menstruating rodent: the spiny mouse (Acomys cahirinus). American Journal of Obstetrics and Gynecology, 2016.
  7. Emera, D., Romero, R., Wagner, G. The evolution of menstruation: A new model for genetic assimilation. Bioessays, 34, 26–35, 2011.
  8. Kirby DRS. Development of mouse eggs beneath the kidney capsule. Nature 187, 707,1960.
  9. Profet, M. Menstruation as a defense against pathogens transported by sperm. The Quarterly Review of Biology, 68(3), 335–386, 1993.
  10. Dasgupta, S. Why do woman have periods when the most animals don’t? BBC earth, 2015.

[1] É importante tomar nota que ao se referir à mulheres nos artigos utilizados para compor este texto, os autores se referem a pessoas que possuem biologicamente o sistema genital feminino. Homens trans ou pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros também podem menstruar, mas este tema específico não será o foco deste texto.

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