Animais doentes se isolam dos membros do grupo

O que fazemos quando ficamos extremamente doentes? Apesar da frequente vontade de nos isolar do mundo, sempre há uma demanda maior pelo cuidado e atenção das pessoas próximas. Nesse caso, quantas vezes essas pessoas também não ficaram doentes junto com a gente?

Apesar das muitas vantagens de se viver em sociedade – como a divisão do trabalho, por exemplo – uma das desvantagens mais proeminentes é a maior possibilidade de transmissão de doenças entre os membros do grupo [1]. E quem pula carnaval sabe muito bem disso. Não dá pra acordar na quarta-feira de cinzas e dizer que você está completamente sadio depois de todo aquele contato social.

louva

Louva-Deus se limpando. Um comportamento importante para evitar a dispersão de parasitas.

Os animais se utilizam de diversos mecanismos para evitar que uma doença se espalhe entre os membros do grupo. Algumas possibilidades são o tratamento através de automedicação (saiba mais nesse texto); comportamentos como o de limpeza corporal (ou grooming), que observamos em vertebrados [2] e invertebrados [3]; e o isolamento do grupo.

Quando ficam doentes, indivíduos de algumas espécies simplesmente se afastam do grupo, reduzem sua interação com outros e morrem sozinhos [4]. Apesar dessa história parecer extremamente triste e solitária, os efeitos podem ser bastante benéficos para o grupo social.

Um estudo realizado por Patrícia Lopes e colaboradores na Universidade de Zurich, Suíça [5], mostrou que ratos da espécie Mus musculus domesticus injetados com um produto bacteriano (lipopolissacarídeos de Escherichia coli) deixam de interagir com os seus colegas de grupo. Apesar de existirem mecanismos de reconhecimento do colega doente pelos outros indivíduos, eles não parecem evitar a presença do indivíduo infectado. Este isolamento é provocado pelo comportamento do próprio rato adoentado. É como se ele ativamente se removesse do grupo. Além disso, os pesquisadores puderam perceber que esse comportamento diminuiu a disseminação da infecção entre os outros membros do grupo, tornando o comportamento benéfico em longo prazo.

rato

Mus musculus domesticus

Os autores do estudo [5] ainda discutem sobre a importância dos seus resultados para os modelos de transmissão de doenças, que são como previsões de que modo uma doença vai se disseminar em uma população. Esses modelos são essenciais para as ações de controle e prevenção de doenças em populações humanas. Segundo eles, os modelos tradicionais não levam em consideração os efeitos das doenças no comportamento dos indivíduos infectados, como pudemos observar no exemplo dos ratinhos. A inclusão desse efeito comportamental seria um ponto essencial para aumentar o poder de previsão dos modelos quanto à velocidade e a magnitude da disseminação de doenças.

Links:

Macaquinhos fazendo gromming

Referências:

[1] Alcock, J., 2016. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. Artmed Editora.

[2] Mooring, M.S., Blumstein, D.T. and Stoner, C.J., 2004. The evolution of parasite-defence grooming in ungulates. Biological Journal of the Linnean Society, 81(1), pp.17-37.

[3] Zhukovskaya, M., Yanagawa, A. and Forschler, B.T., 2013. Grooming behavior as a mechanism of insect disease defense. Insects, 4(4), pp.609-630.

[4] Formigas doente se isolam para morrer

[5] Lopes, P.C., Block, P. and König, B., 2016. Infection-induced behavioural changes reduce connectivity and the potential for disease spread in wild mice contact networks. Scientific reports, 6.  

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