Será que o pâncreas artificial já está entre nós?

A médica que começou meu tratamento quando eu recebi o diagnóstico de diabetes tipo 1, em 2006, me disse “A cura está pra ser descoberta nos próximos cinco anos desde que eu me formei em medicina, nos anos 70… eu acho que a cura pela tecnologia vai vir antes da cura pela medicina!”. Parece que ela tinha razão: desde então foram lançadas insulinas novas mais rápidas e mais lentas, bombas de insulina mais fáceis de usar e até que recebem continuamente via Bluetooth os valores lidos por monitores contínuos de glicemia, mas, como esperado, nada de cura. E nem de pâncreas artificial, mas a coisa está melhorando.

O diabetes tipo 1 é, digamos, o irmão meio negligenciado do diabetes tipo 2. Na minha vida depois do diagnóstico já me perguntaram se é o diabetes de criança, se é daquele mais grave, se eu nasci assim… Como atinge, em geral, apenas de 5 a 10% do total de pacientes com a doença, nem todo mundo sabe o que é ou como se desenvolve. Explico: em 95% dos casos, é uma doença autoimune que destrói as células beta no pâncreas, as que produzem insulina; nos outros 5% a causa é desconhecida, mas o resultado é o mesmo. Isso significa que o paciente vai precisar tomar insulina pro resto da vida (desde o diagnóstico e pra sempre!) – um tipo basal, que dura várias horas, e um tipo rápido, tomado em função da quantidade de carboidrato ingerida nas refeições, ou usar uma bomba de insulina 24h por dia só com esse último tipo. Não tem relação com a dieta ou massa corporal e, na maior parte das vezes, se desenvolve em crianças, adolescentes e adultos jovens. E não, a gente não nasceu diabético. 

Se você não é diabético, generalizando bastante, sua vida é mais ou menos assim:

Não diabético

Adaptada e traduzida daqui

Já se você é um diabético que tem a sorte de ter um sensor que detecta continuamente a glicemia (ou CGM, continuous glucose monitoring, em inglês), sua vida é mais ou menos assim:

Diabético

Os sistemas atuais de infusão contínua de insulina (mais conhecidos como bombas de insulina) mais comuns não são automatizados e, para explicar de maneira simples, apenas inserem insulina no paciente (sim, é só isso mesmo!), de acordo com uma programação feita pelo paciente em conjunto com profissionais de saúde, que pode ser alterada com base nos resultados de glicemia medidos, em geral, com um glicosímetro e uma gota de sangue de 6 a 8 vezes por dia (e/ou, quando possível, por sensores contínuos ou por esse sensor flash aqui), e também com a ingestão de carboidratos, quando o próprio usuário da bomba aciona a infusão de insulina de acordo com relações individuais de sensibilidade insulina/carboidrato. A ideia do pâncreas artificial é simplificar a vida do paciente, fazer um dispositivo capaz de se adaptar às mudanças de alimentação e/ou atividade física e inserir insulina de acordo com a glicemia, que seria medida por um sensor contínuo muito preciso. Pode parecer simples, mas não é.

O pâncreas é um órgão-glândula que a gente só lembra que tem quando dá problema. Quando ele funciona normalmente, produz, entre outras coisas, insulina e glucagon, que é um hormônio com ação antagônica à da insulina. É esse hormônio que ativa a reação de liberar o estoque de glicogênio – que será reconvertido em glicose – do fígado quando a concentração de glicose no sangue está muito baixa. Pra ser considerado um pâncreas artificial, o dispositivo precisaria responder quase que instantaneamente à glicemia do paciente enquanto ele leva uma vida normal, e ainda é muito difícil detectar a glicemia automaticamente de forma suficientemente precisa. Além disso, as insulinas análogas mais rápidas demoram em média pelo menos 15 minutos pra começar a agir e só atingem o pico de ação depois da primeira hora, o que significa que, mesmo que glicemia fosse detectada com precisão, o atraso da ação não instantânea da insulina inserida externamente no tecido subcutâneo vai interferir no resultado da glicemia do paciente. E, também, não ter infusão de glucagon em caso de hipoglicemia impede que a ação do fígado seja rápida no sentido de aumentar a concentração de glicose no sangue em caso de hipoglicemia.

Na França, desde 2011, uma empresa  está desenvolvendo um sistema fechado de infusão de insulina em parceria com diversas universidades. Já foram realizados testes com pacientes e o lançamento é esperado para a partir de 2018. Esse ano o projeto recebeu um investimento de 13,5 milhões de euros. Na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, um protótipo foi desenvolvido também em 2011 e atualmente está fase de testes. Ano passado sua eficiência foi demonstrada também para mulheres grávidas com diabetes tipo 1. Recentemente, uma empresa norte americana lançou um sistema híbrido com retroalimentação, ou loop fechado (nesse caso significa que o dispositivo responde e ajusta sozinho as doses basais de insulina de acordo com os dados de glicemia do paciente, medidos por um sensor de glicemia já bastante preciso), que já foi aprovado pela FDA, instituição reguladora de medicamentos e tecnologias médicas dos EUA, para pacientes acima de 14 anos. De acordo com os estudos da empresa, esse sistema diminui o tempo que o paciente passa em hiper e hipoglicemia, reduz a variabilidade da glicemia, aumenta a segurança durante a noite e melhora as glicemias de jejum, reduzindo o fardo da doença.  Esse sistema não é completamente automatizado – ele não insere insulina automaticamente para refeições, por exemplo – por isso a designação híbrido. E não posso esquecer também do incrível projeto #openAPS (the Open Artificial Pancreas System project), resultado do movimento #WeAreNotWaiting, iniciado por pessoas com diabetes tipo 1 nos EUA, que, cansados da lentidão do processo de inovação das empresas tradicionais e do pouco acesso que os pacientes têm à tecnologia, decidiram fazer elas mesmas um sistema de infusão de insulina em loop fechado. Esse movimento hoje já conta com 400 pacientes usuários do sistema, eles próprios fazem toda a programação, e foi encabeçado pela norte-americana Dana Lewis.

Apesar desses avanços e do grande número de empresas envolvidas em fazer esses sistemas, ainda há muitos desafios para o funcionamento ideal desses dispositivos. E, pra piorar, por enquanto não há sequer previsão de chegada desses sistemas ao Brasil, e nem estimativa de preço ou de entrada dessas tecnologias no nosso SUS. Para dar um exemplo, a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS) só emitiu parecer favorável à inclusão das insulinas análogas ao SUS em fevereiro de 2017, enquanto no Reino Unido, por exemplo, essas insulinas estão disponíveis aos pacientes desde meados da década de 90. E as bombas de insulina, mesmo quando bem indicadas, só são adquiridas por meio de judicialização… Por falar nisso, a incorporação de tecnologias ao SUS é um excelente tema para um próximo texto.

De todo jeito, mesmo que para os brasileiros o futuro ainda esteja incerto, os próximos anos parecem prometer uma versão de quase-cura, para os que, como eu, não têm descanso com essa história de glicemia. Ou, no mínimo, novos gadgets para se divertir, afinal ter diabetes também pode ser cool.

 

Para saber um pouco mais sobre diabetes e as diretrizes do tratamento no Brasil:

http://www.diabetes.org.br/sbdonline/images/docs/DIRETRIZES-SBD-2015-2016.pdf

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Um comentário sobre “Será que o pâncreas artificial já está entre nós?

  1. Pingback: Como uma nova tecnologia é disponibilizada no SUS? | cientistasfeministas

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