As bruxas queimadas após a Idade Média

A tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453 d.C. marca, na historiografia ocidental, a passagem da Idade Média à Moderna.

Sob intensa campanha demonizatória do período medieval, os renascentistas o apelidam “Idade das Trevas”, proclamando que todo e qualquer “atraso” no progresso da civilização ocidental não mais se repetiria.

Não foi bem o que aconteceu: a Idade Moderna assistiu a muitas atrocidades que chegaram mesmo à Contemporânea, convivendo tranquilamente com os “avanços” do capitalismo.

Entre essas atrocidades, uma ainda espanta medievalistas pela falta de precisão histórica: a muito difundida informação de que a “caça às bruxas” teria ocorrido na Idade Média, algo que uma simples olhada na Wikipedia desmente facilmente. Segundo essa enciclopédia pública e colaborativa:

“A caça às bruxas foi uma perseguição religiosa e social que começou no século XV e atingiu seu apogeu nos séculos XVI a XVIII principalmente na Alemanha, Escandinávia, Inglaterra, Escócia, Suíça e em menor escala na França, Península Ibérica, Itália e Império Habsburgo. O mais famoso manual de caça às bruxas é o Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras), de 1486.” (Fonte: Wikipedia, <Caça às Bruxas>)

Malleus_maleficarum

Fonte: Wikimedia (site)

Sobre o Malleus, as mais precisas observações talvez foram feitas na Literatura por ninguém mais, ninguém menos que o Nobel Eduardo Galeano. Nas suas palavras:

“O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos. (…). Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.” – Eduardo Galeano, Os demônios do demônio (Trad.: Geledés)

Cadu Ladeira e Beth Leite (2016), na revista Superinteressante, sobre os processos levados a cabo nesses tribunais, estimam que: “Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte.” (Superinteressante – 2016)

Nesse sentido, muito mais do que debater o sentido da comemoração do “Dia das Bruxas”, do que o dia 31 de Outubro realmente necessita é abandonar de vez a ideia – esta sim, ultrapassada – de que queimar gente na fogueira é coisa de gente “medieval” que ainda não chegou à “modernidade”.

Nossos modernismos possuem fantasmas o suficiente para exorcizar sem a menor necessidade dessa falsa nostalgia.


bibliografia complementar:

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. coletivo Sycorax: 2017. [site] / [PDF]

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2 comentários sobre “As bruxas queimadas após a Idade Média

    • Oi Pasquale,

      O trecho a que você se refere vem logo após o seguinte:

      “Sob intensa campanha demonizatória do período medieval, (…)”

      O único substantivo masculino nesse trecho é “período”, portanto é a ele que o pronome “o” se refere como objeto direto do verbo “apelidar”.

      Desculpe, todavia, se a construção frasal não primou pela clareza nesse trecho.

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