Nos braços da melatonina

 

Olha, pela primeira vez na história dos meus textos nesse blog, eu vou usar um adjetivo bastante controverso, mas não conheço outra forma de expressar meus sentimentos:

Dormir é top.

É topíssimo, é topperson, é top da alegria. Dormir é tão, mas tão top que várias culturas ao longo do tempo criaram divindades dentro de suas mitologias que seriam responsáveis por essa área das nossas vidas.

Os gregos atribuíram o sono ao deus Hipnos (e se você é velho de guerra lembra também que ele era brother do Hades em Cavaleiros do Zodíaco). Ele era um deus tão poderoso que foi considerado um daemons: um dos deuses que interferem no espírito dos mortais. Ele foi pai de Morfeu – deus dos sonhos bons, Ícelo – deus dos pesadelos (quando você sonha que voltou com seu ex, aquele embuste, pode colocar a culpa no Ícelo), Fântaso – criador dos objetos inanimados, monstros, quimeras e devaneios que aparecem nos sonhos e ficam na memória e Fantasia – única filha de Hipnos, gêmea de Fântaso, deusa dos delírios e fantasia.

 

Hipnos e seu filho Morfeu. Não, pera

Mas além de ser nota 10/10 dormir é um processo natural essencial para a manutenção saudável do nosso corpo. Mas por que então dormir é tão importante, tão delicinha, tão mara?

Por que está anoitecendo se eu não vou beijar seus lábios quando você se for?

Imagina só a cena. Uns muitos mil anos atrás a sua ta(ta)45852ravó que era uma mulher das cavernas tinha acabado de lutar com um bicho grande pra proteger a sua ta(ta)45851ravó, que ainda era bebê, bateu uma lombeira (no meu país Minas Gerais, quando bate um cansaço forte a gente chama de lombeira) e ela precisou dormir.

Aí você imagina essa situação, amiga. Imagina os omi daquela época, amiga. Que treta. Que vida dura. E vem comigo.

Dormir não era esse ato delicioso com lençol macio e pijama da Sonharte, não. Dormir era UM PERIGO. O indivíduo passava (e ainda passa, né?) horas INCONSCIENTE, totalmente vulnerável a ataques de predadores, sem condição de proteger a si mesmo, seus descendentes, sua comida e seus objetos. Mas ainda assim precisava dormir. Mas por que, gente? Que maldade.

Assim, pra falar a verdade mesmo ninguém bateu o martelo pra dar certeza. O que a gente sabe é que dormir é essencial para de alguma forma recuperar nosso corpo, inclusive o nosso cérebro.

Um dos processos químicos que acontecem durante o nosso sono é a quebra do ácido lático que produzimos ao longo do dia.

Ciclo de Cori

Seu fígado dando conta do ácido lático produzido ao longo do dia (Créditos da imagem: Mundo da Bioquímica)

Esse ácido é uma substância produzida normalmente pelo nosso corpo ao longo do dia. Se você assim como eu é crossfiteira, conhece bem a fadiga, as dores musculares e as cãimbras sentidas após um esforço físico intenso. Isso é o resultado da acidificação provocada pelo ácido láctico no músculo (abaixando o pH até 6,5). O pKa do ácido láctico é de cerca de 4, o que faz com que o pH das células (≈ 7) ou do plasma (≈ 7,4) provoque a dissociação do ácido láctico em lactato.

acido latico e lactato

Ácido lático e lactato: mais que amigos FRIENDS

Este acúmulo de H+ interfere na capacidade de contração das fibras musculares e vai também invadir a fenda sináptica (causando aquela dor que faz a gente querer nunca mais passar nem na porta da academia).

Mas dormir não é só pra evitar a dor, também tem seus prazeres e começam antes mesmo do sono propriamente dito.

Na janela lateral do quarto de dormir

Antes mesmo de começar a dormir, nosso corpo já começa a se preparar para esse momento de honra e glória. Um dos processos é a produção de melatonina. Essa princesa que é a verdadeira responsável pelas nossas noites de descanso.

1200px-Melatonin2.svg

– Deixa eu te fazer sonhar, sua linda

A melatonina (N-acetil-5-metoxitriptamina) é um hormônio natural, presente no organismo humano e é sintetizada a partir do triptofano. É derivada da serotonina após duas transformações enzimáticas que a acetilam e substituem o grupamento hidroxila pelo metóxi.

biosintesis-melatonina

Síntese de melatonina a partir do Triptofano (Creditos da imagem: http://nutracosmeceuticos.blogspot.com.br/2012/05/la-psiconeuroinmunoendocrinologia-y-la.html)

A melatonina é produzida pela glândula pineal e não está sujeita a mecanismos de retroalimentação. Assim a sua concentração plasmática não regula sua própria produção. Pra ficar ainda mais fácil de entender: não é porque você está com altas quantidades de melatonina no corpo que ele vai parar de produzir mais melatonina. Não vai. Ele vai continuar produzindo até você criar juízo e ir dormir.

Nunca mais eu vou dormir, nunca mais eu vou dormir

Que dormir é um negócio maravilhoso, eu já provei. No entanto tem gente que não consegue dormir direito, o que é muito triste.

A FAPESP divulgou em 2008 uma pesquisa publicada na edição do Journal Sleep que trazia a primeira demonstração de uma anormalidade neuroquímica específica em adultos com insônia primária. O estudo identificou uma redução de 30% nos níveis de ácido gama-aminobutírico, neurotransmissor que induz a inibição do sistema nervoso central, em indivíduos que sofrem de insônia primária há mais de seis meses.

Esse ácido gama-aminobutírico é esse galã aí embaixo, carinhosamente apelidado de GABA pelos parças:

GABA

– Não quero me GABAr, mas sem mim você nem dorme, gatinha

Uma pesquisa linda & maravilhosa realizada na universidade de Boston em 2007 mostrou que uma hora de yoga por dia é capaz de aumentar de forma significativa os níveis de GABA no organismo humano, diminuindo o stress e os transtornos do sono.

Eu sei que durante nossos anos de estudante, acabamos dormindo muito pouco. Mas o sono é essencial para o seu cérebro continuar funcionando, então TEM QUE DORMIR. Tome um banho quentinho, coloque um incenso pra perfumar seu quarto, apague as luzes e deixe-se, literalmente, a química rolar.

 

 

Referências

  1. SIEGEL, J.; HUITRON-RESENDIZ, Salvador; HYPNOS, Club. The evolution of sleep. Encyclopedia of sleep, v. 1, 2013.
  2. FLEMONS, W. W. et al. Sleep-related breathing disorders in adults: recommendations for syndrome definition and measurement techniques in clinical research. Sleep, v. 22, n. 5, p. 667-689, 1999.
  3. MAQUET, Pierre. The role of sleep in learning and memory. Science, v. 294, n. 5544, p. 1048-1052, 2001.
  4. CAJOCHEN, C.; KRÄUCHI, K.; WIRZ‐JUSTICE, A. Role of melatonin in the regulation of human circadian rhythms and sleep. Journal of neuroendocrinology, v. 15, n. 4, p. 432-437, 2003.
  5. BRYANT, Penelope A.; TRINDER, John; CURTIS, Nigel. Sick and tired: does sleep have a vital role in the immune system?. Nature Reviews Immunology, v. 4, n. 6, p. 457-468, 2004.
  6. IRWIN, Michael R.; OPP, Mark R. Sleep health: reciprocal regulation of sleep and innate immunity. Neuropsychopharmacology, 2016.

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