Malária de macacos infectando humanos na Mata Atlântica

Em recente estudo publicado na revista The Lancet por pesquisadores brasileiros relataram casos de pacientes infectados por Plasmodium simium, um parasita que causa malária em macacos dos gêneros Alouatta e Cebus, em regiões de Mata Atlântica (Brasil et al. 2017).

bugio

Alouatta guariba, popularmente conhecido como bugio-ruivo. Foto: Everton Gonçalves.

A malária é uma doença parasitária causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido aos seres humanos, obrigatoriamente, através da picada de fêmeas de mosquitos Anopheles infectadas (World Health Organization 2014). A transmissão de malária no Brasil ocorre quase que exclusivamente na região amazônica do país, porém existe um número consistente de casos autóctones¹ sendo reportados nas regiões sul e sudeste,  onde se acreditava que a doença já havia sido eliminada há 50 anos.

A malária que ocorre fora da região amazônica é nomeada malária-bromélia. A doença recebe esse nome porque o vetor que a transmite, Anopheles cruzii, ocorre associado a essas plantas, e utilizam a água retida em suas axilas como criadouro para suas formas imaturas. Essa espécie de mosquito costuma ser amplamente encontrada em regiões de Mata Atlântica, bioma que é rico em bromélias (Pina-Costa et al. 2014).

bromelia

Bromélia com água retida em suas axilas

Entre os anos de 2006 e 2016, 1032 casos autóctones de malária foram registrados em regiões de Mata Atlântica (Ministério da Saúde, 2017). Nestes locais, a maioria dos casos reportados de malária é atribuída ao parasita Plasmodium vivax, conhecido parasita causador da malária em humanos.

Porém, no ano de 1966 ocorreu um único caso de malária causada por Plasmodium simium* em humanos. Neste estudo, Deane e colaboradores descreveram a infecção de um homem com Plasmodium que foi considerado ser Plasmodium simium, por causa das características morfológicas do parasita e porque a infecção ocorreu em uma reserva florestal de São Paulo, local onde havia transmissão ativa de malária entre macacos (Deane and Ferreira Neto 1966).

Segundo a hipótese de Deane e colaboradores (1966), os macacos bugios da Mata Atlântica servem como espécies reservatórias de Plasmodium, sendo que este é transmitido aos seres humanos através da picada de mosquitos Anopheles cruzii. Essa espécie é conhecida por fazer repasto sanguíneo (alimentar-se de sangue) em primatas não-humanos nas copas das árvores e em humanos no nível do solo.

Nos anos de 2015 e 2016 foram notificados 49 casos autóctones de malária em pessoas vivendo próximas a fragmentos de Mata Atlântica no Rio de Janeiro. Todos os casos foram diagnosticados como sendo causados por Plasmodium vivax. Porém, o estudo de Brasil e colaboradores (2017) mostrou uma realidade diferente.

Os pesquisadores envolvidos no estudo investigaram amostras de sangue de pacientes do Rio de Janeiro que apresentavam sintomas de malária, assim como amostras de sangue de macacos bugios locais, e as compararam por microscopia e técnicas moleculares.

No mesmo estudo, também foi criado um teste molecular baseado no genoma dos parasitas P. vivax e P. simium para distingui-los. O teste foi realizado em amostras de 33 pacientes acometidos no surto de malária que ocorreu previamente, em 2015 e 2016.

Quarenta e nove casos autóctones de malária foram notificados entre 2015 e 2016 no Estado do Rio de Janeiro. A maioria dos pacientes eram homens com idade média de 44 anos, viviam em áreas urbanas do Rio de Janeiro e visitaram a Mata Atlântica por lazer, ou por atividades relacionadas ao trabalho.

Das 33 amostras de sangue testadas para distinção dos parasitas, 28 amostras foram sequenciadas com sucesso e mostraram resultados positivos para Plasmodium simium, indicando que há transmissão zoonótica de malária nessa região. Os resultados encontrados neste estudo sugerem que os surtos de malária ocorrendo nessa região foram causados por P. simium, previamente considerado um parasita específico de macacos.

Exemplificação do ciclo de malária de Mata Atlântica

 

ciclo

tradução livre: “em certas condições, Anopheles cruzii pode picar na copa das árvores e perto do solo, comportamento que pode favorecer a transmissão de plasmódios de símios para humanos em locais próximos a fragmentos de florestas” (Pina-Costa et al. 2014)

O ciclo da malária de Mata Atlântica ainda gera dúvidas aos pesquisadores. Há evidências de infecção subclínica de Plasmodium, ou seja, infecção na qual os doentes não apresentam sintomas da doença. Esse comportamento da doença pode indicar que a dinâmica da malária pode ter atingido um nível de transmissão “sustentável”, sem causar morbidade³ e sem afetar a sobrevivência de hospedeiros, reservatórios e vetores (Sallum et al. 2014).

Além da infecção subclínica, a transmissão zoonótica de malária ocorrendo em locais de Mata Atlântica e próximos a locais urbanos possuem consequências imediatas para a saúde pública nesta região, e para o futuro controle e eliminação de malária no Brasil. Os órgãos de saúde competentes devem avaliar estas regiões para saber a extensão do problema da malária zoonótica.

Assim como a febre amarela, uma doença zoonótica estabelecida, na qual os macacos são reservatórios de seu agente etiológico, a malária zoonótica pode se transformar em um grande problema de saúde pública.

¹Autóctones – natural da região onde se encontra

²Plasmodium simium – protozoário responsável por causar malária especificamente em macacos símios.

³Morbidade – pessoas consideradas doentes, ou seja, que apresentam sintomas da doença.

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Referências

Brasil P, Zalis MG, de Pina-Costa A, Siqueira AM, Júnior CB, Silva S, et al. Outbreak of human malaria caused by Plasmodium simium in the Atlantic Forest in Rio de Janeiro: a molecular epidemiological investigation. Lancet Glob Heal. 2017 Oct;5(10):e1038–46.

Deane LM, Ferreira Neto J. Studies on transmission of simian malaria and on a natural infection of man with Plasmodium simium in Brazil. Bull World Health Organ. 1966;35(5):805–8.

Pina-Costa A, Brasil P, Di Santi SM, de Araujo MP, Suárez-Mutis MC, Santelli ACF e S, et al. Malaria in Brazil: what happens outside the Amazonian endemic region. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2014;109(5):618–33.

Sallum MA, Daniel-Ribeiro C, Laporta G, Ferreira-da-Cruz M, Maselli LM, Levy D, et al. Finding connections in the unexpected detection of Plasmodium vivax and Plasmodium falciparum DNA in asymptomatic blood donors: a fact in the Atlantic Forest. Malar J. 2014;13(1):337.

World Health Organization – WHO. Malaria. 2014.

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