Lina Stern, neurofisiologista e bioquímica, que nos apresentou melhor o nosso próprio cérebro

Lina Stern nasceu na Rússia, em 26 de agosto de 1878, uma dos sete filhos de um mercante da província de Kurland. Ainda jovem decidiu ser médica, e declarou que sua atração era pela filantropia e não pela ciência, em um primeiro momento. Tentou por dois anos ingressar na Universidade de Moscou, no entanto, isso não era algo alcançável para uma mulher de sua classe social, por isso deixou a Rússia e foi estudar na Suíça, sendo aceita na Universidade de Genebra. Nesse período, a Universidade de Genebra era conhecida por seu liberalismo, e grande parte dos estudantes eram estrangeiros. Em 1900, quase 50% dos alunos eram russos, e na comunidade científica suíça as mulheres eram muito mais bem aceitas do que em outros países nessa mesma época. Ainda na graduação começou a trabalhar no departamento de neurofisiologia, que seria a área pela qual se tornaria reconhecida internacionalmente. Lina Stern é conhecida por descobrir e descrever a estrutura da Barreira-hematoencefálica, estrutura diferenciada dos capilares do Sistema Nervoso que protegem o nosso cérebro, dificultando o acesso de substâncias estranhas a ele.

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Lina Stern no Laboratório de Fisiologia da Universidade de Genebra.

Lina desenvolveu em conjunto com outros pesquisadores de sua época muitos estudos inovadores em fisiologia, incluindo a descrição de descargas elétricas das células cardíacas, mecanismos do sistema nervoso central e autônomo e a fisiologia do sangue. Durante o período de 1904 à 1922, Lina trabalhou com Frédéric Batelli, publicando 54 artigos sobre enzimas respiratórias. Seus estudos foram determinantes para que, 20 anos depois, Adolf Krebs pudesse elucidar toda a rota da respiração celular, consagrando o conhecido (e temido pelos estudantes!) Ciclo de Krebs. O próprio Krebs reconheceu isso, ao receber o prêmio Nobel em 1953. A partir de 1906 se dedicou intensamente a atividade docente, se tornando a primeira professora mulher da Universidade de Genebra.

Lina começou a centrar seus estudos no conhecimento do Sistema Nervoso, e seu primeiro avanço nessa área foi a descrição de funções do nosso cerebelo, região reconhecida do encéfalo como centro do equilíbrio e dos movimentos voluntários, e também dedicou muito tempo ao estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR ou líquor) que envolve a medula e o cérebro e age como protetor e lubrificante de todo o sistema. As observações de Lina e de outros cientistas sobre as diferenças de concentrações de substâncias no LCR e no sangue, fizeram a cientista pensar em como esses compartimentos eram mantidos tão bem isolados, enquanto o sangue é denso, vermelho e com alta concentração de proteínas e células, o líquor é límpido, incolor, com baixa densidade celular e baixa concentração de proteínas. Em 1921, Lina inseriu o termo “blood-brain barrier” (BBB), ou no português, barreira-hematoencefálica (BHE), sugerindo que essa barreira era a responsável por estabelecer as diferenças entre o sangue e o líquor, e também contribuía para a homeostase do tecido cerebral. Ela desenvolveu estudos pioneiros com animais recém-nascidos demonstrando a imaturidade da barreira-hematoencefálica e sua contribuição na segurança de fármacos, sendo convidada a se tornar consultora científica de uma grande indústria farmacêutica.

Apesar da prosperidade e da carreira conquistada na Suíça, Lina acreditava que era mais necessária em seu próprio país. Lina retornou a sua terra natal, então chamada de União Soviética, em 1924 foi convidada a assumir uma cadeira de fisiologia na Segunda Universidade Estadual de Moscou. Lina se dedicou inteiramente ao desenvolvimento da ciência, ministrando os cursos de fisiologia e bioquímica, e trabalhando em dois laboratórios de pesquisa, sendo que publicou nesse período 49 artigos em revistas russas, francesas e alemãs. Em 1929, se tornou diretora do Instituto de Fisiologia da Rússia, apresentando ao mundo, de forma completa, seus estudos sobre a barreira-hematoencefálica.

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Representação esquemática da BHE e foto de Lina Stern em 1929, dos arquivos do Instituto Smithsonian.

Lina nunca quis desacelerar sua carreira. Ela estudou como o estresse, a privação de sono, atividade física e o uso de fármacos interferia na barreira-hematoencefálica e como isso afetava a função cerebral, fazendo grande avanços em neuroendocrinologia, respostas imunes e inflamatórias no sistema nervoso, metabolismo de drogas e neurotoxicidade. Em 1934 recebeu título de “Distinta Cientista da União Soviética” e como prêmio, um carro! Em 1939, foi eleita membro da Academia de Ciências, tornou-se editora-chefe de uma revista científica e recebeu o título de “Eminent Woman of Europe”.

Em 1950, Lina, com então 71 anos, e outros cidadãos russos, foram presos, acusados de espionagem para os Estados Unidos, e ela passou 3 anos e 8 meses, em condições desumanas e sofrendo tortura, na prisão. Muitos dos companheiros de Lina foram executados, e ela foi condenada ao exílio no Cazaquistão, onde passou apenas dez meses, em razão da morte de Stalin, o que atenuou sua pena.

Durante sua prisão, Lina pedia aos guardas papel e canetas e continuou escrevendo suas ideias e hipóteses sobre a barreira-hematoencefálica e o desenvolvimento do cérebro, e com 76 anos, após o exílio, continuou suas pesquisas. Ela faleceu em 1968, após uma vida de muito trabalho, contribuindo de forma incalculável para o avanço da neurofisiologia.

Referências:

Levent Sarikcioglu. Lina Stern (1878–1968): an outstanding scientist of her time. Childs Nerv Syst (2017) 33:1027–1029;

Alla A. Vein. Science and Fate: Lina Stern (1878–1968), A Neurophysiologist and Biochemist. Journal of the History of theNeurosciences: Basic and Clinical Perspectives. 2008.

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