“Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

“- Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico.”(Afonso Cruz in “O cultivo das flores de plástico”, p. 53)

Sim. Andamos a regar flores de plástico e por isso não cheiram a coisas boas. Andamos a regar as mesmas flores de plástico desde a segunda década do século vinte. Regamo-las com o saudosismo de um Império que usurpamos e nunca foi, nem Império, nem nosso, com o orgulho dos heróis que não o sendo, morreram como se o fossem, com o respeito por uns “descobrimentos” que nunca foram descobertas, mas sim chegadas, com a negação das barbaridades cometidas contra o povo negro e indígena, em nome de uma ambição individual e colectiva desmedida, com a ilusão de que “nós, portugueses”, em nome de Deus e do Império, fomos os benfeitores que levamos a cultura, educamos e convertemos, quando na realidade aculturamos, escravizamos, torturamos e chacinamos povos inteiros que possuíam a sua própria cultura, religião e educação. Sim, andamos a regar flores de plástico, porque não discutimos publicamente o período da colonização e porque os programas das escolas públicas continuam a falar dos “descobrimentos”, dos bondosos e valentes heróis portugueses, que não são nem nunca foram racistas e apenas beneficiaram as colónias e o mundo.

racismo

Capa do livro “Racismo em Português, O lado esquecido do colonialismo”

Mas existem excepções, há quem se recuse a regar flores de plástico e procure aquilo que é real, autêntico, na esperança que um dia o nosso pequeno país (Portugal) cheire mesmo a coisas boas. É o caso da Joana Gorjão Henriques que, para além de desconstruir todos os absurdos que se apontaram anteriormente, deu voz a quem não a tinha na sua obra “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo” (Tinta da China), publicado em Portugal em Junho de 2016 e no Brasil em Julho do corrente ano, na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Esta obra é o resultado de cinco reportagens e mais de cem entrevistas nos cinco países africanos colonizados por Portugal: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique. O objectivo principal do livro é perceber se existiu ou não racismo durante a colonização portuguesa e revelar as marcas deixadas pelos portugueses nos territórios ocupados. A autora ouviu o outro lado da história colonial, o africano, e ficou claro que o racismo é fruto da relação colonial. Até aos dias de hoje, a discriminação nas antigas colónias, não é mais do que a reprodução de tudo o que foi feito e transmitido pelos portugueses brancos. O facto deste livro ser de jornalismo de investigação, faz dele o instrumento ideal para todos aqueles que possuem uma visão crítica sobre o colonialismo e pós-colonialismo, tanto no meio académico, como na sociedade civil, uma vez que aborda os assuntos de forma profunda, mas acessível.

Já em 1963, Charles R. Boxer tinha desmistificado a ideia surreal que surge constantemente nas discussões sobre o colonialismo português, de que muitos portugueses acreditavam convictamente que o seu país não tolerava discriminações raciais nas suas colónias e que existia um ameno convívio entre todos os seus habitantes [1]. Se este discurso ainda hoje persiste, são resquícios “salazarentos [2]” de um regime ditatorial imperialista, nacionalista com ideais de autarcia que via as colónias como as suas “jóias da coroa”. Sabe-se que foram escravizados e mortos milhares de negros e que foram massacrados, saqueados e humilhados outros tantos indígenas. Na verdade, para nós, os “desenvolvidos” e “sofisticados” colonizadores, os nativos africanos e indígenas não passavam daquilo que nós tínhamos sido no passado, animais em estado de evolução, que teriam que ser educados, formados, civilizados e aculturados. Instaurou-se, desta forma, o domínio e a exploração sobre esta população, usando a força, que sempre é o melhor meio para demonstrar e impor a nossa grande superioridade cultural em termos económicos, científicos e culturais. Como é evidente, este projecto colonizador impiedoso e espoliador necessitava de uma máscara que o fizesse passar por ilustre e benemérito e passaram a vender a ideia de que os seus objectivos primordiais eram “civilizar”, “evangelizar”, “educar”, “levar a paz” e “cuidar” dos indígenas e negros que até se terem cruzado com estes “bons samaritanos, salvadores das suas tribos e nações” eram uns “animais que praticavam costumes bárbaros de escravidão, canibalismo e sacrifícios humanos”. Os colonialismos impulsionados pela ideia de superioridade dos povos ocidentais tinham como único alvo a assimilação, ou seja, no nosso caso, “aportuguesar” os colonos. É necessário que tudo isto se diga e se diga bem alto, que se debata, que se analise e que se assumam responsabilidades até porque essa é a única forma de lutar contra o eurocentrismo – cultura que se apresenta como universal no sentido que propõe ou impõe, de alguma forma, a todos os povos a imitação do modelo ocidental como única solução aos desafios do nosso tempo [3]. Esta cultura parte do princípio que a modernidade que caracteriza o Ocidente é, sem dúvida, a única que realmente importa e, como tal, todas as outras formas posteriores de modernidade desenvolvidas ou que o poderão vir a ser noutras partes do globo terrestre são, com toda a certeza, ou o resultado da disseminação do centro (Ocidente) para as periferias ou não possuem interesse nenhum. A este nível, existem depoimentos tão ridículos que parecem anedóticos. João Carlos Silva conta na obra da Joana Gorjão Henriques que em São Tomé e Príncipe:

Os nossos professores mandavam fazer redacção sobre os frutos. E os frutos que nós conhecíamos eram: manga, cajamanga, mamão, abacate, jaca, anona… Mas se puséssemos esses frutos os professores riscavam, tínhamos de pôr uvas, maçã, pêra, coisas que nunca tínhamos visto. Era uma espécie de negação que levava a negarmos a nossa própria cultura [4].

Para Blaut [5] esta cultura que caracteriza como um “conjunto de crenças” desenvolveu-se no século XIX no colonialismo europeu e ganhou força com a hegemonia dos Estados Unidos da América que se verificou no século XX. Nestas crenças não entram ideias de que o Ocidente poderia alguma vez ter ido buscar, ou aprender alguma coisa com as sociedades africanas, indígenas, islâmicas, chinesas e outras. Aliás, é de todo, inacreditável que necessitasse de o fazer, uma vez que o Ocidente é muito mais desenvolvido que todas as outras sociedades e porque possui características intrínsecas que lhe permitiram o grande desenvolvimento do período da modernidade.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos finais dos anos oitenta assistimos a um período de descolonização que assumiu diversas formatos, conforme as políticas dos colonizadores. O que importa aqui ressaltar é que os movimentos anti-coloniais ou movimentos de libertação apenas conseguiram a independência dos países, mas perpetuaram as estruturas de relações de poder e práticas coloniais, como muito bem salienta Killa-Z de São Tomé e Príncipe, no seu depoimento em “Racismo em Português…”:

Temos uma independência política, mas em muitos casos foi feito copy-paste da Europa para cá. Quando África se afirmar no seu todo vai-se fazer a reviravolta da história – de certeza que isso é uma das grandes preocupações dos países de primeiro mundo que preparam os destinos de África para que eles fiquem sempre assim [6].

Segundo Krishna, designa-se este fenómeno de “ansiedade pós-colonial [7]” e caracteriza-se pela intenção por parte das elites estatais e intelectuais e pelas classes média e alta dos países periféricos de construírem os seus Estados (passado, presente e futuro) à semelhança de outros locais que constituem o modelo, no Ocidente, ou melhor dizendo, na Europa. A colonialidade do poder e do saber geradas no colonialismo persistiram, fazendo perdurar a condição subalterna das sociedades dos países colonizados, como Boaventura de Sousa Santos [8] e Anibal Quijano [9]  tão bem demonstram nas suas investigações.

Os negros e os indígenas são os Outros diferentes e ocupam os lugares inferiores na hierarquia. A descolonização, na realidade, não ocorreu porque se perpetuou a dominação dos descendentes dos colonizadores e porque os direitos dos negros e dos indígenas continuam a ser negados, como tão bem é relatado no “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

[1] Boxer, Charles R.. “Race Relations in the Portuguese Colonial Empire (1415-1825)”. London: Oxford University Press, 1963.

[2] Referência a apoiantes do regime ditadorial “Estado Novo” de António de Oliveira Salazar que durou de 1933 a 1974.

[3] Amin, Samir. Eurocentrismo: crítica de uma ideologia. Lisboa: Dinossauro, 1994.

[4] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 160.

[5] Blaut, J. M.. The Colonizer’s Model of the World: Geographical Diffusionism and Eurocentric History. New York: Guilford Press, 1993.

[6] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 145.

[7] Krishna, S.. Postcolonial Insecurities: India, Sri Lanka, and the Question of Nationhood. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.

[8] Santos, Boaventura de Sousa. “Boaventura: a Europa será capaz de aprender?” [online]. Outras Palavras, 6 de Março de 2017. < http://outraspalavras.net/destaques/boaventura-a-europa-sera-capaz-de-aprender/&gt;. [6 março 2017].

[9] Quijano, Aníbal. “La colonialidad del poder: eurocentrismo y América Latina”. In Edgardo Lander (ed.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas, Buenos Aires: Clacso, 2000.

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s