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Projeto em universidade visa trazer mais meninas para as áreas de exatas e tecnologias

É notável que as áreas de exatas e tecnologias sejam praticamente dominadas por homens. Dado a este cenário, um projeto desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul (UCS-RS) tem por intuito mudar esse panorama. Intitulado “Engenheiros do Futuro”, o projeto atua no ensino médio de escolas da região, buscando trazer mais jovens para as áreas de exatas, em especial as engenharias. Atuando desde 2007, o projeto possui apoio da Universidade de Caxias do Sul e das agências de fomento MCTIC/FINEP/FNDCT. Dentro desse projeto, uma das vertentes é o subprojeto intitulado Encorajando meninas na ciência e tecnologia. Ele incentiva meninas no ensino médio a escolherem carreiras nas áreas de engenharia, mostrando de forma divertida que a área das exatas não é um bicho de sete cabeças.

Segundo a Professora Valquíria Villa Boas, coordenadora do projeto, “A Engenharia é uma profissão dominada pelos homens. Apesar das diferenças dos números relativos à presença das mulheres em Engenharia nos diferentes países, de modo geral, a caracterização e concepção da Engenharia como uma profissão masculina ainda é senso comum. Nas últimas décadas, o pequeno número de estudantes de Engenharia do sexo feminino, bem como de engenheiras atuantes no mercado de trabalho no mundo, tem sido motivo de debate para os estudiosos que se preocupam com as questões de gênero e com a importância da participação feminina em Ciência e Tecnologia (C&T)”.

No Brasil, o processo de inserção das mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas ocorreu nas mesmas proporções que em outros países do mundo, entretanto, durante boa parte do século XX ainda havia um grande preconceito questionando aptas ou até mesmo capacidade intelectual das mulheres para atuarem nas carreiras científicas. Apesar do enorme avanço ocorrido na C&T nas últimas décadas do século XX, neste início de século XXI, e das profundas transformações do status jurídico da mulher e de sua condição social, as carreiras científicas e tecnológicas não passaram a constituir uma prioridade para as estudantes que concluem o ensino médio.

De acordo com o relatório anual da UNESCO, A porcentagem de  mulheres trabalhando em pesquisa e desenvolvimento para o ano de 2014  :

  • 28,8% para o mundo;
  • 39,9% para os Estados Árabes;
  • 39,6% para a Europa Central e Oriental;
  • 47,2% para a Ásia Central;
  • 22,9% para a Ásia Oriental e o Pacífico;
  • 44,7% para a América Latina e o Caribe;
  • 32,2% para a América do Norte e Europa Ocidental;
  • 19,0% para Ásia do Sul e Oeste;
  • 30,4% para África subsaariana.

Apesar de estarmos em 2017, os dados ainda são impactantes, o que mostra a necessidade de incentivar a participação das mulheres nas áreas de exatas e tecnologias.

Segundo a Professora Valquíria Villas Boas há expectativas para a ampliação do projeto a nível nacional para os próximos anos: “Estamos na 8ª edição do Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia, e com certeza temos interesse em continuar a oferecer esta atividade do Programa ENGFUT. E quanto a ampliar o projeto a nível nacional, é uma ambição que pode se concretizar, pois desde dezembro de 2016, eu faço parte da diretoria da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e umas das minhas tarefas junto à ABENGE é promover ações junto a escolas de Educação Básica. Assim sendo, o Encorajando Meninas em Ciência e Tecnologia pode vir a ser uma das atividades a ser disseminada entre as universidades brasileiras. Vale mencionar que em 2013, o CNPq lançou uma chamada pública (MCTI/CNPq/SPM-PR/Petrobras nº 18/2013) intitulada Meninas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Esta chamada pública permitiu que várias universidades brasileiras propusessem atividades para incentivar meninas a ingressarem em carreiras científicas e tecnológicas.” Contudo, foi observado que ao término do projeto a maioria das universidades brasileiras não deram continuidade atividades. Enquanto isso, o projeto desenvolvido em Caxias do Sul está na sua 8ª. edição anual, e se depender da Professora Valquíria irá perdurar por muitos anos.

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Projeto” Encorajando Meninas na Ciência e Tecnologia”, liderado pela professora Valquíria Villas Boas na Universidade de Caxias do Sul-RS. Fonte: Universidade de Caxias do Sul-Acervo

Dados do projeto

  • 4 Docentes atuantes: Valquíria Villas Boas-coordenadora, Odilon Giovannini, José Arthur Martins e Rejane Rech;
  • Número de escolas atendidas = 29;
  • Números de alunos que passaram pelo projeto (durante os 7 anos) = 320.

Referências:

http://www.ucsminhaescolha.com.br/noticias/122/programa-encorajando-meninas-inicia-oficinas-em-agosto

http://uis.unesco.org/sites/default/files/documents/fs43-women-in-science-2017-en.pdf

http://www.abenge.org.br

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Criptococose: uma doença fúngica que precisa de atenção

Era 2 setembro de 2016 e o Hospital São José do Avaí, no Rio Janeiro, realizava os atendimentos como de costume, até que o paciente Sérgio* deu entrada se queixando de dores na região torácica e na cabeça. Uma semana após a internação, ele piorou: teve insuficiência respiratória e perda do nível de consciência. Depois de uma bateria de exames e por ser ex-tabagista, suspeitou-se de câncer de pulmão ou tuberculose. O que a equipe médica não sabia é que, na verdade, a causa da doença do sr. Sérgio era um fungo do gênero Cryptococcus.

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Levedura de Cryptococcus neoformans observada ao microscópio. Disponível aqui.

Cryptococcus é o gênero de um fungo distribuído mundialmente e que, em ambientes naturais, é encontrado principalmente em árvores, como eucalipto, e em excretas de aves, especialmente pombos. Ele tem formato de levedura e é caracterizado pela presença de uma cápsula polissacarídica que envolve toda a sua célula (halo observável na figura), cuja função é impedir a fagocitose por células do sistema imune do hospedeiro. Esse fungo foi primeiramente descrito por pesquisadores alemães e italianos em 1894, mas somente foi reconhecido como uma grande ameaça à saúde com o início da pandemia da AIDS na década de 1980. São duas espécies de Cryptococcus, C. neoformans e C. gattii,  que causam uma das mais sérias doenças fúngicas do mundo, a criptococose.

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Ciclo de Infecção por Cryptococcus. Disponível no link, com adaptação.

A criptococose acomete animais silvestres e domésticos, principalmente cachorros e gatos, e humanos. É uma doença oportunista que ocorre majoritariamente em indivíduos imunocomprometidos, como os portadores de HIV, pacientes submetidos à quimioterapia ou pacientes transplantados tratados com imunossupressores. Todavia, também pode acometer pessoas com o sistema imunológico normal, como ocorreu no grande surto de infecções por Cryptococcus gattii, no final da década de 90, na ilha de Vancouver, no Canadá.

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Radiografia de tórax de Sérgio. Disponível em GENTIL et al., 2016.

Durante a realização dos exames de Sérgio, uma radiografia de tórax evidenciou a presença de uma massa no lobo inferior do pulmão direito do paciente. De fato, a infecção por Cryptococcus se dá pelas vias respiratórias, por meio da inalação de partículas infecciosas. O fungo então se aloja nos alvéolos pulmonares, onde pode se proliferar. A criptococose afeta, assim, inicialmente os pulmões, onde a infecção pode ser erradicada ou contidas num glanuloma ou, ainda, disseminada para o resto do corpo. Em hospedeiros imunocompetentes, a maioria das infecções primárias são assintomáticas e erradicadas. O desenvolvimento ou não da doença dependerá da resposta do sistema imune do hospedeiro: pode se tornar latente com o patógeno contido em glanulomas (podendo, entretanto, ser reativada depois se estabelecido um quadro de imunossupressão), ou evoluir para a sua forma aguda. O quadro clínico mais grave da criptococose se dá ao atingir o sistema nervoso central, causando a meningite criptocócica. Isso pode justificar as dores de cabeça das quais Sérgio se queixava.

Infelizmente, após uma parada cardiorrespiratória, o paciente não resistiu. Sr. Sérgio foi um dos 625 mil casos de mortes, dentre os um milhão de casos de criptococose que ocorrem a cada ano, especialmente em países em desenvolvimento.  A grande dificuldade de um diagnóstico rápido e adequado é um dos empecilhos para a erradicação deste patógeno, uma vez que os sintomas da criptococose (tais como as dores torácicas e na cabeça, e insuficiência respiratória apresentadas por Sérgio) são facilmente confundidos com de outras doenças.

Recentemente, houve um grande avanço no combate da criptococose: o desenvolvimento de um teste rápido que, além de permitir o diagnóstico precoce, é de baixo custo e, portanto, acessível. Esforços como este têm sido realizados por pesquisadores de todo o mundo, inclusive pelo grupo de pesquisa da Universidade de Brasília do qual faço parte , para cada vez mais conhecermos a biologia desse fungo e desenvolvermos, assim, alternativas terapêuticas e de prevenção.

*Nome fictício.

PRINCIPAIS REFERÊNCIAS:

DOERING. How does Cryptococcus get its coat? Trends Microbiology, 8(12). 2000.

GENTIL et al. Criptococose: Relato de Caso. Acta Biomedica Brasiliensia, 7 (2). 2016.

MAY et al. Cryptococcus: from environmental saprophyte to global pathogen. Nature Reviews Microbiology, 14(2). 2016.

 

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Origem da vida e os desentendimentos entre Ciência e Religião

Você provavelmente já se perguntou várias vezes como a vida começou. Esse é um questionamento que muitas pessoas possuem e causa um grande debate entre ciência e religião.

Ciência e religião utilizam abordagens distintas para explicar a realidade. Para nós, cientistas, a forma como tentamos entender o mundo natural é aplicando o método científico. Isso quer dizer que, a partir de experimentação e observação dos eventos naturais ao longo dos anos, nós formulamos hipóteses que podem ser confirmadas ou refutadas.

Sabemos que o Homo sapiens é uma espécie bem curiosa e essa curiosidade nos ajudou a sobreviver ao longo dos anos, pois modificamos o nosso entorno como nenhuma outra espécie, utilizando a nossa capacidade de observação do ambiente e da experimentação. Com o passar do tempo, melhoramos o nosso entendimento sobre o mundo natural e aperfeiçoamos as formas de transmitir esse conhecimento entre as gerações. Assim, nós sobrevivemos e nos multiplicamos. E como multiplicamos! Somos 7,5 bilhões e continuamos contando. Por conseguinte, com a formação das diversas sociedades em diferentes locais do planeta Terra, utilizamos a nossa observação e imaginação para responder as nossas curiosidades e dúvidas mais basais, como: qual é a nossa origem? Qual é a origem da vida?

Penso que a ideia por trás dessas perguntas talvez esteja associada ao fato de que, sabendo a origem, talvez encontremos um motivo para a nossa existência. Assim, centenas de religiões e crenças oferecem as respostas para esses anseios da nossa espécie. Seguindo essa lógica, nós sempre praticamos ciência. Nós sobrevivemos por conta da ciência e, ao mesmo tempo, utilizamos a nossa abstração do mundo natural para criar religiões e, em muitas delas, obter o conforto para as nossas perguntas. Porém, a ciência aplicada à sobrevivência – como práticas agrícolas, contar o tempo, cozinhar os alimentos e explorar o mundo natural – sempre foi permitida. Mas à medida que a nossa curiosidade foi aumentando e o caminho da ciência começou a cruzar com o da religião historicamente estabelecida, as coisas mudaram de configuração.

Com o passar dos anos, religião e moral se tornaram um bloco único e passaram a atuar como organizadores sociais. Assim, a expansão do conhecimento científico se tornou algo considerado perigoso, pois as respostas que a experimentação científica nos trouxe começaram a ameaçar interesses religiosos e, com isso, abalaram também os fundamentos de uma ordem social, majoritariamente religiosa. Por outro lado, como o progresso científico sempre trouxe mais conforto para o ser humano, a ciência também era vista como algo bom, desde que estivesse aprisionada em uma caixinha de só prover produtos. As outras áreas do conhecimento como o campo social, político e moral sempre foram reservadas, e continuam sendo nos dias atuais, obrigatoriamente à religião.

Por outro lado nós, cientistas, enfrentamos os bloqueios ao longo dos séculos para expandir o nosso conhecimento sobre o mundo. Com isso, mais cedo ou mais tarde, chegamos nas fronteiras da nossa caixinha científica, sendo que, agora, temos respostas para muitas dúvidas que antes eram atribuídas a uma criação divina. Para começar a citar essas descobertas, é impossível não lembrar de Darwin que presenteou a humanidade com o livro “A origem das espécies”. Nos dias de hoje, até o representante de uma das maiores religiões mundiais (o papa) de alguma forma aceita a ideia da evolução. A outra novidade é que agora estamos muito próximos de outra descoberta: a explicação sobre a origem da vida. Os cientistas estão a cada ano mais empenhados em solucionar essa questão e possuem alguns experimentos que comprovam esses dados. Vamos lá!

Atualmente, os fósseis mais antigos conhecidos têm cerca de 3,5 bilhões de anos, 14 vezes a idade dos primeiros dinossauros [1]. Porém, em agosto de 2016, pesquisadores descobriram registros fósseis na Austrália de uma comunidade de microorganismos, chamados de estromatólitos [2], que datam 3,7 bilhões de anos. Outro estudo ainda mais recente, em março de 2017, mostra evidências de vida na Terra há aproximadamente 4,28 bilhões de anos. Lembrando que a Terra em si não é muito mais antiga: os cálculos mais aceitos revelam que o nosso planeta foi formado há 4,5 bilhões de anos, isso quer dizer que a vida na Terra teve origem muito cedo.

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Estromatólitos (Fonte: Nutman e colaboradores, Nature).

As descobertas não param por aí. A curiosidade científica nos fez olhar para o mundo através de lentes de aumento, e com a criação do primeiro microscópio no século XVII nós descobrimos algo fantástico: as células! Não demorou muito para a gente entender que todos os seres vivos eram formados por células (nota 1). Além disso, diversos organismos que vivem nos mais diferentes lugares do planeta possuem apenas uma única célula, como por exemplo as bactérias. Ao observar a atual árvore da vida, podemos notar que quase todos os ramos principais são compostos por esses seres unicelulares.

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Árvore da vida (Fonte: Hug, Banfield e colaboradores, Nature Microbiology).

Enxergar essas unidades celulares nos fez pensar sobre como as células podem ter se formado e o que existe dentro de uma única célula. O desenvolvimento de tecnologia nos permitiu identificar que as células possuem internamente diferentes organelas, que são majoritariamente estruturas formadas por proteínas, e estas, utilizando uma explicação bem básica, são resultado de ligações entre diferentes elementos químicos.

Assim, após esta descoberta, a saga para entender como os elementos químicos presentes na Terra inicialmente se transformaram em compostos orgânicos começou! A primeira hipótese, que é muito conhecida, fala sobre uma sopa primordial de elementos químicos. Essa proposta é proveniente da junção de ideias de dois cientistas, o soviético Alexander Oparin e o biólogo inglês John B.S. Haldane. A ideia de Oparin-Haldane basicamente é que os oceanos primitivos eram como uma sopa quente, que possibilitaria a combinação de diferentes compostos químicos e assim, espontaneamente, o aparecimento dos primeiros organismos vivos [3]. A vida então não precisaria de nada divino para ser explicada.

Essa hipótese era instigante e foi até mesmo encontrada em uma correspondência de Darwin anos antes de ser pensada por Oparin e Haldane, na qual ele dizia:

“Mas, se (Oh, mas que grande “se”) pudéssemos conceber em algum lago pequeno e quente com todos os tipos de amônia e sais fosfóricos com a presença de luz, calor, eletricidade assim um composto protéico foi quimicamente formado, pronto para passar por mudanças mais complexas…”

Porém, o problema para todos esses questionamentos era conseguir realizar um experimento para testar essa hipótese. Nesse momento, surgem outros dois cientistas nesta história, Harold Urey e Stanley Miller. Urey, ganhador de um prêmio Nobel, explicou em uma palestra que a atmosfera inicial era praticamente desprovida de oxigênio, e que isso seria o suporte para a teoria da sopa primordial. Miller, que estava na plateia, propôs para o professor testar essa ideia, e assim o fez em 1952. Ele conectou por meio de frascos de vidro quatro produtos químicos (água fervente, gás hidrogênio, amônia e metano) e submeteu esses gases à choques elétricos, para simular relâmpagos.

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Experimento de Miller e Urey (Fonte: Francis Leroy, Biocosmos/Science Photo Library).

Miller descreveu que após o primeiro dia a água estava um pouco rosa e no final da semana turva e avermelhada. Ao analisar seu conteúdo, ele encontrou dois aminoácidos formados: glicina e alanina. E olha que incrível, as proteínas, que são basicamente a constituição dos seres vivos, são formadas por uma cadeia de nada mais, nada menos do que aminoácidos! Os resultados foram publicados na revista Science em 1953 [4].

Com o passar dos anos, outros cientistas começaram a encontrar maneiras de criar moléculas biológicas simples a partir de soluções químicas, e uma explicação para o mistério sobre a origem da vida parecia próxima. Porém, ao mesmo tempo ficou claro que a vida era mais complicada do que se pensava. Células vivas possuem um modo de funcionamento próprio, não são apenas uma bolha com produtos químicos dentro, e uma das características que as tornam especiais é a capacidade de se dividirem.

Contribuições para o entendimento dessa incrível maquinaria celular foram impulsionadas com o descobrimento do DNA em 1953 [5]. Na verdade, proteínas são estruturas quimicamente complexas, e entender o processo de conversão de uma simples molécula de DNA em RNA, e esse RNA posteriormente em proteínas, trouxe várias outras ideias para explicar a origem da vida. Aqui no blog existem dois textos muito bons sobre esse assunto, o primeiro trata da descoberta do DNA e o outro sobre este processo de conversão.

O processo DNA-RNA-proteína ocorre em todas as células existentes. Assim, explicações sobre a origem da vida devem basicamente mostrar como essa “trindade biológica” começou a funcionar. Sobre esse tema, você deve estar pensando agora. “- Isso é muito complicado!” E, na verdade, é sim. Mas os cientistas olharam para o processo e pensaram que, talvez, se fosse possível encontrar um composto químico orgânico que conseguisse reproduzir-se por si mesmo, esse poderia ser a chave para o questionamento de como a vida surgiu. E assim surgiu a hipótese do “mundo de RNA”.

Esta hipótese foi proposta por Walter Gilbert em 1986 [6]. Ele sugeriu que moléculas de RNA poderiam realizar atividades catalíticas necessárias para se auto montar a partir de uma sopa de nucleotídeos. Ao cortar e colar diferentes pedaços, as moléculas de RNA poderiam criar sequências cada vez mais úteis, e isso tudo passaria por aperfeiçoamento até chegar a versão de vida que temos hoje. A ideia ganhou um suporte muito grande em 2000, quando outro cientista, Thomas Steitz, ao detalhar a imagem dos ribossomos, descobriu que o RNA era o centro do funcionamento desta organela [7]. Ribossomos são tão antigos e fundamentais para a formação da vida, que fez com que a hipótese do mundo de RNA parecesse possível. Porém, os problemas dessa hipótese são que, primeiro, até os dias atuais ainda não foi encontrado um RNA que pudesse se auto-replicar inteiramente. Segundo, será que a estrutura química do RNA poderia ser formada nas condições da Terra antigamente?

Assim, outro time de cientistas propôs uma nova teoria de que a vida tenha surgido como um mecanismo para aproveitar energia, ou melhor, ter um metabolismo. Afinal, ao observar o mundo natural a ordem dos acontecimentos é nascer, crescer e se reproduzir, assim, para alguns pesquisadores, a energia para crescer seria primordial e ainda mais importante do que a reprodução. Seguindo essa lógica, os cientistas buscaram por locais capazes de prover energia para a existência de uma célula e com composição química similar à que observamos nos organismos atualmente e, no fundo do Oceano Pacífico, pesquisadores liderados por Jack Corliss descobriram as fontes hidrotermais. A ideia é que essas fontes hidrotermais pudessem criar complexas misturas de produtos químicos e que cada abertura funcionasse como uma espécie de bomba de sopa primordial [8].

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Fontes hidrotermais e a formação de células (Fonte: Richard Bizley/Science Photo Library).

O fluxo de água, aliado ao calor e a pressão, faria com que compostos orgânicos simples, como os elementos presentes no ambiente, se tornassem mais complexos, como aminoácidos, nucleotídeos e açúcares, que posteriormente se ligariam em cadeias – formando carboidratos, proteínas e o próprio DNA. Então, a medida que a água perdesse calor, esses compostos teriam se juntado e formado as primeiras células simples. Aliando essa hipótese à outras descobertas de fontes hidrotermais alcalinas no oceano e, unindo com toda a tecnologia que temos atualmente, pesquisadores publicaram em 2016 [9] a ideia de um ancestral comum universal entre todos os organismos da Terra, denominado LUCA (Last Universal Common Ancestor), em português, último ancestral comum universal.

Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram 1.930 microorganismos modernos e identificaram 355 genes comuns. A ideia é que provavelmente esses 355 genes foram transmitidos, de geração em geração, remetendo a um único antepassado comum. Porém, o problema para esta hipótese é reproduzir em laboratório essa possibilidade. E o mais legal, um grupo está atualmente trabalhando na construção de um reator para reproduzir as condições de um ambiente prebiótico onde a vida poderia ter surgido [10] e, com isso, talvez teremos novidades nos próximos anos.

Além desses trabalhos, um terceiro grupo de pesquisadores apostou na hipótese de um “mundo de lipídeos” [11]. A ideia é que para existir uma célula, precisa existir proteção, precisa existir uma membrana. Assim, unindo essa ideia com o “Mundo de RNA”, os pesquisadores criaram em laboratório as protocélulas [12]. Essas protocélulas podem manter seus genes internamente enquanto absorvem moléculas úteis de fora, e ainda crescer, se dividir, e até mesmo competirem entre si. O RNA pode se replicar dentro dessas estruturas e elas conseguem “sobreviver” a temperaturas de até 100 °C.

Por fim, os cientistas pararam de pensar em teorias separadas e juntaram todas as ideias em uma única. Ao constatar a constituição química das células atuais, como a presença de potássio e fosfato, e além disso metais, que são necessários para o funcionamento de várias enzimas, os pesquisadores encontraram um cenário ideal para o surgimento da vida. A ideia com todas essas pistas é que a vida surgiu em lagoas de superfície em uma área geotérmica-ativa, com abundância de radiação ultravioleta do Sol. As protocélulas nesse ambiente poderiam ficar em zonas mais frias na maior parte do tempo, mas seguindo o fluxo da água teriam também ciclos de aquecimento que poderia auxiliar no processo de replicação do RNA. Além disso, haveriam correntes, conduzidas por essa diferença de temperatura no lago que poderiam ajudar a dividir as protocélulas [13].

Agora, será muito trabalho em laboratório para tentar provar esta nova hipótese. Mas finalmente estamos mais perto do que nunca de descobrir a verdade sobre a nossa origem. Em 1859 Darwin revolucionou o mundo com a verdade sobre a origem das espécies, apresentando dados tão claros que podem ser comprovados diariamente. Você consegue imaginar como o mundo irá reagir quando a verdadeira história da origem da vida for contada?

Agora que entendemos todo esse cenário de descobertas, fica difícil acreditar que toda essa complexidade de relações possa ser explicada por um evento que durou apenas sete dias, como é apresentado por muitas perspectivas teológicas. Por isso, apesar da importância cultural que as religiões têm para o desenvolvimento da sociedade e da própria humanidade, precisamos ser bem cautelosos quando se trata de utilizar suas perspectivas, principalmente para a criação de políticas públicas envolvendo ciência, educação e saúde.

Podemos avançar muito mais em nosso conhecimento e chegar a conclusões inimagináveis atualmente, mas as descobertas científicas necessitam de uma sociedade que apoie a ciência e entenda as contradições existentes no que hoje é tido como senso comum da própria sociedade.

Notas:

  1. Deixarei fora dessa discussão todas as conceituações teóricas sobre os vírus serem ou não organismos vivos.

Bibliografia utilizada:

  1. Allwood, A.C., Walter, M.R., Burch, I.W., Kamber, B.S. 3.43 billion-year-old stromatolite reef from the Pilbara Craton of Western Australia: Ecosystem-scale insights to early life on Earth. Precambrian Research. 158, 3-4, p. 198-227, 2007.
  2. Nutman, A.P., Bennet, V.C., Friend, C.R., Van Kranendonk, M.J., Chivas, A.R. Rapid emergence of life shown by discovery of 3,700-million-year-old microbial structures. Nature. 537, p. 535-539, 2016.
  3. Oparin A.I. The origin of life. 29 p.
  4. Miller S.L. A Production of Amino Acids Under Possible Primitive Earth Conditions.  Science. 1953. 
  5. Watson J.D., Crick, F.H.C. Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid. Nature. 171, p. 737-738, 1953.  
  6. GIlbert. W. Origin of life: The RNA world. Nature. 319, 618, 1986.  
  7. Cech, T.R. The Ribosome is a Ribozyme. Science. 289, 5481, p. 878-879, 2000.
  8. Corliss, J.B., Dymond, J., Gordon, L.I., Edmond, J.M., Herzen, R.P., Ballard, R.D., Green, K., Williams, D., Bainbridge, A., Crane, K., Andel, T.H. Submarine Thermal Sprirngs on the Galápagos Rift. Science. 203, 4385, p. 1073-1083, 1979.
  9. Weiss, M.C., Sousa, F.L., Mrnjavac, N., Neukirchn, S., Roettger, M., Nelson-Sathi, S., Martin, W. The physiology and habitat of the last universal common ancestor. Nature Microbiology. 16116, 2016.
  10. Herschy, B., Whicher, A.,  Camprubi, E., Watson, C., Dartnell, L., Ward, J., Evans, J.R.G., Lane, N. An Origin-of-Life Reactor to Simulate Alkaline Hydrothermal Vents. Journal of Molecular Evolution. 79, 5-6, p. 213–227, 2014.
  11. Segré, D., Ben-Eli, D., Deamer, D.W., Lancet, D. The lipid World. Origins of life and evolution of the biosphere. 31, 1–2, p. 119–145, 2001.
  12. Hanczyc, M.M., Fujikawa, S.M., Szostak., J.W. Experimental Models of Primitive Cellular Compartments: Encapsulation, Growth, and Division. Science. 302, 5645, p. 618-622, 2003.
  13. BBC earth (Michael Marshall). The secret of how life on earth began. 2016.

 

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Violência doméstica: Impactos na vida profissional de mulheres nordestinas

A data da entrega desse texto se aproximava, e eu estava fazendo o que sei fazer de melhor: procrastinando e pensando qual poderia ser o tema do texto. Eis que na televisão era transmitido o Jornal Hoje e uma das matérias me chamou a atenção. Um estudo recém-publicado pela Universidade Federal do Ceará em conjunto com o Instituto Maria da Penha, apontava o impacto da violência doméstica na vida profissional das mulheres nordestinas. O assunto chamou atenção não apenas por seu ineditismo, mas também por ser publicado no mês em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos. Ano passado, publicamos aqui no blog um texto sobre o impacto e a importância da lei para a defesa dos direitos das mulheres. E nunca é demais falar sobre uma lei que impactou fortemente a vida das mulheres no Brasil e tem transformado a maneira como lidamos com esse tipo de violência, seja por meio de conversas e debates mais amplos pela sociedade, ou das denúncias.

Chamada de “Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica Familiar contra a Mulher” (PCSVDFmulher), ela teve como objetivo principal obter dados nacionais sobre a violência doméstica e as inter-relações entre contexto econômico e social que possam refletir sobre a violência de gênero. Em um primeiro momento, entende-se que o empoderamento da mulher ajude a diminuir a violência, uma vez que ela se torna independente financeiramente, o que permite que ela possa sair de casa se descontente com a relação. O que tem sido observado, é que quando esse empoderamento subverte normas culturais e estereótipos de gênero, a incidência de violência aumenta. Portanto, é natural pensar então que a violência possa ter um impacto negativo no mercado de trabalho, interferindo na capacidade laboral das mulheres e na manutenção do emprego. Como apresentado na Figura 1, essa relação entre violência doméstica e mercado de trabalho é bastante complexa, incluindo diferentes variáveis, e pode também levar em conta as consequências a curto e longo prazo.

Mercado de trabalho e violência doméstica

Tendo como base a Lei Maria da Penha, o estudo levou em conta as violências física, emocional e sexual. Das mulheres entrevistadas, 3 em cada 10 relatam ter sofrido pelo menos um episódio de violência em sua vida e 1 em cada 10 relata ter sido vítima nos últimos 12 meses, sendo que os parceiros atuais ou mais recentes são os perpetradores. Devido às sequelas físicas e/ou emocionais ocasionadas, são perdidos em média 18 dias de trabalho por ano. A massa salarial perdida, somente para a região nordeste é de R$ 64,4 milhões, extrapolando a mesma média para todo o país, temos um prejuízo de R$ 975 milhões, sem contar os gastos previdenciários e dos serviços de saúde. Outro ponto alarmante revelado pelo estudo, é que mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, permanecem menos tempo no emprego quando comparadas àquelas que não foram violentadas.

Então aqui temos dois impactos importantes na vida profissional da mulher: a redução de sua produtividade imediata devido às faltas, e histórico de trabalho inconsistente, alternando curtos períodos de emprego com longos períodos de desemprego. Nesse ponto entramos em um círculo vicioso, em que a violência dificulta a manutenção do emprego, ao mesmo tempo em que estar empregada pode gerar maior violência por parte de seu parceiro.

É assustador pensar que o número de mulheres que sofrem de violência doméstica pode ser ainda maior que o observado nesse estudo, devido à recusa da vítima em denunciar o perpetrador. Essa recusa perpassa pela culpabilização da vítima e também por crenças morais e religiosas por parte dos envolvidos. Quantas vezes não ouvimos justificativas para a violência “ela deve ter provocado”, “mas eles são casados, ninguém tem nada com isso”, “certeza que ela mereceu”.

Onze anos após a promulgação da lei, esse estudo nos mostra que os impactos da violência doméstica são ainda mais amplos e complexos, influenciando de maneira direta as diferenças de gênero, perpetuação da pobreza e a desigualdade no país. Muito foi conquistado, mas é importante e necessário que continuemos na luta para não perdermos nossos direitos, de maneira a garantir que nenhuma mulher seja violentada.

 

Para saber mais sobre o Instituto Maria da Penha e sobre o estudo:

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio.pdf

http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/documentos/relatorio_v06.pdf

Dúvidas frequentes sobre a LMP: http://www.institutomariadapenha.org.br/2016/index.php/duvidas-frequentes-sobre-a-lei-11-340-06

 

 

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Turbulência: é pra ter medo ou não afinal?

Turbulência é um termo conhecido para todas as pessoas que já viajaram de avião. A sensação de estar suspenso no ar sendo chacoalhado que nem um coquetel não é das melhores do mundo. Filmes como Turbulência (1997) [1] não ajudam a diminuir o medo que as pessoas sentem ao voar de avião, apesar destes serem considerados o meio de transporte mais seguro do mundo [2]. Mas você já parou pra pensar no que causa a turbulência? E se ela é realmente tão assustadora quanto parece?

When I meet God, I am going to ask him two questions: Why relativity? And why turbulence? I really believe he will have an answer to the first.” (Werner Heisenberg)

“Quando eu encontrar com Deus, eu vou fazer duas perguntas para ele: Por que relatividade? E por que turbulência? Eu realmente acredito que ele vai ter uma resposta para a primeira.” (Werner Heisenberg, em tradução livre)

Esta citação, atribuída ao físico alemão que derivou o princípio da incerteza Werner Heisenberg, ilustra a frustração dos cientistas ao lidar com o conceito de turbulência [3]. Apesar dele ter vivido entre os anos de 1901 e 1976, e desenvolvido seus trabalhos nas décadas de 20 e 30, a turbulência era e continua sendo um dos maiores mistérios da ciência. Vale ressaltar que a turbulência é importante para qualquer tipo de fluido, não apenas para aviões e transportes aéreos. Ela é tão relevante para a circulação sanguínea, transportando nutrientes e oxigênio pelo nosso corpo, quanto para o oceano, onde vivem milhões de criaturas de diferentes tamanhos e formas, que contribuem para o aspecto turbulento das águas marítimas a todo momento.

A estrutura mais importante presente em fluidos turbulentos é conhecida como vórtex. Vórtices são semelhantes a redemoinhos, e são fundamentais em fluidos em regime turbulento pois podem conter grandes quantidades de energia. Um dos grandes mistérios do estudo de fluidos turbulentos é como a energia desses vórtices é dissipada. Observe os padrões geométricos presentes nas seguintes fotografias:

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Campos de gelo no oceano fotografados de um avião. Crédito da foto: Daniel Schwen  [4]

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Vórtex gerado na ponta da asa de um avião. Créditos: NASA Langley Research Center.  Link. [5]

Nas imagens acima podemos ver vórtices em duas situações diferentes: em padrões formados pelo gelo no oceanoe um vórtex gerado na ponta da asa de um avião. Acredita-se que o transporte de energia em vórtices funcione como uma “cascata”: os vórtices maiores quebram em vórtices menores e menores, até chegar a níveis bem pequenos (chamados de escala de Kolmogorov), nos quais  a viscosidade começa a ser relevante para o fluido, e a energia pode finalmente ser transformada e dissipada em forma de calor.

O quadro de Vincent Van Gogh “A Noite Estrelada” [6] é um exemplo da existência da turbulência na arte. Em 2004, cientistas observaram padrões de redemoinhos em nuvens de poeira e gás em torno de uma estrela através do telescópio Hubble que lembravam os padrões desenhados por Van Gogh. Estudos mais aprofundados da luminância nas pinturas de Van Gogh demonstraram padrões de turbulência descritos pelas teorias desenvolvidas na década de 1940 pelo matemático e físico russo Andrei Kolmogorov em várias obras do artista [7].

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Quadro “A Noite Estrelada”, de Vincent Van Gogh

As equações que descrevem o movimento de fluidos, incluindo os fluidos turbulentos, foram derivadas no século 19, e são conhecidas como Equações de Navier-Stokes [8]. Devido a sua complexidade, uma série de suposições devem ser feitas para simplificá-las e torná-las utilizáveis por cientistas e engenheiros de fluidos. O problema é que essas suposições simplificam e idealizam a estrutura do fluido a ser modelado, então o produto final não representa exatamente um fluido real.

Um grupo de pesquisa em Engenharia Aeronáutica da Universidade Politécnica de Madrid publicou em agosto deste ano na revista Science [9] resultados de simulações que indicam que seja possível descrever completamente o comportamento de um fluido turbulento em modelos computacionais. Estas simulações são capazes de modelar a transferência de energia do fluido em um minuto desde um vórtex de um metro de diâmetro até pequenos vórtices de 12 centímetros de diâmetro, ilustrando a cascata de energia. Estes resultados comprovam a validade da teoria formulada por Kolmogorov e abrem novas possibilidades no estudo da física de fluidos turbulentos. Espera-se que grandes avanços sejam possíveis no estudo destes fluidos a partir desta pesquisa.

Em resumo, sim, a turbulência é assustadora. Não pelo que nós estamos acostumados (alerta de spoiler: um avião não cai por causa de uma turbulência), mas sim por ser um fenômeno extremamente complexo e ainda não completamente compreendido. Mas na próxima vez que você estiver voando de avião, pode ficar tranquilo e falar para a pessoa sentada do seu lado não ter medo também: a turbulência é nossa amiga.

 

Referências:

[1] http://www.imdb.com/title/tt0120390/

[2] http://www.aerodinamica.com.br/PORTUGUES/seguro.html

[3] https://www.inspiringquotes.us/author/3797-werner-heisenberg

[4] https://icyseas.org/tag/turbulence/

[5] http://howthingsfly.si.edu/media/wing-tip-vortex

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_Estrelada

[7] https://www.brainpickings.org/2014/11/13/van-gogh-starry-night-fluid-dynamics-animation/

[8] Stokes. G. G. (1845): trans. Camb. Phil. Soc., vol 8, pp287-305

[9] Cardesa, J. I., Vela-Martín, A., and Jiménez, J. (2017): “The turbulent cascade in five dimensions,” Science, vol. 357 , p. 782 LP-784. (http://www.nature.com/news/mysteries-of-turbulence-unravelled-1.22474?WT.mc_id=FBK_NatureNews&sf109168008=1)

 

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Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 2: correlações, confundimento e significância estatística

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No primeiro texto da série, falamos sobre o desenho de ensaios clínicos. Vimos a importância de se ter um grupo experimental e um controle, por um lado, e de se incluir participantes com perfis variados nos estudos, por outro. Também vimos que os participantes devem ser alocados aos grupos experimental e controle de forma aleatória. Isso porque questões de saúde são complexas e resultam da interação de diferentes variáveis, como histórico familiar, sexo, idade, e hábitos de vida, por exemplo. Neste texto, vamos nos aprofundar nesse último ponto para explicar o conceito de confundimento.

Confundimento
Como exemplo, pensemos num estudo cujo objetivo é testar uma forma de prevenção de uma determinada doença. Nesse exemplo, a probabilidade de uma pessoa contrair essa doença está associada a seu nível de escolaridade, isto é, pessoas com maior escolaridade têm menor probabilidade de contrair a doença. Se os grupos desse estudo não forem escolhidos de forma aleatória, é possível que o grupo experimental tenha maior escolaridade do que o controle. Como resultado, menos pessoas do grupo experimental contrairão a doença, mesmo que a forma de prevenção testada não tenha esse efeito de fato. Assim, o estudo concluirá, erroneamente, que a forma de prevenção funciona. Esse é um exemplo de confundimento [1]: aparentemente, há uma relação causal entre duas variáveis – no caso, a prevenção e o número de pessoas que contraem a doença – que, no entanto, se explica por uma terceira variável – a escolaridade – que não havia sido incluída na análise.

A solução, portanto, é dada pela aleatoriedade na alocação de participantes nos dois grupos. Mas e se esse recurso não for possível? Isso acontece em estudos observacionais, ou seja, aqueles que procuram identificar as variáveis que levam as pessoas a terem certas doenças. Para algumas variáveis, a alocação aleatória é simplesmente impossível. O histórico familiar é o melhor exemplo: não é possível alterar o fato de uma pessoa ter, ou não, casos de câncer de mama na família, por exemplo. Para outras variáveis, a distribuição aleatória seria antiética. É o caso de comportamentos sabidamente nocivos, como o fumo. Não seria ético encorajar um grupo de pessoas a fumar apenas para que os grupos experimental e controle fossem aleatoriamente definidos.

Como não é possível (ou seria antiético) distribuir essas variáveis de forma aleatória, é possível que os participantes de um estudo compartilhem outras características além daquilo que os pesquisadores querem investigar. Por exemplo, pessoas com maior escolaridade também têm menor probabilidade de fumar. Assim, se um estudo quiser avaliar o impacto do fumo em um desfecho de saúde, a escolaridade pode gerar confundimento, da mesma forma que no exemplo que discutimos acima. Para lidar com essa questão, pesquisadores usam diferentes técnicas estatísticas para avaliar os resultados de seus estudos. Explicar essas técnicas foge do propósito deste texto. O que importa é saber que elas procuram responder à seguinte pergunta: se todos os participantes do estudo tivessem o mesmo sexo, a mesma idade, a mesma renda, o mesmo histórico familiar, os mesmos hábitos, etc., qual seria o efeito isolado do que estamos medindo?

Ainda assim, o confundimento pode ser um problema nesses casos. Aqui, a dificuldade está em determinar quais são as variáveis relevantes a serem incluídas na análise. Vejamos um exemplo conhecido, que diz respeito à relação entre ordem de nascimento e ocorrência de síndrome de Down. Nos dados apresentados por Rothman [2], entre os bebês que foram os primeiros filhos de seus pais, a prevalência de síndrome de Down era de 0,6 a cada 1000 nascidos vivos. Entre os que foram o quinto filho (ou mais), essa prevalência era de 1,7 a cada 1000 nascidos vivos. Olhando apenas esses dados, é possível concluirmos que há uma relação entre essas duas coisas, que a ordem de nascimento afeta a probabilidade de um bebê ter síndrome de Down. Contudo, existe uma variável importante que não está sendo levada em consideração: a idade da mãe. A idade das mulheres quando têm o quinto filho (ou mais) é, em geral, maior do que a idade das mulheres quando têm o primeiro. A idade materna também é fortemente associada com a probabilidade de o bebê ter síndrome de Down: no mesmo conjunto de dados, no grupo de bebês cujas mães tinham menos de 20 anos, a prevalência de síndrome de Down era de 0,2 a cada 1000 nascidos vivos. Entre os bebês cujas mães tinham 40 anos ou mais, essa prevalência era de 8,5 a cada 1000 nascidos vivos, isto é, um aumento de mais de 40 vezes, como o autor aponta.

Correlação
O exemplo acima é uma ilustração de uma máxima frequente da estatística: a correlação não significa causalidade. Correlação significa que duas variáveis caminham juntas, ou na mesma direção – quanto maior a idade materna, maior a probabilidade de o bebê ter síndrome de Down –, ou em direções opostas – quanto maior a escolaridade, menor a proporção de pessoas que fumam. No exemplo da ocorrência de síndrome de Down, há duas correlações: com a ordem de nascimento e com a idade materna. Contudo, só na segunda há uma relação de causalidade.

Mas então, como garantir que a correlação encontrada por um estudo de fato reflete uma relação causal? Como vimos, nos ensaios clínicos, a alocação aleatória dos participantes nos grupos experimental e controle assegura que não haja variáveis não identificadas que possam interferir nos resultados. Em todos os tipos de estudos, contudo, o mais importante é o modelo causal usado para explicar o fenômeno estudado. É esse modelo que informa as variáveis a serem incluídas na análise. Retornando ao exemplo acima, a síndrome de Down é causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 21 e é mais comum que os óvulos de mulheres mais velhas carreguem uma cópia extra de um cromossomo (qualquer um, não só o 21). Portanto, é mais provável que uma mulher mais velha tenha um filho com síndrome de Down. Com base nisso, os pesquisadores sabem que a idade materna é uma variável relevante quando se estuda essa síndrome.

Significância estatística
Por outro lado, um estudo também pode encontrar correlações que são resultados de mero acaso, as chamadas correlações espúrias*. Essas correlações estão envolvidas num problema comum de estudos, o chamado “p-hacking”. Hacking aqui significa manipulação, enquanto o p do nome refere-se ao p-valor, que é uma medida estatística de significância.

O conceito de significância estatística está relacionado à probabilidade. O que os pesquisadores buscam saber é: qual é a probabilidade de que um dado resultado se deva apenas ao acaso? Se essa probabilidade for muito baixa, o resultado é considerado estatisticamente significativo. Em outras palavras, é muito mais provável que esse resultado reflita uma associação real entre duas variáveis do que uma associação espúria.

Contudo, se um pesquisador usar os resultados de um único estudo para testar um número suficientemente grande de hipóteses, é provável que ele chegue a pelo menos um resultado “estatisticamente significativo”, mas que não quer dizer nada porque é resultado de mero acaso [3]. A isso dá-se o nome de “p-hacking”. O “p-hacking” não necessariamente é resultado de uma manipulação intencional, mas pode acontecer se os pesquisadores não tomarem as devidas precauções na hora de analisar seus resultados. Como há a possibilidade de que resultados estatisticamente significativos ocorram apenas devido ao acaso (ou a erros do estudo) é importante que estudos científicos sejam reproduzidos, de forma a corroborar os resultados.

Com este texto, vimos um pouco sobre correlações, o que significa dizer que o resultado de um estudo é estatisticamente significativo, o que é confundimento e como pesquisadores usam técnicas estatísticas para isolar o efeito do que estão medindo das outras variáveis nos resultados. No próximo texto, vamos falar de um último elemento importante para entender ensaios clínicos: o efeito placebo.

*Para quem tiver curiosidade para ver na prática o tipo de conclusão absurda que resulta de correlações espúrias, este site tem vários exemplos, como a correlação entre o número de pessoas que se afogaram caindo em uma piscina e o número de filmes estrelando o ator Nicolas Cage que ilustra este texto.

Referências:
[1] Kamangar, Farin. Confounding Variables in Epidemiologic Studies: Basics and Beyond. Arch Iran Med. 2012; 15(8): 508 – 516
[2] Rothman, Kenneth J. Epidemiology: An introduction. Oxford: Oxford University Press, 2010.
[3] Sterne, Jonathan A. C.; Smith, George Davey. Sifting the evidence—what’s wrong with significance tests? BMJ. 2001 Jan 27; 322(7280): 226–231. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1119478/ (livre acesso)

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Segurança Alimentar no mundo em desenvolvimento: por onde caminhamos?

Nos dias atuais, o aumento da população e as taxas de consumo de recursos, produtos, bens e serviços já chegaram a demandas jamais vistas na história da humanidade. Quando passamos a refletir a respeito de nosso estilo de vida, ou sobre viver em um planeta com recursos finitos e que, em sua maior parte, não se renova na mesma medida em que é consumido, precisamos nos perguntar por onde caminharemos? No que diz respeito à agricultura, alimentação e sustentabilidade da produção agrícola e pecuária não é diferente.

Segundo dados do último relatório da Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) publicado em 2015, cerca 800 milhões de pessoas, aproximadamente 11% da população mundial, encontram-se em estado de subnutrição crônica. A porcentagem de terras ocupadas por agricultura somam cerca de 12% da cobertura livre de gelo (1,53 bilhões de hectares), enquanto pastagens cobrem 26% (3,38 bilhões de hectares). Em suma, a agropecuária ocupa cerca de 38% da superfície terrestre, representando a maior atividade de uso do solo do planeta.

Outro dado interessante do mesmo relatório da FAO é o que se refere à porcentagem de alimentos produzidos pela agricultura familiar ou comunidades agrícolas. Essa produção representa 70% do que está incluso, propriamente dito, na dieta da população mundial. Entretanto, essas famílias detém apenas 12% das terras produtivas no planeta.

Sendo assim, podemos nos perguntar, mas por que então, a taxa de subnutrição no mundo é tão elevada? O que significa essa tal de Segurança Alimentar e por que esse é um assunto de importância global? Bom, para responder a essas perguntas, precisaremos da ajuda de algumas e alguns pesquisadores pelo mundo.

Segurança alimentar seria a situação ideal na qual todo cidadão, em qualquer tempo e local, possui disponibilidade e acesso econômico a alimentos seguros e nutritivos que supram as necessidades diárias e preferências alimentares, possibilitando uma vida ativa e saudável. Os pilares da Segurança Alimentar caracterizam-se por disponibilidade, acesso e utilização dos alimentos, bem como a estabilidade econômica e política do país que se analisa (FAO, 2015).

O estudo de Katarzyna Boratinska, da Universidade de Biociências de Warsaw, na Polônia, em parceria com Raqif Tofiq Huseynovb, da Universidade Estadual de Agronomia do Azerbaijão, publicado em 2015, intitulado Uma nova abordagem para a criação de políticas públicas de segurança alimentar para países em desenvolvimento revela a relação existente entre a recessão econômica e os índices de subnutrição no mundo. Tanto fatores de dimensão macro como taxação fiscal e câmbio, que afetam a economia global; quanto micro, como a adoção de novas tecnologias e infraestrutura na produção, influenciam no aumento ou queda dos preços dos alimentos e, consequentemente, no número de famílias com acesso restrito aos mesmos.

A disponibilidade nutricional é um problema crônico nos países em desenvolvimento, que possuem, de modo geral, população urbana com graves contrastes sociais e população rural que depende de boas condições de trabalho no campo para produzir os alimentos com qualidade e em quantidade suficientes à demanda de mercado (BORATINSKA, 2015).

O gráfico abaixo, retirado do relatório da FAO, publicado em 2015 retrata a diminuição do nível de subnutrição, com o aumento da renda per capita nos países. Nota-se que, mesmo com o passar dos anos (de 1992 a 2010), a situação permanece a mesma, ou seja, países com menor renda per capita, possuem os maiores índices de subnutrição.

 

Figura texto Cientistas Femininas (3)

Fonte: The State of Insecurity food in the world, FAO, 2015.

Além das discussões propriamente econômicas e políticas acerca da produção de alimentos com garantia de segurança alimentar, a pesquisadora indiana e ativista Vandana Shiva alerta em suas pesquisas sobre o perigo do monopólio e uso dos insumos agrícolas e dos impactos dos mesmos aos agricultores e ao meio ambiente. Segundo ela, a utilização de fertilizantes químicos sintéticos, como o NPK (nitrogênio, fósforo e potássio, sob formas minerais), promove efeitos negativos como o desequilíbrio ecossistêmico em sua extração, a aplicação equivocada que provoca a acidificação dos solos agricultáveis, a liberação de gases que agravam o efeito estufa e a contaminação humana e ambiental por metais pesados presentes nas formulações (SHIVA, 2016).

Segundo Foley e uma equipe global de pesquisadores, em seu artigo Soluções para um planeta cultivado, publicado pela revista Nature em 2011, a utilização de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas) aliado ao sistema agrícola de monoculturas (vulneráveis, uma vez que a biodiversidade não é considerada) desencadeia um desequilíbrio ecossistêmico que causa a dependência de utilização cada vez maior de insumos, o que acaba por fragilizar o solo e torná-lo improdutivo em um curto período de tempo.

Figura texto Cientistas Femininas (2)

Fonte: Artigo Solutions for a cultivated planet, Folley et al, 2011.

As figuras a e b ao lado, extraídas desse mesmo artigo mostram a diferença entre a atualidade (a) e o cenário futuro ideal em 2050 (b) para as metas de segurança alimentar (quadrantes superiores) e os impactos ambientais do sistema de produção (quadrantes inferiores).

Na parte superior, à esquerda, temos a produção real e total de alimentos, à direita, respectivamente, a distribuição e acesso aos alimentos e a resiliência dos sistemas de cultivo.  Nos quadrantes inferiores temos, à esquerda, a emissão total de gases do efeito estufa, bem como a perda de biodiversidade; à direita a poluição dos corpos hídricos e a insustentabilidade dos sistemas de irrigação.

Essa figura nos mostra de forma clara, os grandes desafios que podemos enfrentar, a fim de que a população mundial seja alimentada de forma segura e nutritiva e que os sistemas produtivos ainda tenham como princípio a conservação dos recursos naturais.

Diante de um cenário como esse, existem algumas alternativas possíveis, relacionadas às dimensões ambientais, políticas, econômicas e até a gênero, como evidencia mais uma vez a pesquisadora Vandana Shiva:

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Pesquisadora Vandana Shiva. Fonte: Google images

“As mulheres são a espinha dorsal da economia rural, especialmente no mundo em desenvolvimento. No entanto, elas recebem apenas uma fração da terra, crédito, insumos (como sementes melhoradas e fertilizantes), formação agrícola e informação em comparação com os homens. Capacitar e investir nas mulheres rurais tem demonstrado aumentar significativamente a produtividade, reduzir a fome e a desnutrição e melhorar os meios de subsistência rurais. E não só para as mulheres, mas para todos. ”

A melhoria da produtividade dos recursos agrícolas de forma sustentável desempenha um papel fundamental no aumento da disponibilidade alimentar com segurança. Políticas públicas que reconhecem a diversidade e complexidade dos desafios enfrentados pelos agricultores familiares, por meio da criação de uma cadeia de valores são necessárias para assegurar a segurança alimentar. Além disso, a gestão pública deveria incentivar a adoção de práticas sustentáveis de agricultores e técnicas (manejo adequado do solo, conservação, melhorias na gestão de recursos hídricos, diversidade de sistemas agrícolas, agroflorestas) (FAO, 2015).

No que diz respeito às medidas econômicas, é essencial a criação de linhas de crédito específicas aos agricultores, pesquisas e cursos de capacitação, a criação de estratégias viáveis para escoamento da produção, bem como outros tipos de auxílio capazes de impulsionar a utilização sustentável da terra e garantir a geração de alimentos acessíveis, seguros e nutritivos para toda a população.

A Cartilha Parlamentar do Ministério do Meio Ambiente lançada no início deste ano (2017) possui propostas em dois Programas para a utilização consciente do solo. Nesta cartilha, é possível saber como os recursos financeiros podem ser utilizados, sua origem e destino. Resta saber de que forma pode-se monitorar e verificar se, de fato, todas essas propostas serão colocadas em prática. Mais do que possuir uma legislação consistente e transparente, o poder público, a sociedade civil, empresas e demais atores devem agir em conjunto, a fim de viabilizar a implantação desses programas e transformar a realidade desses países rumo à garantia de Segurança Alimentar.

Embora a visão geral de estratégias para atingir a garantia da Segurança Alimentar seja clara, os detalhes e a forma como essa abordagem pode ser efetiva ainda são subjetivos. Dessa forma, a economia e os gestores públicos exercem um papel fundamental no preenchimento dessas lacunas (BORATINSKA, 2015).

 

  • SHIVA, V. The violence of the Green Revolution: third world agriculture, ecology and politics. University Press of Kentucky, 1ª ed,  257p . EUA, 2016.
  • BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. Cartilha Parlamentar 2016-2017, 1ª ed., Brasília-DF, 2017. Disponível em: http://coleciona.mma.gov.br/wp-content/uploads/bsk-pdf-manager/LIVRO_MMA_Cartilha_Parlamentar_WEB_116.pdf. Acesso: 10 jun. 2017.
  • FOLEY, J. ; RAMANKUTTY, N. ; BRAUMAN, K. ; CASSIDY, E. S.; GERBER, J. S.; JOHNSTON, M.; MUELLER, N. D.; O’CONNELL, C.; RAY,  D. K.; WEST, P. C.; BALZER, C.; BENNETT, E. M.; CARPENTER, S. R.; HILL, J.;MONFREDA,  C.; POLASKY, S.; ROCKSTRÖM, J.; SHEEHAN, J.; SIEBERT, S.; TILMAN, D. and ZAKS, D. P. M. Solutions for a cultivated planet., Nature Analysis, vol. 478, no. 7369, p. 337–42, Outubro, 2011.
  • BORATINSKA, K.; HUSEYNOVB, R. T. An innovative approach to food security policy in developing countries, Journal of Innovation & Knowledge, Elsevier Espanha, vol 2 p. 39–44, 2017.
  • FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION (FAO), WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). The state of food insecurity in the world,.. Rome: FAO; 2015. Disponível em: ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/009/a0822e/a0822e00.pdf. Acesso em: 22 jul. 2017.