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Turbulência: é pra ter medo ou não afinal?

Turbulência é um termo conhecido para todas as pessoas que já viajaram de avião. A sensação de estar suspenso no ar sendo chacoalhado que nem um coquetel não é das melhores do mundo. Filmes como Turbulência (1997) [1] não ajudam a diminuir o medo que as pessoas sentem ao voar de avião, apesar destes serem considerados o meio de transporte mais seguro do mundo [2]. Mas você já parou pra pensar no que causa a turbulência? E se ela é realmente tão assustadora quanto parece?

When I meet God, I am going to ask him two questions: Why relativity? And why turbulence? I really believe he will have an answer to the first.” (Werner Heisenberg)

“Quando eu encontrar com Deus, eu vou fazer duas perguntas para ele: Por que relatividade? E por que turbulência? Eu realmente acredito que ele vai ter uma resposta para a primeira.” (Werner Heisenberg, em tradução livre)

Esta citação, atribuída ao físico alemão que derivou o princípio da incerteza Werner Heisenberg, ilustra a frustração dos cientistas ao lidar com o conceito de turbulência [3]. Apesar dele ter vivido entre os anos de 1901 e 1976, e desenvolvido seus trabalhos nas décadas de 20 e 30, a turbulência era e continua sendo um dos maiores mistérios da ciência. Vale ressaltar que a turbulência é importante para qualquer tipo de fluido, não apenas para aviões e transportes aéreos. Ela é tão relevante para a circulação sanguínea, transportando nutrientes e oxigênio pelo nosso corpo, quanto para o oceano, onde vivem milhões de criaturas de diferentes tamanhos e formas, que contribuem para o aspecto turbulento das águas marítimas a todo momento.

A estrutura mais importante presente em fluidos turbulentos é conhecida como vórtex. Vórtices são semelhantes a redemoinhos, e são fundamentais em fluidos em regime turbulento pois podem conter grandes quantidades de energia. Um dos grandes mistérios do estudo de fluidos turbulentos é como a energia desses vórtices é dissipada. Observe os padrões geométricos presentes nas seguintes fotografias:

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Campos de gelo no oceano fotografados de um avião. Crédito da foto: Daniel Schwen  [4]

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Vórtex gerado na ponta da asa de um avião. Créditos: NASA Langley Research Center.  Link. [5]

Nas imagens acima podemos ver vórtices em duas situações diferentes: em padrões formados pelo gelo no oceanoe um vórtex gerado na ponta da asa de um avião. Acredita-se que o transporte de energia em vórtices funcione como uma “cascata”: os vórtices maiores quebram em vórtices menores e menores, até chegar a níveis bem pequenos (chamados de escala de Kolmogorov), nos quais  a viscosidade começa a ser relevante para o fluido, e a energia pode finalmente ser transformada e dissipada em forma de calor.

O quadro de Vincent Van Gogh “A Noite Estrelada” [6] é um exemplo da existência da turbulência na arte. Em 2004, cientistas observaram padrões de redemoinhos em nuvens de poeira e gás em torno de uma estrela através do telescópio Hubble que lembravam os padrões desenhados por Van Gogh. Estudos mais aprofundados da luminância nas pinturas de Van Gogh demonstraram padrões de turbulência descritos pelas teorias desenvolvidas na década de 1940 pelo matemático e físico russo Andrei Kolmogorov em várias obras do artista [7].

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Quadro “A Noite Estrelada”, de Vincent Van Gogh

As equações que descrevem o movimento de fluidos, incluindo os fluidos turbulentos, foram derivadas no século 19, e são conhecidas como Equações de Navier-Stokes [8]. Devido a sua complexidade, uma série de suposições devem ser feitas para simplificá-las e torná-las utilizáveis por cientistas e engenheiros de fluidos. O problema é que essas suposições simplificam e idealizam a estrutura do fluido a ser modelado, então o produto final não representa exatamente um fluido real.

Um grupo de pesquisa em Engenharia Aeronáutica da Universidade Politécnica de Madrid publicou em agosto deste ano na revista Science [9] resultados de simulações que indicam que seja possível descrever completamente o comportamento de um fluido turbulento em modelos computacionais. Estas simulações são capazes de modelar a transferência de energia do fluido em um minuto desde um vórtex de um metro de diâmetro até pequenos vórtices de 12 centímetros de diâmetro, ilustrando a cascata de energia. Estes resultados comprovam a validade da teoria formulada por Kolmogorov e abrem novas possibilidades no estudo da física de fluidos turbulentos. Espera-se que grandes avanços sejam possíveis no estudo destes fluidos a partir desta pesquisa.

Em resumo, sim, a turbulência é assustadora. Não pelo que nós estamos acostumados (alerta de spoiler: um avião não cai por causa de uma turbulência), mas sim por ser um fenômeno extremamente complexo e ainda não completamente compreendido. Mas na próxima vez que você estiver voando de avião, pode ficar tranquilo e falar para a pessoa sentada do seu lado não ter medo também: a turbulência é nossa amiga.

 

Referências:

[1] http://www.imdb.com/title/tt0120390/

[2] http://www.aerodinamica.com.br/PORTUGUES/seguro.html

[3] https://www.inspiringquotes.us/author/3797-werner-heisenberg

[4] https://icyseas.org/tag/turbulence/

[5] http://howthingsfly.si.edu/media/wing-tip-vortex

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_Estrelada

[7] https://www.brainpickings.org/2014/11/13/van-gogh-starry-night-fluid-dynamics-animation/

[8] Stokes. G. G. (1845): trans. Camb. Phil. Soc., vol 8, pp287-305

[9] Cardesa, J. I., Vela-Martín, A., and Jiménez, J. (2017): “The turbulent cascade in five dimensions,” Science, vol. 357 , p. 782 LP-784. (http://www.nature.com/news/mysteries-of-turbulence-unravelled-1.22474?WT.mc_id=FBK_NatureNews&sf109168008=1)

 

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Conceitos básicos da pesquisa em saúde – parte 2: correlações, confundimento e significância estatística

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No primeiro texto da série, falamos sobre o desenho de ensaios clínicos. Vimos a importância de se ter um grupo experimental e um controle, por um lado, e de se incluir participantes com perfis variados nos estudos, por outro. Também vimos que os participantes devem ser alocados aos grupos experimental e controle de forma aleatória. Isso porque questões de saúde são complexas e resultam da interação de diferentes variáveis, como histórico familiar, sexo, idade, e hábitos de vida, por exemplo. Neste texto, vamos nos aprofundar nesse último ponto para explicar o conceito de confundimento.

Confundimento
Como exemplo, pensemos num estudo cujo objetivo é testar uma forma de prevenção de uma determinada doença. Nesse exemplo, a probabilidade de uma pessoa contrair essa doença está associada a seu nível de escolaridade, isto é, pessoas com maior escolaridade têm menor probabilidade de contrair a doença. Se os grupos desse estudo não forem escolhidos de forma aleatória, é possível que o grupo experimental tenha maior escolaridade do que o controle. Como resultado, menos pessoas do grupo experimental contrairão a doença, mesmo que a forma de prevenção testada não tenha esse efeito de fato. Assim, o estudo concluirá, erroneamente, que a forma de prevenção funciona. Esse é um exemplo de confundimento [1]: aparentemente, há uma relação causal entre duas variáveis – no caso, a prevenção e o número de pessoas que contraem a doença – que, no entanto, se explica por uma terceira variável – a escolaridade – que não havia sido incluída na análise.

A solução, portanto, é dada pela aleatoriedade na alocação de participantes nos dois grupos. Mas e se esse recurso não for possível? Isso acontece em estudos observacionais, ou seja, aqueles que procuram identificar as variáveis que levam as pessoas a terem certas doenças. Para algumas variáveis, a alocação aleatória é simplesmente impossível. O histórico familiar é o melhor exemplo: não é possível alterar o fato de uma pessoa ter, ou não, casos de câncer de mama na família, por exemplo. Para outras variáveis, a distribuição aleatória seria antiética. É o caso de comportamentos sabidamente nocivos, como o fumo. Não seria ético encorajar um grupo de pessoas a fumar apenas para que os grupos experimental e controle fossem aleatoriamente definidos.

Como não é possível (ou seria antiético) distribuir essas variáveis de forma aleatória, é possível que os participantes de um estudo compartilhem outras características além daquilo que os pesquisadores querem investigar. Por exemplo, pessoas com maior escolaridade também têm menor probabilidade de fumar. Assim, se um estudo quiser avaliar o impacto do fumo em um desfecho de saúde, a escolaridade pode gerar confundimento, da mesma forma que no exemplo que discutimos acima. Para lidar com essa questão, pesquisadores usam diferentes técnicas estatísticas para avaliar os resultados de seus estudos. Explicar essas técnicas foge do propósito deste texto. O que importa é saber que elas procuram responder à seguinte pergunta: se todos os participantes do estudo tivessem o mesmo sexo, a mesma idade, a mesma renda, o mesmo histórico familiar, os mesmos hábitos, etc., qual seria o efeito isolado do que estamos medindo?

Ainda assim, o confundimento pode ser um problema nesses casos. Aqui, a dificuldade está em determinar quais são as variáveis relevantes a serem incluídas na análise. Vejamos um exemplo conhecido, que diz respeito à relação entre ordem de nascimento e ocorrência de síndrome de Down. Nos dados apresentados por Rothman [2], entre os bebês que foram os primeiros filhos de seus pais, a prevalência de síndrome de Down era de 0,6 a cada 1000 nascidos vivos. Entre os que foram o quinto filho (ou mais), essa prevalência era de 1,7 a cada 1000 nascidos vivos. Olhando apenas esses dados, é possível concluirmos que há uma relação entre essas duas coisas, que a ordem de nascimento afeta a probabilidade de um bebê ter síndrome de Down. Contudo, existe uma variável importante que não está sendo levada em consideração: a idade da mãe. A idade das mulheres quando têm o quinto filho (ou mais) é, em geral, maior do que a idade das mulheres quando têm o primeiro. A idade materna também é fortemente associada com a probabilidade de o bebê ter síndrome de Down: no mesmo conjunto de dados, no grupo de bebês cujas mães tinham menos de 20 anos, a prevalência de síndrome de Down era de 0,2 a cada 1000 nascidos vivos. Entre os bebês cujas mães tinham 40 anos ou mais, essa prevalência era de 8,5 a cada 1000 nascidos vivos, isto é, um aumento de mais de 40 vezes, como o autor aponta.

Correlação
O exemplo acima é uma ilustração de uma máxima frequente da estatística: a correlação não significa causalidade. Correlação significa que duas variáveis caminham juntas, ou na mesma direção – quanto maior a idade materna, maior a probabilidade de o bebê ter síndrome de Down –, ou em direções opostas – quanto maior a escolaridade, menor a proporção de pessoas que fumam. No exemplo da ocorrência de síndrome de Down, há duas correlações: com a ordem de nascimento e com a idade materna. Contudo, só na segunda há uma relação de causalidade.

Mas então, como garantir que a correlação encontrada por um estudo de fato reflete uma relação causal? Como vimos, nos ensaios clínicos, a alocação aleatória dos participantes nos grupos experimental e controle assegura que não haja variáveis não identificadas que possam interferir nos resultados. Em todos os tipos de estudos, contudo, o mais importante é o modelo causal usado para explicar o fenômeno estudado. É esse modelo que informa as variáveis a serem incluídas na análise. Retornando ao exemplo acima, a síndrome de Down é causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 21 e é mais comum que os óvulos de mulheres mais velhas carreguem uma cópia extra de um cromossomo (qualquer um, não só o 21). Portanto, é mais provável que uma mulher mais velha tenha um filho com síndrome de Down. Com base nisso, os pesquisadores sabem que a idade materna é uma variável relevante quando se estuda essa síndrome.

Significância estatística
Por outro lado, um estudo também pode encontrar correlações que são resultados de mero acaso, as chamadas correlações espúrias*. Essas correlações estão envolvidas num problema comum de estudos, o chamado “p-hacking”. Hacking aqui significa manipulação, enquanto o p do nome refere-se ao p-valor, que é uma medida estatística de significância.

O conceito de significância estatística está relacionado à probabilidade. O que os pesquisadores buscam saber é: qual é a probabilidade de que um dado resultado se deva apenas ao acaso? Se essa probabilidade for muito baixa, o resultado é considerado estatisticamente significativo. Em outras palavras, é muito mais provável que esse resultado reflita uma associação real entre duas variáveis do que uma associação espúria.

Contudo, se um pesquisador usar os resultados de um único estudo para testar um número suficientemente grande de hipóteses, é provável que ele chegue a pelo menos um resultado “estatisticamente significativo”, mas que não quer dizer nada porque é resultado de mero acaso [3]. A isso dá-se o nome de “p-hacking”. O “p-hacking” não necessariamente é resultado de uma manipulação intencional, mas pode acontecer se os pesquisadores não tomarem as devidas precauções na hora de analisar seus resultados. Como há a possibilidade de que resultados estatisticamente significativos ocorram apenas devido ao acaso (ou a erros do estudo) é importante que estudos científicos sejam reproduzidos, de forma a corroborar os resultados.

Com este texto, vimos um pouco sobre correlações, o que significa dizer que o resultado de um estudo é estatisticamente significativo, o que é confundimento e como pesquisadores usam técnicas estatísticas para isolar o efeito do que estão medindo das outras variáveis nos resultados. No próximo texto, vamos falar de um último elemento importante para entender ensaios clínicos: o efeito placebo.

*Para quem tiver curiosidade para ver na prática o tipo de conclusão absurda que resulta de correlações espúrias, este site tem vários exemplos, como a correlação entre o número de pessoas que se afogaram caindo em uma piscina e o número de filmes estrelando o ator Nicolas Cage que ilustra este texto.

Referências:
[1] Kamangar, Farin. Confounding Variables in Epidemiologic Studies: Basics and Beyond. Arch Iran Med. 2012; 15(8): 508 – 516
[2] Rothman, Kenneth J. Epidemiology: An introduction. Oxford: Oxford University Press, 2010.
[3] Sterne, Jonathan A. C.; Smith, George Davey. Sifting the evidence—what’s wrong with significance tests? BMJ. 2001 Jan 27; 322(7280): 226–231. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1119478/ (livre acesso)

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Segurança Alimentar no mundo em desenvolvimento: por onde caminhamos?

Nos dias atuais, o aumento da população e as taxas de consumo de recursos, produtos, bens e serviços já chegaram a demandas jamais vistas na história da humanidade. Quando passamos a refletir a respeito de nosso estilo de vida, ou sobre viver em um planeta com recursos finitos e que, em sua maior parte, não se renova na mesma medida em que é consumido, precisamos nos perguntar por onde caminharemos? No que diz respeito à agricultura, alimentação e sustentabilidade da produção agrícola e pecuária não é diferente.

Segundo dados do último relatório da Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) publicado em 2015, cerca 800 milhões de pessoas, aproximadamente 11% da população mundial, encontram-se em estado de subnutrição crônica. A porcentagem de terras ocupadas por agricultura somam cerca de 12% da cobertura livre de gelo (1,53 bilhões de hectares), enquanto pastagens cobrem 26% (3,38 bilhões de hectares). Em suma, a agropecuária ocupa cerca de 38% da superfície terrestre, representando a maior atividade de uso do solo do planeta.

Outro dado interessante do mesmo relatório da FAO é o que se refere à porcentagem de alimentos produzidos pela agricultura familiar ou comunidades agrícolas. Essa produção representa 70% do que está incluso, propriamente dito, na dieta da população mundial. Entretanto, essas famílias detém apenas 12% das terras produtivas no planeta.

Sendo assim, podemos nos perguntar, mas por que então, a taxa de subnutrição no mundo é tão elevada? O que significa essa tal de Segurança Alimentar e por que esse é um assunto de importância global? Bom, para responder a essas perguntas, precisaremos da ajuda de algumas e alguns pesquisadores pelo mundo.

Segurança alimentar seria a situação ideal na qual todo cidadão, em qualquer tempo e local, possui disponibilidade e acesso econômico a alimentos seguros e nutritivos que supram as necessidades diárias e preferências alimentares, possibilitando uma vida ativa e saudável. Os pilares da Segurança Alimentar caracterizam-se por disponibilidade, acesso e utilização dos alimentos, bem como a estabilidade econômica e política do país que se analisa (FAO, 2015).

O estudo de Katarzyna Boratinska, da Universidade de Biociências de Warsaw, na Polônia, em parceria com Raqif Tofiq Huseynovb, da Universidade Estadual de Agronomia do Azerbaijão, publicado em 2015, intitulado Uma nova abordagem para a criação de políticas públicas de segurança alimentar para países em desenvolvimento revela a relação existente entre a recessão econômica e os índices de subnutrição no mundo. Tanto fatores de dimensão macro como taxação fiscal e câmbio, que afetam a economia global; quanto micro, como a adoção de novas tecnologias e infraestrutura na produção, influenciam no aumento ou queda dos preços dos alimentos e, consequentemente, no número de famílias com acesso restrito aos mesmos.

A disponibilidade nutricional é um problema crônico nos países em desenvolvimento, que possuem, de modo geral, população urbana com graves contrastes sociais e população rural que depende de boas condições de trabalho no campo para produzir os alimentos com qualidade e em quantidade suficientes à demanda de mercado (BORATINSKA, 2015).

O gráfico abaixo, retirado do relatório da FAO, publicado em 2015 retrata a diminuição do nível de subnutrição, com o aumento da renda per capita nos países. Nota-se que, mesmo com o passar dos anos (de 1992 a 2010), a situação permanece a mesma, ou seja, países com menor renda per capita, possuem os maiores índices de subnutrição.

 

Figura texto Cientistas Femininas (3)

Fonte: The State of Insecurity food in the world, FAO, 2015.

Além das discussões propriamente econômicas e políticas acerca da produção de alimentos com garantia de segurança alimentar, a pesquisadora indiana e ativista Vandana Shiva alerta em suas pesquisas sobre o perigo do monopólio e uso dos insumos agrícolas e dos impactos dos mesmos aos agricultores e ao meio ambiente. Segundo ela, a utilização de fertilizantes químicos sintéticos, como o NPK (nitrogênio, fósforo e potássio, sob formas minerais), promove efeitos negativos como o desequilíbrio ecossistêmico em sua extração, a aplicação equivocada que provoca a acidificação dos solos agricultáveis, a liberação de gases que agravam o efeito estufa e a contaminação humana e ambiental por metais pesados presentes nas formulações (SHIVA, 2016).

Segundo Foley e uma equipe global de pesquisadores, em seu artigo Soluções para um planeta cultivado, publicado pela revista Nature em 2011, a utilização de insumos químicos (fertilizantes e pesticidas) aliado ao sistema agrícola de monoculturas (vulneráveis, uma vez que a biodiversidade não é considerada) desencadeia um desequilíbrio ecossistêmico que causa a dependência de utilização cada vez maior de insumos, o que acaba por fragilizar o solo e torná-lo improdutivo em um curto período de tempo.

Figura texto Cientistas Femininas (2)

Fonte: Artigo Solutions for a cultivated planet, Folley et al, 2011.

As figuras a e b ao lado, extraídas desse mesmo artigo mostram a diferença entre a atualidade (a) e o cenário futuro ideal em 2050 (b) para as metas de segurança alimentar (quadrantes superiores) e os impactos ambientais do sistema de produção (quadrantes inferiores).

Na parte superior, à esquerda, temos a produção real e total de alimentos, à direita, respectivamente, a distribuição e acesso aos alimentos e a resiliência dos sistemas de cultivo.  Nos quadrantes inferiores temos, à esquerda, a emissão total de gases do efeito estufa, bem como a perda de biodiversidade; à direita a poluição dos corpos hídricos e a insustentabilidade dos sistemas de irrigação.

Essa figura nos mostra de forma clara, os grandes desafios que podemos enfrentar, a fim de que a população mundial seja alimentada de forma segura e nutritiva e que os sistemas produtivos ainda tenham como princípio a conservação dos recursos naturais.

Diante de um cenário como esse, existem algumas alternativas possíveis, relacionadas às dimensões ambientais, políticas, econômicas e até a gênero, como evidencia mais uma vez a pesquisadora Vandana Shiva:

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Pesquisadora Vandana Shiva. Fonte: Google images

“As mulheres são a espinha dorsal da economia rural, especialmente no mundo em desenvolvimento. No entanto, elas recebem apenas uma fração da terra, crédito, insumos (como sementes melhoradas e fertilizantes), formação agrícola e informação em comparação com os homens. Capacitar e investir nas mulheres rurais tem demonstrado aumentar significativamente a produtividade, reduzir a fome e a desnutrição e melhorar os meios de subsistência rurais. E não só para as mulheres, mas para todos. ”

A melhoria da produtividade dos recursos agrícolas de forma sustentável desempenha um papel fundamental no aumento da disponibilidade alimentar com segurança. Políticas públicas que reconhecem a diversidade e complexidade dos desafios enfrentados pelos agricultores familiares, por meio da criação de uma cadeia de valores são necessárias para assegurar a segurança alimentar. Além disso, a gestão pública deveria incentivar a adoção de práticas sustentáveis de agricultores e técnicas (manejo adequado do solo, conservação, melhorias na gestão de recursos hídricos, diversidade de sistemas agrícolas, agroflorestas) (FAO, 2015).

No que diz respeito às medidas econômicas, é essencial a criação de linhas de crédito específicas aos agricultores, pesquisas e cursos de capacitação, a criação de estratégias viáveis para escoamento da produção, bem como outros tipos de auxílio capazes de impulsionar a utilização sustentável da terra e garantir a geração de alimentos acessíveis, seguros e nutritivos para toda a população.

A Cartilha Parlamentar do Ministério do Meio Ambiente lançada no início deste ano (2017) possui propostas em dois Programas para a utilização consciente do solo. Nesta cartilha, é possível saber como os recursos financeiros podem ser utilizados, sua origem e destino. Resta saber de que forma pode-se monitorar e verificar se, de fato, todas essas propostas serão colocadas em prática. Mais do que possuir uma legislação consistente e transparente, o poder público, a sociedade civil, empresas e demais atores devem agir em conjunto, a fim de viabilizar a implantação desses programas e transformar a realidade desses países rumo à garantia de Segurança Alimentar.

Embora a visão geral de estratégias para atingir a garantia da Segurança Alimentar seja clara, os detalhes e a forma como essa abordagem pode ser efetiva ainda são subjetivos. Dessa forma, a economia e os gestores públicos exercem um papel fundamental no preenchimento dessas lacunas (BORATINSKA, 2015).

 

  • SHIVA, V. The violence of the Green Revolution: third world agriculture, ecology and politics. University Press of Kentucky, 1ª ed,  257p . EUA, 2016.
  • BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. Cartilha Parlamentar 2016-2017, 1ª ed., Brasília-DF, 2017. Disponível em: http://coleciona.mma.gov.br/wp-content/uploads/bsk-pdf-manager/LIVRO_MMA_Cartilha_Parlamentar_WEB_116.pdf. Acesso: 10 jun. 2017.
  • FOLEY, J. ; RAMANKUTTY, N. ; BRAUMAN, K. ; CASSIDY, E. S.; GERBER, J. S.; JOHNSTON, M.; MUELLER, N. D.; O’CONNELL, C.; RAY,  D. K.; WEST, P. C.; BALZER, C.; BENNETT, E. M.; CARPENTER, S. R.; HILL, J.;MONFREDA,  C.; POLASKY, S.; ROCKSTRÖM, J.; SHEEHAN, J.; SIEBERT, S.; TILMAN, D. and ZAKS, D. P. M. Solutions for a cultivated planet., Nature Analysis, vol. 478, no. 7369, p. 337–42, Outubro, 2011.
  • BORATINSKA, K.; HUSEYNOVB, R. T. An innovative approach to food security policy in developing countries, Journal of Innovation & Knowledge, Elsevier Espanha, vol 2 p. 39–44, 2017.
  • FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION (FAO), WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). The state of food insecurity in the world,.. Rome: FAO; 2015. Disponível em: ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/009/a0822e/a0822e00.pdf. Acesso em: 22 jul. 2017.
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Vulnerabilidade e HIV em Mulheres

Quando a epidemia de AIDs teve seu grande “boom” , na década de 80, a proporção de homens infectados era de 40 para cada 1 caso em mulheres, quando chegou ao Brasil, a proporção aqui era de 16:1. Essa realidade mudou muito, sendo que, atualmente, temos uma razão de 1,5:1 casos em homens para cada mulher, demonstrando uma feminização da doença. Hoje, podemos dizer que a mulher seja duas vezes mais suscetível à infecção do que os homens. O porquê disso? Entre os motivos que explicam esse maior risco entre mulheres temos fatores anatômicos, fisiológicos, sociais e culturais.

Primeiro vamos entender melhor esse contexto?

O HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana – é um retrovírus (vírus de RNA) que causa a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), uma doença que ataca o sistema imunológico, destruindo células de defesa, principalmente, linfócitos T CD4+, tornando os portadores altamente suscetíveis à múltiplas infecções. A AIDS não possui cura, com terapia antirretroviral, usando um coquetel de fortes medicamentos é possível manter muito baixa a carga viral e controlar os sintomas. Segundo levantamento de 2016, apresentando pela UNAIDS Brasil, existem no mundo 36,7 milhões de pessoas vivendo com HIV, sendo que, atualmente, 18,2 milhões tem acesso à terapia antiretroviral. Do total de casos 17,8 são mulheres, e 77% das pacientes soropositivas que engravidam tem acesso ao tratamento para prevenir a transmissão da infecção ao feto, resultando em uma grande diminuição do número de novos casos em crianças. O HIV matou, em 2016, em todo o mundo, 1,1 milhão de pessoas, e mesmo assim, a cada ano, temos mais de 2 milhões de casos novos.

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Estimativas UNAIDS de junho de 2016, indicam 18,2 milhões de pessoas HIV+ em terapia antirretroviral.
Os estudos apontam que a faixa etária de maior risco são os jovens, entre 15 e 24 anos, principalmente naqueles países onde a passagem da infância para vida adulta é muito turbulenta, realidades em quea taxade escolaridade é baixaea de violência altíssima. Na adolescência, o risco de contrair o HIV torna-se maior em meninas, especialmente, no continente africano; na África do Sul verificou-se a existência de um ciclo vicioso, em que meninas jovens contraem o vírus de homens adultos, e conforme envelhecem passam a doença a outros homens que tendem a se relacionar com meninas mais jovens.

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Estimativas UNAIDS Brasil, mostram a incidência em mulheres de HIV de 2005-2015.

 

No Brasil,em 2015, haviam 830 mil pessoas vivendo com HIV, uma prevalência de 0,7% da população, causando cerca de 15 mil mortes no mesmo ano. No período entre 1995 e 2005, o número de mulheres com HIV no país teve um crescimento de 44%, e estudos demonstraram que 52% dessas mulheres tinham baixa escolaridade, baixa renda e faziam partes de grupos de vulnerabilidade. Isso levou a Secretaria de Políticas da Mulher e o Ministério da Saúde a reconhecer o aumento da vulnerabilidade da mulher ao HIV e criar o Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia do HIV/Aids e DSTs, em 2007 como parte do Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência contra Mulheres.

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Realidade da Epidemia de HIV no Brasil em 2015. Estimativas UNAIDS e Ministério da Saúde.

Por que precisamos falar dos números do HIV em mulheres? Primeiramente, o risco de contágio na relação sexual de uma mulher com homem soropositivo é maior do que quando um homem tem relações com uma mulher soropositiva, isso porque a mucosa vaginal tem células que facilitam a entrada do vírus, além de ser porta para o organismo da mulher, alguns estudos também indicam que o sistema imunológico feminino responde de forma diferente ao vírus, se tornando mais vulnerável. Temos, também, os agravantes culturais e sociais nessa história toda. A desigualdade de gênero dificulta que a mulher tome as rédeas de sua própria vida sexual. Ela, em muitos casos, apresenta dificuldade de negociar com o parceiro o uso de preservativo, e isso ainda é um tabu para muitas mulheres, pois alguns homens se recusam a usar camisinha; 80% das
adolescentes, no início da vida sexual, relata já ter tido relações sem preservativo. Segundo estudo realizado na cidade de Porto Alegre, pela pesquisadora Lisiane M. W. Acosta e colaboradores, quanto menor o nível educacional e quanto mais jovens as meninas iniciam sua vida sexual mais pressionadas elas se sentem a ceder aos desejos do parceiro, sem a devida proteção. Por exemplo, na faixa dos 13 aos 19 anos, existem mais mulheres com HIV do que homens, a única faixa etária na qual essa inversão ocorre. Em 86% dos casos de HIV feminino o contágio se deu por relação sexual heterossexual, muitas vezes, em relações estáveis. As mulheres casadas ou em relacionamentos longos deixam de usar preservativo com o companheiro mas muitas vezes contraem a doença deles gerando, além de toda a doença, um grande abalo familiar. Irônico pensar que o casamento pode ser considerado um fator de risco para doenças sexualmente transmissíveis, mas, infelizmente, a segurança de uma relação torna as mulheres mais vulneráveis. Sem falar que o sexo feminino é alvo, infinitamente mais frequente, de agressão e abuso sexual do que os homens, aumentando grandemente o risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV. O uso de drogas injetáveis, pela mulher ou pelo parceiro, também contribui para esses números, o vício leva algumas mulheres a oferecerem sexo em troca de drogas. Outro fator é a prostituição, historicamente, a grande maioria das pessoas que fazem sexo por dinheiro são mulheres, e alguns dos clientes fazem questão, pagando mais por isso, de não usar preservativo, e ainda essas mulheres estão mais expostas a agressões sexuais, devido aos preconceitos e discriminações culturais. Para piorar toda a situação a mulher com HIV se sente constrangida em buscar ajuda, inclusive, nos serviços de saúde, onde se sente “julgada” pelos profissionais, como a maioria das infectadas são justamente das classes mais baixas, relatam dificuldade de entender o que o infectologista fala, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, por exemplo, à nutricionista, e vergonha em falar sobre a sua vida sexual com ginecologistas. No Brasil, entre mulheres negras é encontrado o menor percentual de uso de preservativo em relações sexuais relatado, refletindo questões socioeconômicas de acesso à informação e aos serviços de saúde. Logo, precisamos falar sobre sexo, sobre uso de preservativo, sobre HIV, precisamos ter liberdade de questionar sobre nosso corpo, e decidir sobre nossa vida sexual, temos o direito de nos proteger. Muitas vezes, vemos na mulher o medo de uma gestação indesejada, mas a quantas doenças você está se expondo de forma desnecessária?Precisamos pensar sobre isso.

Referências