A semente do ódio

Diversos estudos tem buscado compreender melhor o que leva nascidos em países desenvolvidos e distantes dos atuais conflitos armados que engendram grupos considerados terroristas a integrarem esses mesmos grupos, com destaque para as teorias no campo das ciências psicológicas e comportamentais.

Em esforço de campo considerável para subsidiar essas teorias, a equipe liderada por Milan Obaidi (Uppsala University, Suécia) publicou recentemente estudo em que buscou confrontar dois grupos: de um lado, imigrantes muçulmanos nascidos na Dinamarca ou sem experiência direta com intervenções militares no país de origem; de outro, afegãos que residiam no país de origem à época da intervenção militar da OTAN nesse país em 2001. No primeiro grupo, cerca de 93% tinha idade entre 18 e 34 anos — a faixa etária da maioria dos suspeitos de terrorismo [1]. No segundo, eram cerca de 66% de 20 a 30 anos [2].

Esse estudo, entre outros resultados relevantes, indicou que muçulmanos nascidos na Dinamarca comparados aos de primeira geração (aqueles que imigraram para a Dinamarca, tanto os com quanto sem experiência direta com a intervenção da OTAN)  [3]:

  • sentem-se mais identificados com muçulmanos pelo mundo;
  • acham menos justa a política externa ocidental;
  • sentem mais ódio coletivo;
  • pensam mais em apoiar a comunidades muçulmanas por meios não-violentos;
  • ressentem mais as intervenções militares da OTAN em um país no qual não foram nascidos.

Algo acontece, portanto, nos países que acolhem esses muçulmanos que os ali nascidos sentem mais “ódio” do que os pais e mais do que quem ficou no local de origem destes, mesmo a milhas de distância do conflito a que veementemente repudiam [4].

Mais ressentidas, as novas gerações nascidas longe dos conflitos estariam ainda mais propensas à violência do que os inseridos nesses contextos e de quem, por sua maior proximidade geográfica, poderia se esperar um envolvimento mais direto com os grupos ditos terroristas.

Para os autores, essas conclusões são exemplo de “resposta psicológica por substituição”, a qual poderia se agravar em casos de isolamento e exclusão em comunidades étnicas como ocorre com a muçulmana na Europa. A esse respeito, vale citar um entrevistado da segunda geração, para quem outros dinamarqueses os veriam como: “(…) elementos indesejáveis na sociedade dinamarquesa, e nós nunca seremos ‘dinamarqueses’ a seus olhos. Para eles, nós sempre seremos um grupo indesejável e excluído.” [5]

A semente do ódio, afinal, muito mais do que em uma ou outra religião, pode ser encontrada simplesmente naquela velha inimiga: a exclusão social. Essa semente, definitivamente, não “nasce” com as pessoas.


Notas:

[1] OBAIDI et. al.; 2017; p. 10. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 16 to 74, with the majority between 18-34-age (i.e., 93.6% of the total sample). Importantly, the age of these participants matches the distribution of those who join terrorist organizations in Europe (e.g., Bakker, 2006). All participants identified as either first (56.7%) second (34.9%) or third (1.9%) generation Muslim immigrants to Denmark.” Trad. livre.

[2] OBAIDI et. al.; 2017; p. 17. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 18 to 65, with the majority between 20-30-age (i.e., 65.9% of the total sample). All participants identified as either first (63.9%), second (27.7%) or third (1.3%) generation Muslim immigrants in Denmark.” Trad. livre.

[3] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Beyond the path models, additional results from Study 1 showed that native-born participants were more strongly identified with Muslims, perceived Western foreign policies as more unjust, felt more group-based anger and showed stronger intentions to support Muslims by non-violent means. In study 2 we found the same trends.” Trad. livre; grifos no original.

[4] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Overall, an important lesson from this inquiry is that the current focus on the relation between Muslims and non-Muslims in the Middle East must be complemented with a stronger focus on the intergroup dynamics within Western societies.” Trad. livre.

[5] OBAIDI et. al.; 2017; p. 23. No original e na íntegra: “As one interviewee put it “many Danes [ethnic Danes] see us as an undesirable element in the Danish society, although we are born and raised here. We speak Danish, we think Danish and we feel Danish, but we will never be ‘Danes’ in the Danes’ eyes. For them we will always be an unwanted and excluded group of people” (Translated from Danish; Obaidi, 2017).” Trad. livre.

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– Bibliografia –

OBAIDI, Milan; BERGH, Robin; SIDANIUS, Jim; THOMSEM, Lotte. The Mistreatment of My People: Victimization by Proxy and Behavioral Intentions to Commit Violence Among Muslims in Denmark. IN: Political Psychology, jun 2017. Disponível: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pops.12435/abstract>

Free version (for review only):<www.academia.edu/32662712/The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark_The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark>

 

Ver também:
Journalists Resource. “Muslims in Europe: Considering anger among immigrants’ children” [26 Jul 2017]. Disponível: <https://journalistsresource.org/studies/international/conflicts/muslims-europe-radicalism-immigrants-children-jihad?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email>

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