Criptococose: uma doença fúngica que precisa de atenção

Era 2 setembro de 2016 e o Hospital São José do Avaí, no Rio Janeiro, realizava os atendimentos como de costume, até que o paciente Sérgio* deu entrada se queixando de dores na região torácica e na cabeça. Uma semana após a internação, ele piorou: teve insuficiência respiratória e perda do nível de consciência. Depois de uma bateria de exames e por ser ex-tabagista, suspeitou-se de câncer de pulmão ou tuberculose. O que a equipe médica não sabia é que, na verdade, a causa da doença do sr. Sérgio era um fungo do gênero Cryptococcus.

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Levedura de Cryptococcus neoformans observada ao microscópio. Disponível aqui.

Cryptococcus é o gênero de um fungo distribuído mundialmente e que, em ambientes naturais, é encontrado principalmente em árvores, como eucalipto, e em excretas de aves, especialmente pombos. Ele tem formato de levedura e é caracterizado pela presença de uma cápsula polissacarídica que envolve toda a sua célula (halo observável na figura), cuja função é impedir a fagocitose por células do sistema imune do hospedeiro. Esse fungo foi primeiramente descrito por pesquisadores alemães e italianos em 1894, mas somente foi reconhecido como uma grande ameaça à saúde com o início da pandemia da AIDS na década de 1980. São duas espécies de Cryptococcus, C. neoformans e C. gattii,  que causam uma das mais sérias doenças fúngicas do mundo, a criptococose.

criptococose

Ciclo de Infecção por Cryptococcus. Disponível no link, com adaptação.

A criptococose acomete animais silvestres e domésticos, principalmente cachorros e gatos, e humanos. É uma doença oportunista que ocorre majoritariamente em indivíduos imunocomprometidos, como os portadores de HIV, pacientes submetidos à quimioterapia ou pacientes transplantados tratados com imunossupressores. Todavia, também pode acometer pessoas com o sistema imunológico normal, como ocorreu no grande surto de infecções por Cryptococcus gattii, no final da década de 90, na ilha de Vancouver, no Canadá.

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Radiografia de tórax de Sérgio. Disponível em GENTIL et al., 2016.

Durante a realização dos exames de Sérgio, uma radiografia de tórax evidenciou a presença de uma massa no lobo inferior do pulmão direito do paciente. De fato, a infecção por Cryptococcus se dá pelas vias respiratórias, por meio da inalação de partículas infecciosas. O fungo então se aloja nos alvéolos pulmonares, onde pode se proliferar. A criptococose afeta, assim, inicialmente os pulmões, onde a infecção pode ser erradicada ou contidas num glanuloma ou, ainda, disseminada para o resto do corpo. Em hospedeiros imunocompetentes, a maioria das infecções primárias são assintomáticas e erradicadas. O desenvolvimento ou não da doença dependerá da resposta do sistema imune do hospedeiro: pode se tornar latente com o patógeno contido em glanulomas (podendo, entretanto, ser reativada depois se estabelecido um quadro de imunossupressão), ou evoluir para a sua forma aguda. O quadro clínico mais grave da criptococose se dá ao atingir o sistema nervoso central, causando a meningite criptocócica. Isso pode justificar as dores de cabeça das quais Sérgio se queixava.

Infelizmente, após uma parada cardiorrespiratória, o paciente não resistiu. Sr. Sérgio foi um dos 625 mil casos de mortes, dentre os um milhão de casos de criptococose que ocorrem a cada ano, especialmente em países em desenvolvimento.  A grande dificuldade de um diagnóstico rápido e adequado é um dos empecilhos para a erradicação deste patógeno, uma vez que os sintomas da criptococose (tais como as dores torácicas e na cabeça, e insuficiência respiratória apresentadas por Sérgio) são facilmente confundidos com de outras doenças.

Recentemente, houve um grande avanço no combate da criptococose: o desenvolvimento de um teste rápido que, além de permitir o diagnóstico precoce, é de baixo custo e, portanto, acessível. Esforços como este têm sido realizados por pesquisadores de todo o mundo, inclusive pelo grupo de pesquisa da Universidade de Brasília do qual faço parte , para cada vez mais conhecermos a biologia desse fungo e desenvolvermos, assim, alternativas terapêuticas e de prevenção.

*Nome fictício.

PRINCIPAIS REFERÊNCIAS:

DOERING. How does Cryptococcus get its coat? Trends Microbiology, 8(12). 2000.

GENTIL et al. Criptococose: Relato de Caso. Acta Biomedica Brasiliensia, 7 (2). 2016.

MAY et al. Cryptococcus: from environmental saprophyte to global pathogen. Nature Reviews Microbiology, 14(2). 2016.

 

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2 comentários sobre “Criptococose: uma doença fúngica que precisa de atenção

  1. Pingback: Vamos conversar sobre a história da Aids? | cientistasfeministas

  2. fui diagnosticada com neoplasia maligna nódulo de 3 cm..,fiz uma cirurgia no hospital Amaral Carvalho em Jahu,o resultado da biopsia foi negativo e constatado Fungos Criptococose,bola fúngica,tenho muita dor de cabeça,o infectologista disse que não e necessario tirar liquida da coluna para exame ,so que passo 24 horas com dores de cabeça,o que devo fazer não aguento mais tomar dipirona.

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