Vulnerabilidade e HIV em Mulheres

Quando a epidemia de AIDs teve seu grande “boom” , na década de 80, a proporção de homens infectados era de 40 para cada 1 caso em mulheres, quando chegou ao Brasil, a proporção aqui era de 16:1. Essa realidade mudou muito, sendo que, atualmente, temos uma razão de 1,5:1 casos em homens para cada mulher, demonstrando uma feminização da doença. Hoje, podemos dizer que a mulher seja duas vezes mais suscetível à infecção do que os homens. O porquê disso? Entre os motivos que explicam esse maior risco entre mulheres temos fatores anatômicos, fisiológicos, sociais e culturais.

Primeiro vamos entender melhor esse contexto?

O HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana – é um retrovírus (vírus de RNA) que causa a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), uma doença que ataca o sistema imunológico, destruindo células de defesa, principalmente, linfócitos T CD4+, tornando os portadores altamente suscetíveis à múltiplas infecções. A AIDS não possui cura, com terapia antirretroviral, usando um coquetel de fortes medicamentos é possível manter muito baixa a carga viral e controlar os sintomas. Segundo levantamento de 2016, apresentando pela UNAIDS Brasil, existem no mundo 36,7 milhões de pessoas vivendo com HIV, sendo que, atualmente, 18,2 milhões tem acesso à terapia antiretroviral. Do total de casos 17,8 são mulheres, e 77% das pacientes soropositivas que engravidam tem acesso ao tratamento para prevenir a transmissão da infecção ao feto, resultando em uma grande diminuição do número de novos casos em crianças. O HIV matou, em 2016, em todo o mundo, 1,1 milhão de pessoas, e mesmo assim, a cada ano, temos mais de 2 milhões de casos novos.

hiv

Estimativas UNAIDS de junho de 2016, indicam 18,2 milhões de pessoas HIV+ em terapia antirretroviral.
Os estudos apontam que a faixa etária de maior risco são os jovens, entre 15 e 24 anos, principalmente naqueles países onde a passagem da infância para vida adulta é muito turbulenta, realidades em quea taxade escolaridade é baixaea de violência altíssima. Na adolescência, o risco de contrair o HIV torna-se maior em meninas, especialmente, no continente africano; na África do Sul verificou-se a existência de um ciclo vicioso, em que meninas jovens contraem o vírus de homens adultos, e conforme envelhecem passam a doença a outros homens que tendem a se relacionar com meninas mais jovens.

hiv1

Estimativas UNAIDS Brasil, mostram a incidência em mulheres de HIV de 2005-2015.

 

No Brasil,em 2015, haviam 830 mil pessoas vivendo com HIV, uma prevalência de 0,7% da população, causando cerca de 15 mil mortes no mesmo ano. No período entre 1995 e 2005, o número de mulheres com HIV no país teve um crescimento de 44%, e estudos demonstraram que 52% dessas mulheres tinham baixa escolaridade, baixa renda e faziam partes de grupos de vulnerabilidade. Isso levou a Secretaria de Políticas da Mulher e o Ministério da Saúde a reconhecer o aumento da vulnerabilidade da mulher ao HIV e criar o Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia do HIV/Aids e DSTs, em 2007 como parte do Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência contra Mulheres.

hiv2

Realidade da Epidemia de HIV no Brasil em 2015. Estimativas UNAIDS e Ministério da Saúde.

Por que precisamos falar dos números do HIV em mulheres? Primeiramente, o risco de contágio na relação sexual de uma mulher com homem soropositivo é maior do que quando um homem tem relações com uma mulher soropositiva, isso porque a mucosa vaginal tem células que facilitam a entrada do vírus, além de ser porta para o organismo da mulher, alguns estudos também indicam que o sistema imunológico feminino responde de forma diferente ao vírus, se tornando mais vulnerável. Temos, também, os agravantes culturais e sociais nessa história toda. A desigualdade de gênero dificulta que a mulher tome as rédeas de sua própria vida sexual. Ela, em muitos casos, apresenta dificuldade de negociar com o parceiro o uso de preservativo, e isso ainda é um tabu para muitas mulheres, pois alguns homens se recusam a usar camisinha; 80% das
adolescentes, no início da vida sexual, relata já ter tido relações sem preservativo. Segundo estudo realizado na cidade de Porto Alegre, pela pesquisadora Lisiane M. W. Acosta e colaboradores, quanto menor o nível educacional e quanto mais jovens as meninas iniciam sua vida sexual mais pressionadas elas se sentem a ceder aos desejos do parceiro, sem a devida proteção. Por exemplo, na faixa dos 13 aos 19 anos, existem mais mulheres com HIV do que homens, a única faixa etária na qual essa inversão ocorre. Em 86% dos casos de HIV feminino o contágio se deu por relação sexual heterossexual, muitas vezes, em relações estáveis. As mulheres casadas ou em relacionamentos longos deixam de usar preservativo com o companheiro mas muitas vezes contraem a doença deles gerando, além de toda a doença, um grande abalo familiar. Irônico pensar que o casamento pode ser considerado um fator de risco para doenças sexualmente transmissíveis, mas, infelizmente, a segurança de uma relação torna as mulheres mais vulneráveis. Sem falar que o sexo feminino é alvo, infinitamente mais frequente, de agressão e abuso sexual do que os homens, aumentando grandemente o risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV. O uso de drogas injetáveis, pela mulher ou pelo parceiro, também contribui para esses números, o vício leva algumas mulheres a oferecerem sexo em troca de drogas. Outro fator é a prostituição, historicamente, a grande maioria das pessoas que fazem sexo por dinheiro são mulheres, e alguns dos clientes fazem questão, pagando mais por isso, de não usar preservativo, e ainda essas mulheres estão mais expostas a agressões sexuais, devido aos preconceitos e discriminações culturais. Para piorar toda a situação a mulher com HIV se sente constrangida em buscar ajuda, inclusive, nos serviços de saúde, onde se sente “julgada” pelos profissionais, como a maioria das infectadas são justamente das classes mais baixas, relatam dificuldade de entender o que o infectologista fala, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, por exemplo, à nutricionista, e vergonha em falar sobre a sua vida sexual com ginecologistas. No Brasil, entre mulheres negras é encontrado o menor percentual de uso de preservativo em relações sexuais relatado, refletindo questões socioeconômicas de acesso à informação e aos serviços de saúde. Logo, precisamos falar sobre sexo, sobre uso de preservativo, sobre HIV, precisamos ter liberdade de questionar sobre nosso corpo, e decidir sobre nossa vida sexual, temos o direito de nos proteger. Muitas vezes, vemos na mulher o medo de uma gestação indesejada, mas a quantas doenças você está se expondo de forma desnecessária?Precisamos pensar sobre isso.

Referências

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s