Os avanços no conhecimento da Zika: a Primavera Científica Brasileira

2017. Pouco se lê na mídia sobre a zika. Poucos ouvem falar sobre um vizinho, primo, amigo de um amigo que tenha desenvolvido zika recentemente. Parece até estranho quando aparece uma notícia sobre cientistas ainda estudando o causador da doença. Mas o raciocínio é exatamente o oposto. Quanto mais conhecimento se gera sobre uma doença, menor a possibilidade de ela causar danos a uma população. E é isso que pesquisadores brasileiros vêm fazendo com tanta competência nesses últimos dois anos no caso da zika. Além dos trabalhos visando a prevenção a partir de vacinas feito por um grupo do Instituto Evandro Chagas, no Pará (1), um trabalho recente, do grupo de pesquisa liderado pelo Dr. Lindomar José Pena do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, da Fundação Oswaldo Cruz de Pernambuco, mostrou uma possibilidade terapêutica para o tratamento da zika (2).

Para desenvolver algum tratamento que combata o desenvolvimento dessa doença é necessário entender como o vírus se espalha e replica. E foi isso que os pesquisadores de Pernambuco fizeram. O vírus Zika é um Arbovirus cuja principal característica é ser transmitido por insetos. Também são Arbovirus aqueles que causam a dengue e a febre amarela. Até pouco tempo, acreditava-se que o vírus Zika só seria transmitido por meio do repasto sanguíneo (popularmente conhecido como “picada”) de mosquitos da espécie Aedes aegypti. No entanto, outro grupo pernambucano também mostrou que mosquitos da espécie Culex quinquefasciatus, a muriçoca ou pernilongo doméstico, podem transmitir o vírus (3). Os efeitos do vírus Zika no desenvolvimento de fetos e a conseqüência social que isso acarreta já foram abordados por aqui antes. De fato, um grupo de cientistas cariocas mostrou alguns mecanismos celulares e moleculares pelos quais o vírus altera o crescimento e desenvolvimento de cérebros em formação (4). Um dos mecanismos moleculares que pode resultar em microcefalia é a forma de replicação do vírus. O vírus Zika tem uma maneira única de carregar seu material genético que, grosso modo, é a “lista de ingredientes da receita” de fazer novos vírus. Essa receita é dividida em duas partes: a primeira parte diz as características físicas do vírus, a segunda qual material genético faz um novo vírus, ou seja, novas receitas para ser carregadas pelas estruturas físicas. No entanto, apesar de ter a receita, o vírus vai buscar os ingredientes dentro das células dos humanos. Uma particularidade do vírus Zika é a preferência por buscar seus ingredientes dentro de células do sistema nervoso e, com isso, prejudicá-las.

figura virus

 

O que o grupo do Dr. Pena fez foi utilizar essa forma de replicação para enganar o vírus. O grupo tratou células infectadas com o vírus com a substância 6-metilmercaptopurina (6MMP) que é um nucleotídeo ligado a um átomo de enxofre, ou seja, um ingrediente modificado que faz parte da segunda etapa da receita. Ao usar o 6MMP o vírus não consegue completar a receita e, assim, não conseguem se replicar. Os pesquisadores fizeram experimentos in vitro usando linhagens de células mantidas em placas específicas para cultura de células e obtiveram uma série de resultados bastante interessantes. A substância 6MMP usada em concentrações bem baixas (de 19,7 a 157 µM) foi capaz de evitar a replicação do vírus Zika sem, com isso, matar as células humanas, uma característica muito importante num medicamento. Outro dado bastante interessante foi que o 6MMP foi mais eficaz em inibir a replicação do vírus quando este estava infectando células neuronais. É importante ressaltar que os experimentos conduzidos por Dr. Pena utilizaram os vírus isolados no surto de 2015-2016. Como mostrado por outro grupo de cientistas do Rio de Janeiro, os vírus circulantes no Brasil entre 2014-2016 possuem características físicas e genéticas diferentes dos vírus Zika encontrados em outras partes do mundo. O grupo acredita que estas novas características facilitem a entrada do vírus nos neurônios em desenvolvimento, o que explica o fato de só no Brasil e alguns poucos territórios próximos o vírus ter causado as neuropatologias e porquê estudos científicos anteriores com outros vírus Zika não identificaram a característica neurotóxica (5).

figura 2.tif

Apesar dos promissores resultados, um longo caminho ainda precisa ser trilhado para se colocar um medicamento antivírus Zika no mercado. Experimentos mais elaborados e complexos precisam ser realizados para ter certeza que a substância é eficaz e segura antes de iniciar os testes em humanos. De fato, é necessário que se estude: qual o melhor veiculo de administração da substância (comprimido ou injetável, por exemplo), se a substância chega às células neurais infectadas após a administração, se a substância não é tóxica a fetos e se não apresentará tantos efeitos colaterais que não valha o benefício do tratamento.

(1) Richner e colaboradores Cell. 2017; 170(2):273-283.

(2) Carvalho e colaboradores. The thiopurine nucleoside analogue 6-methylmercaptopurine riboside (6MMPr) effectively blocks zika virus replication. Int J Antimicrob Agents. 2017. pii: S0924-8579(17)30308-4.

(3) Guedes e colaboradores. Emerg Microbes Infect. 2017; 6(8):e69.

(4) Garcez e colaboradores. Zika virus disrupts molecular fingerprinting of human neurospheres. Sci Rep. 2017; 7:40780.

(5) Metsky e colaboradores. Zika virus evolution and spread in the Americas. Nature. 2017; 546(7658):411-415.

https://www.khanacademy.org/science/biology/biology-of-viruses/virus-biology/a/what-is-zika-virus

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