Um espaço acadêmico todo seu – e seguro

[Contém spoilers, se é que alguém ainda não viu 13 Reasons Why]

Aproveitei as férias e terminei, muito atrasada, de assistir ao seriado meio adolescente, meio super-pesado-na-verdade, 13 Reasons Why. Ao longo do ano, desde o seu lançamento, muitas foram as polêmicas envolvendo a questão do suicídio juvenil: alguns diziam que o seriado aumentava a consciência para o problema, outros condenavam a aparente forma simplista em que tudo foi construído. Eu, infelizmente, confesso que não fui tão absorvida por essa questão – sem querer diminuir sua importância –, porque eu já tinha sido totalmente hipnotizada, chocada, profundamente incomodada por dois dos 13 motivos apresentados no seriado pelos quais a adolescente Hannah Baker tira sua própria vida: tanto a personagem principal quanto uma colega são estupradas pelo mesmo rapaz, aquele típico aluno privilegiado que aparece com frequência em filmes (atleta, popular, branco, de família rica, etc). Tanto as meninas quanto o rapaz, pelo o que eu entendi, tinham apenas 17 anos na história.

E ainda que esse jovem seja uma personagem um tanto estereotipada, eu sabia que a história que estava sendo contada ali não tinha nada de fictício. Eu sei disso, na verdade, porque fiz parte da minha pesquisa de doutorado em uma universidade no Canadá, que convidava todas as alunas a participar de um curso de defesa pessoal. Mas não era um curso de defesa em geral. Era um curso específico para defesa contra tentativas de estupro, o que eu só descobri quando cheguei lá. E eu descobri também que, enquanto estávamos fazendo esse curso, a universidade promovia palestras para os meninos ingressantes para explicar que “não é não”. E por quê? Nas universidades da América do Norte (EUA e Canadá apenas), ocorre 1 estupro por dia. A grande maioria é feita em grupos por meninos populares, estilo atleta, que moram naquelas fraternidades tradicionais. Eles convidam calouras ingênuas e tímidas, fazem uma bebida muito doce com muito álcool e, depois, cada menino leva a sua “presa” previamente escolhida para o seu quarto. O modus operandi padrão é o rapaz apoiar o seu braço na garganta da menina enquanto a estupra, ou seja, ele também a asfixia e a impede, assim, de lutar. Infelizmente, a média de tempo que essa vítima demora para denunciar ou falar sobre o que aconteceu é de cinco anos. Não há mais provas, não há punição. Então a universidade começou um trabalho de prevenção: as meninas se defendem, e os meninos vão para a sala de aula aprender que eles não podem fazer isso.

O curso foi muito chocante, não só pelos dados dessa realidade absurda ou pelas aulas de como chutar, dar soco, golpe aqui e ali, como reagir e controlar o pânico (essa parte foi tensa, mesmo sendo uma simulação). Mas as dicas e conselhos, isso foi triste. Coisas como, se você for a uma festa e souber que vai voltar sozinha de noite, vá de calça e sapato baixo (ou leve um tênis na bolsa). Você corre melhor assim e pode ser que não seja escolhida pelo agressor já que eles preferem mulheres de salto (elas não conseguem correr) e arrancar a saia é mais fácil. Não basta a mulher não poder usar a roupa que quiser por medo de ser julgada – puta, frígida, hippie suja, etc. –, ela ainda tem que pensar que, naquela noite mesmo, pode ser atacada: então vamos colocar um tênis. Algumas colegas manifestaram descontentamento com essa dica em especial como sendo muita submissão, e a professora disse, com um olhar muito triste, “a gente só quer que vocês sobrevivam”. De certa forma, eu entendi a professora, mesmo com um gosto amargo na boca: ela não estava, de nenhuma maneira, tentando colocar a culpa dos estupros nas mulheres por terem usado saia, por exemplo, apenas relatando informações e estatísticas, coletadas em entrevistas com estupradores condenados, para entendermos como eles escolhiam suas vítimas exatamente para evitarmos ser uma delas. Mesmo assim, deixar o medo ditar o seu guarda-roupa é também uma forma de violência, tornada ainda pior quando as próprias autoridades usam esse argumento no velho discurso de que a mulher “estava pedindo” para ser atacada. A revolta com esse tipo de discurso levou, por exemplo, à criação do movimento Marcha das Vadias em Toronto e que hoje é um evento mundial.

Como tudo isso ocorreu em um ambiente universitário, comecei a pensar em Virginia Woolf. No ensaio “Um teto todo seu” (1929), ela defende que, para produzir literatura, é necessário uma paz específica, um tipo de tranquilidade em que você não se sente pressionada com questões tão irritantes como, por exemplo, pagar suas contas. É necessário segurança emocional, por assim dizer, representada por esse “teto todo seu” e uma renda de 500 libras por mês. Substitua agora a palavra “literatura” por “pesquisa científica”. Um dos motivos pelo qual as mulheres demoraram a entrar no território da literatura, diz Woolf, é que elas não tinham dinheiro, não tinham paz, não tinham um teto todo seu, um quarto privado onde elas poderiam se trancar para produzir sem serem questionadas sobre o que faziam. E eu pensei, então, que no topo de todos os problemas que as cientistas mulheres precisam enfrentar na carreira acadêmica, há, ainda, um problema real de segurança. Pelo o que eu escutei naquele curso no Canadá, nem as melhores universidades do mundo conseguiram ainda construir ambientes seguros para as mulheres. O que me leva à minha última lembrança. Ainda naquele mesmo ano, um cientista inglês, Sir Tim Hunt, ganhador do prêmio Nobel, declarou que apoiava que laboratórios contratassem apenas pesquisadores de um só gênero porque, quando homens e mulheres se misturavam, três problemas ocorriam: “elas se apaixonam por você, você se apaixona por elas, e quando elas são criticadas, elas choram” (veja no Cientistas Feministas).

Ainda bem que a gente não perde o humor. Na época, a hashtag #distractinglysexy foi uma das respostas mais divertidas que eu já vi a um caso de machismo na academia (veja aqui alguns exemplos). Ah, e o tal pesquisador prêmio Nobel pediu demissão. Sim, eu entendo que o comentário dele não chega nem perto da gravidade de uma experiência de violência sexual, mas, voltando ao início desta coluna, se você assistir a 13 Reasons Why, vai ficar muito claro o poder das palavras, como elas constroem e reforçam imagens que resultam em casos extremos – ou seja, como comentários como o de Hunt contribuem para a perpetuação da cultura do estupro em nossa sociedade em geral e dentro até das próprias instituições de ensino.

 

Referências:

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. RJ: Nova Fronteira, 1985.

 

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