O que podemos aprender com as bonobas: MULHERES, UNI-VOS!

Quem nunca ouviu que as mulheres competem entre si? Que é “natural” que é “instintivo” da “natureza”. Mas você já parou pra pensar se isso faz sentido?

Estaríamos nós mulheres competindo pelo recurso “homem”?

Para a maioria dos animais os machos competem pela fêmea, e esta escolhe aquele que a agrada.  Evolutivamente, espera-se que a escolha por estas características agradáveis seja uma pista verdadeira sobre as qualidades genéticas desse macho. Ou seja, a fêmea pavão escolhe o macho com a maior e a mais colorida cauda, porque esta funciona como um estímulo positivo, que a deixa “feliz” e atraída. Simples, né? Mas, porque a fêmea gosta dessa cauda?

A fêmea, em geral, investe muito na reprodução, cabe a ela produzir o óvulo e em muitos casos cuidar do filhote até o momento que este se torne independente. Assim, a escolha de um macho que tenha bons genes é fundamental.

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Mari Fogaça

E, é aqui que entra a cauda do pavão. Veja, ter uma cauda grande e colorida é muito, mas muito custoso. Com esta cauda o macho tem mais chances de ser predado, afinal, além de chamar atenção do predador, a cauda também o deixa mais lento. Além disso, existe um gasto energético no desenvolvimento desta cauda. Então, se este pavão que exibe sua cauda exuberante para a fêmea teve sucesso em não ser predado, e ainda assim conseguiu investir energia para outras atividades como deslocamento e busca de alimento, ele deve ter bons genes! E por isso, essa característica é indicativo de que vale a pena cruzar com este macho. Assim, a fêmea que por acaso curtiu aquele pavão com tão grande e colorida cauda escolheu bons genes, que aumentaram as chances de seus filhotes sobreviverem e se reproduzirem. Portanto, mesmo que a fêmea não faça todo esse raciocínio lógico, ela tem um reforço positivo sobre aquele estímulo que é a cauda grande e colorida, e isso a faz ficar receptiva para a cópula com aquele macho.

 

Visto que a fêmea na maioria das espécies é quem investe no óvulo e cuidado no desenvolvimento dos filhotes, elas são as que escolhem e os machos os que competem. A natureza está cheia de exemplos e você pode se divertir muito com essas histórias. Inclusive exemplos dos casos quem são minoria onde o macho investe mais no cuidado dos filhotes.

Mas e os humanos?

Bem, seguindo esta lógica, nós mulheres possuímos o recurso mais custoso: o óvulo. Logo, nós escolheríamos e os machos competiriam. Contudo, existe muita controvérsia neste raciocínio. Teria uma razão social-histórica na qual reduzir o papel das mulheres ao de mãe e desestimular o cooperativismo destas seria interessante? Possivelmente. Deixo aqui o apelo para que uma das minhas amigas com maiores condições teóricas sobre o assunto o discorra e discuta.

Na perspectiva evolucionista, há uma linha que discute que, apesar de nós mulheres produzirmos o óvulo, outras características exclusivas da nossa complexa sociedade levariam a uma posição diferente. Contudo, há poucas evidências de que as mulheres competiriam entre si pelo homem.

Estudar humanos é muito difícil porque quase não conseguimos isolar variáveis culturais, e uma das formas de ter acesso à adaptabilidade dos nossos comportamentos é observar como os animais – e, mais especificamente os macacos  – lidam com os desafios da vida em sociedade. Um exemplo disso são os bonobos, pois são macacos ótimos para se fazer uma analogia com os humanos, tanto por sua proximidade filogenética quanto por seu sistema social.

Um trabalho com bonobos feito pela pesquisadora Nahoko, do Instituto de Pesquisa em Primatas-Japão mostrou que fêmeas se unem para que juntas, e reforço aqui, em cooperação e formando alianças, contra-ataquem machos que foram agressivos contra uma ou mais fêmeas. Coalizões no mundo primata são usualmente formadas por indivíduos que trocam favores sociais, ou que são parentes, porém, não neste caso. Todas as fêmeas parecem ser propícias a cooperar com outras fêmeas quando o contexto é revidar a agressividade de um macho, e, em outras palavras, não somente amigas se unem para se defender. Assim, basta apenas uma fêmea ser agredida para que as demais se unam. Como não há troca de favores, não seria um caso de reciprocidade, mas de mutualismo. O estudo mostra que em conjunto elas têm maiores chances de vencer. A participação das fêmeas mais velhas aumentam as chances dessas investidas serem bem sucedidas. Para as mais velhas, parece que apoiar as fêmeas mais novas e assim mantê-las próximas poderia trazer vantagem reprodutiva aos seus filhos. Este estudo sugere que a formação social entre fêmeas, ao contrário da lenda urbana, sofreu pressão evolutiva para serem unidas.

Mulheres uni-vos!

PARA LER MAIS:

Tokuyama N & Furuiche (2016) Do friends help each other? Patterns of female coalition formation in wild bonobos at Wamba. Animal Behaviour. 123.

Alcock, J. (2011). Comportamento Animal: uma abordagem evolutiva. 9 ed. Artemed.

 

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