Animais transgênicos podem ser aliados da saúde humana

Ao final do ano de 2015, uma notícia sobre transgênicos causou rebuliço na internet. A FDA, agência que regulamenta e fiscaliza assuntos relacionados a fármacos e alimentos nos Estados Unidos, considerou pela primeira vez um animal transgênico como seguro para integrar a alimentação humana (https://super.abril.com.br/ciencia/eua-liberam-venda-de-salmao-transgenico-entenda/). Tratava-se do salmão do atlântico transgênico AquAdvantageSalmon® que cresce muito mais rápido que um salmão não transgênico. Esse peixe foi gerado em laboratório para produzir hormônio de crescimento mesmo em temperaturas muito baixas, nas quais salmões não transgênicos param de crescer (http://www.nature.com/nbt/journal/v10/n2/full/nbt0292-176.html).

Muitas pessoas associam transgênico apenas à melhora de características intrínsecas do organismo, como o caso do salmão ou à aquisição de característica de resistência como a de algumas sementes atualmente comercializadas como as de milho resistentes a insetos. O posicionamento de entidades contra os transgênicos e a escassa informação sobre estudos de longa duração em linguagem acessível à população fazem com que o termo “transgênico” pareça assustador para muitas pessoas. O objetivo deste texto é desmistificar o papel de vilão dos transgênicos, mostrando as funções benéficas aos seres humanos, em especial o de produção de moléculas de interesse, principalmente para fins de terapia.

Primeiramente, é importante mencionar o que significa transgenia. Transgenia é um dos tipos de modificação genética que se pode realizar em um organismo. Ela consiste em se inserir no DNA de um organismo, um trecho de DNA oriundo de outro organismo e capaz de levar à produção de uma proteína que seja de interesse do manipulador  (http://books.scielo.org/id/sfwtj/pdf/andrade-9788575413869-42.pdf). A sequência que se transfere ao organismo alvo é camada de transgene; se ela for oriunda de um organismo de mesma espécie chama-se o animal gerado de autotransgênico, e se for de espécie diferente, alotransgênico – este último também comumente referido como transgênico, apenas (http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1095-8649.2007.01738.x/abstract) (Figura 1).

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Figura 1: Geração de auto ou alotransgênicos (exemplificado para peixes) – nos autotransgênicos a sequência de DNA de interesse é oriunda de organismo de mesma espécie; no alotransgênico (popularmente conhecido como transgênico) a sequência de DNA é oriunda de espécie diferente.

Assim sendo, todo animal transgênico é geneticamente modificado, mas nem todo geneticamente modificado é um transgênico. Modificações genéticas também podem incluir remoção de sequências do DNA alvo e alteração de sequências com propósitos definidos (http://www.unifesp.br/campus/sao/cedeme/modelos-animais/camundongos/animais-geneticamente-modificados), e por esta razão estes dois termos não são sinônimos.

Como os animais transgênicos são produzidos?

Animais transgênicos são gerados em sua maioria por uma técnica clássica proposta na década de 1970,chamada microinjeção de ovos recém-fertilizados. Esta técnica consiste em injetar, com ajuda de uma microagulha de vidro, o transgene no ovo recém-fertilizado (logo após a fertilização in vitro por junção dos gametas (http://www.biotecnologiaanimal.com.br/fecundacao-in-vitro-fiv/tecnicas-e-procedimentos)). A integração no genoma alvo geralmente ocorre após as primeiras divisões celulares terem acontecido, produzindo um transgênico mosaico – contendo a modificação genética em algumas de suas células e em outras não. Após o cruzamento destes animais com animais não modificados, os transgênicos totais poderão ser encontrados na prole (Figura 2).

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Figura 2: Microinjeção de ovos recém-fertilizados para geração de animal transgênico (exemplificado para peixes) – os gametas são utilizados para fertilização in vitro e em seguida injeta-se a sequência de interesse. É comum que a integração no genoma alvo, quando ocorre, aconteça após algumas divisões celulares, produzindo-se assim um transgênico mosaico. Este pode ser cruzado com animais não modificados para obtenção do transgênico total.

O primeiro organismo transgênico a ser gerado intencionalmente por pesquisadores foi uma bactéria, produzida em 1973 (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC427208/), e o primeiro animal transgênico produzido em laboratório foi um camundongo (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC388203/), gerado por microinjeção em 1974.

A produção de animais transgênicos visa, em sua maioria, conferir a estes, características que tornem mais lucrativo sua criação e mais rápida sua comercialização por exemplo, tolerância maior ao frio, resistência a doenças, crescimento mais rápido que o normal da espécie ou utilizar os animais como fábricas para a produção de moléculas de interesse humano (hormônios, enzimas, anticorpos etc.) (https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/animais-transgenicos/16643).

Já foram gerados, por exemplo, versões de leites enriquecidos em proteínas importantes como ativador de plasminogênio tecidual (https://www.nature.com/nbt/journal/v5/n11/full/nbt1187-1183.html) e antitrombina humanos (http://www.biopharminternational.com/production-recombinant-therapeutic-proteins-milk-transgenic-animals). Ambos encontram-se envolvidos com o processo de manutenção da fluidez sanguínea, se opondo ao processo de coagulação. O primeiro pode ser utilizado em tratamento médico visando destruição de trombos como no caso de embolia pulmonar; e o segundo, principalmente para prevenir a formação de trombos, principalmente em pacientes deficientes hereditários de antitrombina que vão se submeter a parto ou cirurgias.

A antitrombina produzida em cabras transgênicas e liberada no leite culminou no medicamento ATryn®, primeiro produto recombinante produzido em animais aprovado para uso humano na Europa e nos Estados Unidos (http://www.atryn.com).

Já é também realidade a produção de proteína básica de mielina no leite de vaca (https://www.sciencelearn.org.nz/resources/856-transgenic-cows-making-therapeutic-proteins). Esta proteína é parte da camada isolante necessária para a rápida condução de impulsos nervosos em nossos neurônios, sendo alvo de estudos que buscam seu possível potencial terapêutico no tratamento de esclerose múltipla (doença autoimune na qual o paciente sofre com perda desta camada isolante e consequentemente tem comprometimento de condução de impulsos nervosos pelo seu organismo).

Assim sendo, os transgênicos podem ser aliados da saúde humana, sendo fábricas eficientes de proteínas que possam ser utilizadas para fins terapêuticos (http://www.nanocell.org.br/biotecnologia-transformadora-totalmente-brasileira/). A oportunidade de manipulação genética ainda oferece a possibilidade de redução de custos na obtenção das proteínas de interesse, podendo refletir em redução de preço final dos medicamentos para o consumidor final.

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