“A mulherada está na rua/pela democracia/Contra o machismo/a nossa luta é todo dia!” – 13º. Mundos de Mulheres e o 11º. Fazendo Gênero

De 30 de julho a 4 de agosto, aconteceram os eventos internacionais 13º Mundos de Mulheres e o 11º Fazendo Gênero, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O Mundos de Mulheres é um evento trienal, que conta com mulheres de várias partes do mundo, tanto acadêmicas quanto militantes, para discutir os vários feminismos. Pela primeira vez ele foi sediado em um país da América do Sul. O Fazendo Gênero, por sua vez, é um evento que ocorre, geralmente, a cada dois anos e é sediado na UFSC. Ele também discute feminismos e questões de gênero. Este ano, mais de oito mil pessoas participaram de ambos os eventos.

O tema deste ano, para ambos os eventos, foi “Transformações, Conexões e Deslocamentos”, e contava com conferências ministradas por renomadas acadêmicas e/ou militantes, mesas redondas, fóruns de debates, simpósios temáticos, sessões de pôster, minicursos, oficinas, lançamento de livros, mostras audiovisuais e fotográficas, entre outras atividades.

Um momento especial, que fez parte do evento, foi a Marcha Mundos de Mulheres por Direitos, que aconteceu dia 2 de agosto, no final da tarde. Representantes de diversos movimentos, como o Movimento Sem Terra, o Movimento de Mulheres Camponesas, indígenas, quilombolas, entre muitos outros, estavam presentes. A marcha tem, como um de seus objetivos, mostrar a diversidade das mulheres do mundo, algo que justifica o uso do termo “feminismos” em vez de “feminismo” no singular. Durante a marcha, palavras de ordem, marchinhas e apresentações ocorreram. As paródias mostravam reivindicações das mulheres (como, por exemplo, “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente com a roupa que escolhi, e poder me assegurar, que de burca ou de shortinho, todos vão me respeitar”; “a nossa luta é todo dia, somos mulheres, e não mercadoria”). Este ano, participaram 10.000 pessoas.

Um tema presente em várias apresentações foi a interseccionalidade, ou seja, a discussão das questões de gênero permeadas por outros marcadores sociais, como a sexualidade, a raça e a classe social. Levando em consideração a pluralidade do ser e de formas de opressão como o racismo e o sexismo, é absolutamente necessário abrir espaços para a discussão de como os diferentes marcadores sociais se inter-relacionam nos diferentes contextos, possibilitando ou limitando a capacidade de agência dos atores sociais. Além da interseccionalidade, outra característica bastante presente em muitas apresentações foram questionamentos como: quem faz a ciência?, faz para quem?. Nesses debates, foram evidenciados conceitos como a colonialidade[1] do poder, do saber e do ser[2], que, de forma bastante geral, podem ser entendidos como modos de tornar certas práticas e conhecimentos legítimos e abjetar qualquer forma de conhecimento que está fora desse tido como “legítimo”.

Apesar de discutir feminismos, direitos sexuais e reprodutivos, questões de gênero e temáticas relacionadas, alguns temas apareceram apenas de maneira marginal. Por exemplo, os termos “bissexualidade” e “bissexual” não apareceram no título de nenhuma apresentação e a “assexualidade” apareceu em apenas uma. A necessidade de dar visibilidade aos bissexuais foi apontada em algumas das mesas nas quais eu estava presente, o que mostra que, mesmo dentro de um contexto no qual a discussão de gênero e sexualidade é bastante prolífica, ainda existem grupos que podem estar situados em posições inferiorizadas e/ou sendo invisibilizados. Tais grupos demandam, portanto, visibilidade e representatividade.

De maneira geral, o evento possibilitou a discussão de temáticas de interesse para todas e todos que desejam e lutam por uma sociedade mais igualitária e justa, especialmente para a população brasileira, levando em consideração os retrocessos que vem acontecendo em esferas como a saúde e a educação.

Quer saber mais?

O caderno de programação do evento: http://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/download/download?ID_DOWNLOAD=58

Em breve, os anais do evento, com os textos completos das apresentações, estarão disponíveis para consulta.

Acompanhe as notícias no site: http://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/site/capa

[1] “Colonialidade” é um termo distinto de “colonianismo”. O primeiro se refere a uma forma de poder característica do capitalismo moderno, enquanto o segundo indica uma forma de política imperialista na qual se utiliza da invasão física de territórios. O post da Raquel Galvão, publicado semana passada na coluna em off, fala um pouco sobre os descolonianismos.

[2] Para saber mais sobre esses termos e seus significados, ler autores como Aníbal Quijano, María Lugones e Boaventura dos Santos. Por exemplo:

Lugones, M. (2010). Toward a Decolonial Feminism. Hypatia, 25(4):742–759.

Quijano, A. (2001). Colonialidad del poder, cultura y conocimiento en América Latina. In: Mignolo, W. (Ed.). Capitalismo y geopolítica del conocimiento: El eurocentrismo y la filosofía de la liberación en el debate intelectual contemporáneo. Buenos Aires: Ediciones del Signo, p. 117–131.

Santos, B. S. (2007). Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo.

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